Especiais

The Smiths: Strangeways, Here We Come

Textos: Pedro Gonçalves | Locução: Nuno Reis
Sonoplastia: Gualter Santos

 

28 de setembro de 1987. Assinalam-se hoje os 30 anos da edição de Strangeways, Here We Come, o quarto e último álbum de estúdio dos Smiths. Ao longo do dia, a Antena 3 assinala esta efeméride com dez especiais de Pedro Gonçalves, percorrendo o disco de uma ponta à outra, faixa a faixa.

 

“A Rush and a Push and the Land Is Ours”

Nos idos anos da década de 80 do século XX, um álbum não era uma coisa qualquer. Era um solene conjunto de temas ordenado de determinada forma e pensado para consumo por essa mesma ordem. O que significa que “A Rush and a Push and the Land is Ours” era a canção que se seguia a “I Know It’s Over”, que fechou as portas de The Queen is Dead, de Junho de 1986. Descontados alguns singles e seus não menos importantes lados B, “A Rush and a Push and the Land is Ours” foi a canção que marcou um regresso amargo. Em boa verdade, os Smiths haviam implodido meses antes. Morrissey, Rourke e Joyce para um lado, Johnny Marr isoladamente para outro até confirmar a sua retirada. Os Smiths, ao contrário do que anunciaram, não resistiram à saída de um dos maiores guitarristas de décadas de rock. E, curiosamente, a canção com que abrem o seu canto do cisne, precisamente este “A Rush and a Push and the Land is Ours”, é, exceptuando “Asleep”, a única da sua existência sem a guitarra de Johnny Marr. Calma. As teclas são dele.

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“I Started Something I Couldn’t Finish”

Se a ausência de guitarras na abertura de Strangeways, Here We Come provocou pasmo generalizado, “I Started Something I Couldn’t Finish” coloca as coisas no seu lugar proverbial. Toda a canção depende de um jogo de acordes despudoradamente glam abandonado nas gravações do single “Sheila Take a Bow”. Editada ela própria no formato single, o segundo retirado de Strangeways, Here We Come, “I Started Something I Couldn’t Finish” entronca na vasta colheita de peças dos Smiths cravadas de encriptadas referências a estranhas relações desamorosas, sendo para muita gente a frase “I grabbed you by the guilded beams” matéria de estudo ao longo dos anos. Um desvio imposto no caminho de duas pessoas e 18 anos de trabalhos forçados viriam a sugerir a Simon Goddard, que escreveu profusamente sobre os Smiths, uma alusão de “I Started Something I Couldn’t Finish” à condenação de Oscar Wilde por sodomia em 1895. Bem mais evidente do que isso é o facto de Stephen Street, produtor do álbum, ter deixado no final da canção uma pergunta de Morrissey feita no estúdio: “OK, Stephen, shall we do that again?”. E de o número 23 na tabela britânica de singles ser muito pouco para a grandeza desta canção.

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“Death of a Disco Dancer”

A terceira canção de Strangeways, Here We Come troca novamente as voltas a quem pudesse ansiar por uns Smiths escorreitos e previsíveis. Reza a lenda que “Death of a Disco Dancer”, alegadamente alusiva a crimes homofóbicos e seguramente premonitória da cena acid house que mais tarde deflagraria, nasceu numa jam session de longos minutos. Facto, de resto, que qualquer audição corrobora a meio caminho entre o início e o fim. Mike Joyce, na bateria, deixa-se arrastar em vigorosa viagem pelos timbalões, assumindo inusitada liderança. Morrissey estreia-se num instrumento, martelando um piano que, se por um lado parece não emanar particular critério, por outro parece feito para elevar uma guitarra vertiginosa e circular a patamares de descontrolo que conseguimos associar aos Velvet Underground. “Death of a Disco Dancer” é um tema prodigioso, um composto intravenoso, uma estranha simbiose de quatro pessoas em plena ruptura num estúdio desterrado a sul de Bristol. Um grupo que já não o era a funcionar como se o fosse. O pior é que, como Morrissey canta na canção, amor, paz e harmonia… só se for no próximo mundo.

