Doentes com Alzheimer treinam memória em casa

Inovação Plataformas online, pioneiras na reabilitação neurológica, facilitam acesso a cuidados de saúde com tecnologia simples de usar.

Neurologista Vítor Tedim Cruz venceu o prémio ibérico para melhor doutoramento em sistemas e tecnologias de informação.

São duas soluções pioneiras na área da reabilitação neurológica para doentes com défices cognitivos e motores decorrentes de patologias como Alzheimer, Parkinson, acidentes vasculares cerebrais (AVC), esclerose múltipla ou de traumatismos cranioencefálicos e mazelas articulares crónicas. Uma chama-se Cogweb e é um programa de treino cognitivo online que está em pleno funcionamento por cerca de dez mil pacientes. Outra é uma plataforma de reabilitação inteligente para vítimas da AVC que, em breve, será aplicada. Inéditas cá dentro, já foram premiadas lá fora.

Os dois sistemas envolvem tecnologia simples de usar, know-how especializado e assentam em decisões tomadas por doentes e familiares. Não implicam grandes deslocações, logo grandes custos, explica Vítor Tedim Cruz, neurologista do Centro Hospitalar de Entre o Douro e Vouga, em Santa Maria da Feira.

Os objetivos são claros: eliminar barreiras no acesso aos cuidados de saúde, obter tratamentos mais intensivos e supervisionados, melhorar o processo de decisão clínica. Tudo com tecnologia de baixo custo que permite aos doentes exercitar a mente e o corpo com treinos feitos em casa e prescritos conforme o seu caso.

“São aplicações sensatas da melhor tecnologia possível”, resume o autor dos sistemas. As duas plataformas foram desenvolvidas no âmbito do seu doutoramento (“Novos métodos de reabilitação cognitiva e motora: desenvolvimento e validação clínica”) que venceu o prémio de melhor tese de doutoramento ibérico em sistemas e tecnologias de informação da Associação Ibérica de Sistemas e Tecnolo- gias de Informação (AISTI), que premeia a inovação, o rigor e a qualidade da investigação. Entre 34 candidaturas de vários países, a distinção veio parar às mãos do médico português que assina a tese defendida na Universidade de Aveiro. “As doenças crónicas não transmissíveis proliferam e, se continuarmos a geri-las de forma clássica, não há, de facto, recursos para chegar a todos. Temos de remodelar os modelos e processos de decisão”, defende. Ou se muda o processo ou não se chega a todos.

Controlar o número de erros

O Cogweb está em ação desde 2007. Prático, consiste num sistema online com programas personalizados de treino cognitivo através de exercícios que estimulam várias funções como a atenção, concentração, memória, linguagem. Tem mais de 70 exercícios feitos no computador e, por dia, entre cinco a dez doentes aderem a este sistema que já chegou a mais de dez mil. E já é usado por uma rede com mais de 60 centros clínicos, hospitais, instituições académicas, autarquias e empresas, incluindo S. Paulo e Rio de Janeiro, no Brasil.

A poupança é ponto assente. “Um dos nossos princípios é que nenhuma instituição tenha de comprar hardware novo para usar o sistema.” E rentabiliza-se tempo de serviço. “Com as mesmas horas de trabalho, os profissionais podem aumentar quatro vezes o número de doentes e cada doente receber 15 vezes mais tempo de treino por semana”, adianta Vítor Tedim Cruz.

O outro dispositivo, que ainda será aplicado, passa por prescrever tarefas motoras a doentes com AVC, controlando a sua execução à distância. Nos testes já realizados, verificou-se que o número de movimentos corretos na tarefa mão boca aumentou em média 7,2 minutos. “Num processo de reabilitação, é fundamental controlar o número de erros. Só vale a pena repetir se estivermos a repetir bem”, diz o neurologista. “No fundo, pede-se o impossível à saúde: garantir os melhores cuidados de saúde a todos. Acho que se deve pedir isso. O ensejo humano e a tecnologia devem servir para isso”, conclui.

 

Notícia JN.