Ligamos a televisão por hábito, mas a chegada do digital e, com ele, dos serviços de streaming, tem levado o mercado a questionar nos últimos anos o modelo de negócio e a sua sustentabilidade. Na era dos múltiplos ecrãs e da permanente conectividade online, qual o espaço deixado para a televisão? No 31º Congresso das Comunicações da APDC, que decorreu entre 11 e 12 de maio, os líderes dos maiores grupos de media em Portugal – RTP, Impresa e Media Capital – debateram o “Estado da Nação” de um setor em contaste adaptação aos novos tempos.

O digital é encarado pelos operadores como uma oportunidade, mas são muitos os desafios que se impõem, sobretudo, ao setor da televisão. A queda das audiências dos canais generalistas contrasta com a popularidade crescente das plataformas de streaming que, regra geral, têm batido recordes consecutivos do número de subscritores.

Com um consumo mais rápido e disperso, a estratégia passa por apostar em conteúdos relevantes e sempre numa lógica multiplataforma. Na RTP, a crescente aposta no digital é essencial e urgente para acompanhar as novas tendências de consumo e agregar os diferentes públicos. “Quando se fala da RTP há sempre a ideia de que a RTP é só a RTP1, mas a RTP é um grupo que tem 8 canais de televisão, 7 canais de rádio e uma forte componente digital. Temos aquilo que considero que é a nossa Netflix, a RTP Play, onde existe um conteúdo alargadíssimo e todo gratuito, desde séries a documentários. Temos ainda a RTP Arena e a RTP Palco, ambas com uma panóplia de conteúdos verdadeiramente alargada para diferentes públicos”, afirma Nicolau Santos, presidente da RTP.

Para Luís Cunha Velho, administrador da Media Capital, o digital, sendo o futuro, “assume cada vez mais um peso importante para o setor. Produzir exclusivamente para o digital ainda não nos traz rentabilidade, mas hoje quando trabalhamos um conteúdo, já estamos a pensá-lo nas duas vertentes: a emissão analógica [linear] e a emissão digital.

Não existindo uma fórmula mágica, defende Francisco Pinto Balsemão, CEO do grupo Impresa, “estamos todos a testar, até mesmo as plataformas de streaming. A Netflix, por exemplo, testou há um ano em França um canal linear, agora vão também cobrar publicidade. Eles próprios sabem que não vão ser bem-sucedidos só com aquilo que fazem neste momento”. Francisco Pinto Balsemão tem a convicção de que “o digital será uma complementaridade da televisão. No futuro, vão haver dias em que a pessoa terá vontade de procurar o conteúdo que quer ver [nas plataformas de streaming], noutros dias irá preferir que seja aquela marca de qualidade [a televisão linear] a fornecer o conteúdo”.

Os líderes dos maiores grupos de Media em Portugal: Francisco Pinto Balsemão (Impresa), Luís Cunha Velho (Media Capital) e Nicolau Santos (RTP). 

E se as plataformas de streaming são pagas, o futuro dos operadores privados de televisão pode também passar por fornecer conteúdos pagos. “Temos de perceber qual é o mercado que temos. Os conteúdos pagos e não pagos devem ser experimentados, questionados, abrindo nós caminho para entender quais as vantagens [de cada opção]. A tecnologia está a caminhar numa velocidade extraordinária, quiçá amanhã não teremos plataformas digitais portuguesas com conteúdos diferenciadores e falados em várias línguas, seja numa vertente paga ou não”, acrescenta Luís Cunha Velho.

Para a RTP, o caminho deve ser outro, acreditando Nicolau Santos que as plataformas de streaming podem ser aliadas: “Se não os consegues vencer, junta-te a eles e é isso que está a acontecer. Hoje é possível fazer conteúdos que passam na televisão generalista mas que, ao mesmo tempo, tem impacto no streaming e nas redes sociais. Estamos a fazer vários conteúdos com parceiros internacionais, seja a Netlfix, a HBO ou a Amazon Prime. Isso permite potenciar os nossos produtos nas diferentes plataformas globais”.

O impacto do digital junto do público cresce de ano para ano, no entanto, a televisão linear continua a absorver mais de metade do mercado publicitário em Portugal. Este facto, segundo Francisco Pinto Balsemão, mostra que a “caixinha mágica” ainda é valorizada pelos anunciantes, afinal “não há nenhum outro meio como a televisão que permita às marcas chegar tão rapidamente a um grande número de pessoas ao mesmo tempo. A televisão é um meio regulado e só o facto de haver uma regulação traz às agências e anunciantes um outro tipo de segurança que não existe noutros meios”.