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“Girlfriend in a Coma”

Havendo no mundo conhecido quem apenas recorde uma canção dos Smiths, haverá entre essa população uma percentagem alargada que só conhece “Girlfriend in a Coma”. Foi o primeiro single de Strangeways, Here We Come e foi, seguramente, uma inflexão face àquilo que tinha ficado em The Queen is Dead. De acordo com Johnny Marr, o hit maior do quarto álbum dos Smiths resulta do particular apreço do guitarrista e do seu parceiro por “Young, Gifted & Black”, de Bob & Marcia. A temática, aparentemente autoexplicativa (uma namorada em estado comatoso), não deixa de ao longo dos tempos levantar teorias e ambiguidades. Tratar-se-á de amor-ódio, com certeza, mas se em muitas ocasiões Morrissey não se inibiu de cantar a sua vida, no que à sua existência amorosa diz respeito as palavras saíam-lhe mais metafóricas, genéricas, como se pertencessem a outros, tanto ou mais do que a si. “Girlfriend in a Coma” foi editada como single logo após as primeiras notícias que davam como certo o fim dos Smiths. E o que poderia parecer-se com a funesta despedida de dois namorados viria para sempre a soar como algo bem mais derradeiro: “Let me whisper my last goodbyes. I know, it’s serious”.

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“Stop Me If You Think You’ve Heard This One Before”

“Stop Me if You Think You’ve Heard This One Before” teria sido editada como single no Reino Unido, em Outubro de 1987, não fosse o facto de incluir um verso sobre um assassínio em massa. Acontece que, em Agosto do mesmo ano, em Hungerford, um homem de nome Michael Ryan havia matado 16 pessoas e ferido 15 antes de cometer suicídio. Apesar de rejeitada pela BBC, a canção que fechava o lado A do vinil não deixa de ser uma cavalgada triunfal dos quatro de Manchester. Introduzida pela bateria em aceleração e o que diz a História ser uma faca de cozinha a brandir as cordas da Telecaster de Johnny Marr, “Stop Me if You Think You’ve Heard This One Before” volta à temática hospitalar, desta vez na óptica de alguém barbaramente agredido por mentir. Mais uma vez, Morrissey não é claro na identidade dos protagonistas, deambulando entre excessos alcoólicos e, lá está, uma dor física suficientemente lancinante para fazer um budista planear um assassínio em massa. Para o letrista, “Stop Me if You Think You’ve Heard This One Before” teria sido single. O que não surpreende.

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“Last Night I Dreamt That Somebody Loved Me”

Não há qualquer exagero na afirmação de que “Last Night I Dreamt That Somebody Loved Me” pertence ao panteão das canções dos Smiths e, por consequência, da música popular do século XX. O tema, o primeiro que se escuta no lado B da versão em vinil de Strangeways, Here We Come, é para muitos (David Bowie incluído), a obra maior da banda de Manchester. Dividida em duas partes, a canção carrega uma densidade dramática que, se não é invulgar na história dos Smiths, aqui é de um brilhantismo estratosférico. Um piano sobre uma multidão de mineiros revoltosos retirados de um disco de efeitos sonoros da BBC; a épica entrada de todos os outros instrumentos; um lamento dilacerante; uma voz condenada a uma vida de solidão; um sonho de um amor que nunca existiu; uma linha de guitarra que surgiu a Johnny Marr, qual epifania, no autocarro da banda. Tudo isto enriquecido, a certa altura e até ao final, por uma orquestral grandiosidade capaz de levitar todas as almas que se lembram da adolescência. “Last Night I Dreamt That Somebody Loved Me” foi, no Reino Unido, o último single original editado pelos Smiths. É um grande adeus.

