A jornalista da RTP Cândida Pinto foi distinguida pela Sociedade Portuguesa de Autores com o Prémio Mário Mesquita. Esta distinção sublinha uma carreira ímpar no exercício do jornalismo em Portugal, pautada pelo rigor, excelência e isenção. Destaca-se o seu importante papel na cobertura dos principais acontecimentos mundiais como é o caso da guerra na Ucrânia, onde já esteve mais do que uma vez com o repórter de imagem David Araújo.

Para Cândida Pinto, o Prémio Mário Mesquita prestigia “a área onde me movo há décadas e que constitui o miolo do meu trabalho: a reportagem internacional. Talvez por sermos geograficamente periféricos, talvez por outras razões, o internacional tem normalmente um lugar menor, mais restrito no dia a dia do que é emitido ou publicado. A não ser em momentos especiais de conflitos de larga escala ou ocasiões eleitorais ou noutros eventos de grande amplitude. Mas creio que só nos engrandece dar atenção ao que se passa à nossa volta no mundo”.

Na fotografia a jornalista Cândida Pinto e o presidente da Sociedade Portuguesa de Autores José Jorge Letria. 

 

O que move um jornalista não são os prémios que ganha, mas sim o ato de fazer bem jornalismo. Exemplo disso foi Mário Mesquita e, tal como ele, Cândida Pinto segue o rigor e a exigência em cada notícia dada, afinal “o jornalismo é sempre um exercício arriscado onde é preciso ter a mente aberta para interpretar sem preconceitos ou ideias pré-concebidas a realidade. E a realidade está sempre em mudança, ultrapassando tantas vezes a ficção. Ao mesmo tempo, o jornalismo dá-nos esse privilégio de andar sobre a fina linha da atualidade, de vibrar com os acontecimentos, de nos aproximarmos dos factos com paixão e racionalidade e dúvida”.

E dúvidas haverá sempre em qualquer jornalista, dando Cândida Pinto o seu próprio exemplo aquando da cobertura da guerra na Ucrânia: “Ao início, tive imenso pudor em usar a palavra guerra. Nos primeiros dias não a usava. Tinha dúvidas porque tenho muito respeito e desprezo pelo que é uma guerra e o que é que isso implica. Apesar de todos os indicadores e avisos, não achava concebível que em 2022 na Europa não existisse entendimento suficiente para abortar um conflito de grandes proporções. Estava enganada”.

Sobre esta experiência, amplamente destacada pela Sociedade Portuguesa de Autores, a jornalista da RTP encontrou “o ser humano mais perto do seu estado genuíno e transparente. A urgência da sobrevivência faz cair máscaras, revela o absurdo e o sublime”.

Em locais de conflito, Cândida Pinto encara sempre o jornalismo como o seu “escudo protetor. É o que fazemos que nos permite aproximar dos factos, tentar entender, descodificar, interpretar e revelar. O facto de ‘estarmos no sítio’ seja onde for, implica essa responsabilidade de transmitir uma informação fidedigna, confiável, tão próxima dos factos quanto possível. Para isso a formação do jornalista é essencial e nunca está acabada, constrói-se dia a dia”. Afinal, “os contextos mudam, as tecnologias mudam e as formas de fazer mudam. Há sempre coisas novas para aprender com o passado e com as novas gerações”.  

Na Ucrânia partilhou dias intensos com o repórter de imagem David Araújo, “um grande companheiro, íntegro, inteiro, cúmplice e disponível”. E é a ele e a todos os colegas com quem trabalhou que dedica o Prémio Mário Mesquita.