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“Unhappy Birthday”

Cruzar suaves linhas melódicas tiradas de uma guitarra acústica com palavras de ódio sem qualquer filtro que as suavize não é para todas as bandas. Mas, lá está, os Smiths não são como todas as bandas. “Unhappy Birthday”, sendo uma canção cuja simplicidade só é desafiada pelo invulgar diálogo entre guitarra e baixo, é uma declaração de ódio de Morrissey. Aos seus críticos, possivelmente. À sua banda e ao rumo que se lhe antevia, pode especular-se. Directo ao assunto, Morrissey entra a dizer ao que vem: “I’ve come to wish you an unhappy birthday”. Lá pelo meio, ameaça matar o seu cão e mata-se a si próprio. Tudo isto com uma íntima graciosidade inacessível a 90 por cento da população mundial. Sem guturalizações ou falsetes, sem nada que nos distraia do essencial: seja quem for o destinatário, Morrissey estima bem que seja profundamente infeliz. Quem ler a sua autobiografia encontra uma mão cheia de nomes que aqui encaixariam na perfeição.

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“Paint a Vulgar Picture”

Não é novidade para ninguém que a carreira a solo de Morrissey inclui uma relação errática com a indústria musical em geral. Não se pense, porém, que a animosidade dirigida a grandes editoras é coisa de tempos recentes. Basta ouvir “Paint a Vulgar Picture”. Intrincada ao ponto de poder incluir estilhaços de uma declaração amorosa, “Paint a Vulgar Picture” é sobretudo um ataque à ganância de empresas com particular talento para reeditar e re-embalar artistas, discos e discografias. No mais longo texto do álbum e num dos mais longos de toda a discografia dos Smiths, Morrissey discorre com fina ironia e perfumado azedume sobre uma luminosa estrutura melódica. Um exercício musical quase circular, em ciclos que se repetem e um curto solo elevatório, tantas são as palavras a cantar. Reza a lenda, a respeito de “Paint a Vulgar Picture”, que o cantor britânico Billy Fury e Geoff Travis, patrão da Rough Trade, editora dos Smiths, foram aqui inspirações maiores, não necessariamente pelas mesmas razões. Resta a dúvida: o que pensará Morrissey de todas as reedições e re-embalagens que a sua música e a música dos Smiths têm conhecido?

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“Death at One’s Elbow”

“Death at One’s Elbow” ficará, muito provavelmente, nos canhenhos da pop como o elemento dispensável de Strangeways, Here We Come. Suportada por uma locomotiva carregada de reminiscências rockabilly que a harmónica apenas sublinha, “Death at One’s Elbow” não é uma má canção. É, isso sim, para muitos fanáticos e especialistas dos Smiths uma canção irrelevante. A inspiração de Morrissey, bem como o próprio título da canção, terá vindo dos diários do escritor e dramaturgo inglês Joe Orton, assassinado em 1967 pelo seu amante, Kenneth Halliwell. Aliás, a referência na canção a um machado parece confirmar a teoria. Na canção, Morrissey pede a alguém, de nome Glenn, que não apareça em casa nessa noite. E, em boa verdade, pouco mais do que isso se passa. “Goodbye, my love”, repete no fim da canção. “Goodbye”, então.

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“I Won’t Share You”

A última canção do último dos quatro álbuns dos Smiths teria sempre uma carga simbólica tremenda para os discípulos do quarteto. Seria sempre a despedida oficial, fosse ela aquilo que fosse. Mas nos estúdios Wool Hall, Morrissey e Johnny Marr trataram de acrescentar razões para que “I Won’t Share You” seja uma memória indelével. Ou, como cantam eles noutra canção, uma luz que nunca se apaga. Em crescente convulsão devido à presença – em estúdio e na vida – de um recém-recrutado manager que só Johnny Marr tolerava, ouvir Morrisey cantar “I won’t share you” dificilmente deixará de soar a dedicatória. E acrescenta no final: “I’ll see you somewhere, I’ll see you sometime”. Por baixo das palavras, dispensada a bateria de Mike Joyce, tudo é celestial. A mesma sequência de acordes do hit “Ask”, desacelerada para o efeito, envolve-se emocionalmente com uma autoharp recuperada por Marr e uma linha de baixo que pede licença para fazer-se ouvir aqui e ali. Conta Simon Goddard em “Songs that Saved Your Life” que, quando ouviu “I Won’t Share You” pela primeira vez, o produtor Stephen Street não conteve as lágrimas. Compreende-se. Apesar de Morrissey aqui cantar “Life tends to come and go”, depois disto a vida dos Smiths partiu. Mas não voltou.

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