Entrevistas

O regresso à lua dos Air

Moon Safari, o álbum de estreia dos franceses Air, saiu há 25 anos e vai ter direito a reedição Deluxe em vinil. O disco tem algumas das canções mais conhecidas do grupo, casos de “You Make It Easy” e “Sexy Boy”, e é visto como um dos pilares da cena francesa dos anos 90 do século passado. Isilda Sanches conversou com Jean-Benoît Dunckel, um dos fundadores dos Air, sobre o passado e presente e as influências e motivações da dupla que este ano irá reunir-se para interpretar na integra um dos discos mais marcantes das últimas décadas. Matemática e o sucesso alcançado por via das redes sociais também são assunto nesta conversa.

I: Moon Safari já fez 25 anos, que memórias tem de quando saiu?

JBD (Air): Lembro-me perfeitamente, parece-me que foi ontem,… foi há muito tempo, mas na minha cabeça parece pouco. Mas sim, lembro-me. Foi há 26 anos que eu e o Nicolas fomos a uma loja de discos em Paris para ver o nosso disco, e foi um choque ver-nos num cd numa loja. Mas na verdade tive a certeza que a minha vida ia mudar, dizia a mim próprio que a minha vida ia mudar, e estava certo porque nos anos seguintes conheci o mundo, viajámos muito, fomos a todo o lado, Europa, Estados Unidos, Canadá… até à Austrália. Este disco mudou-me porque deixei de estar só em Paris, no meio daquela atitude snob, e fui conhecer outras culturas, novas formas de pensar, de fazer música e novos conselhos sobre a vida.

I: Na altura Moon Safari saiu apenas em CD?

JBD: Não, saiu em vinil também.

I: Ia perguntar sobre a reedição em vinil e toda esta excitação em volta do formato, tanta gente querer comprar Moon Safari em vinil…

Acho bom, porque, na verdade, o vinil é o verdadeiro suporte para a música porque mantém o tempo. Se voltarmos a ouvir uma gravação em vinil 20 anos depois, ela continua a soar bem. Eu acho o vinil o melhor suporte porque roda, gira, e porque é redondo, a forma circular funciona bem com as vibrações da música, que são como uma onda. Além disso, podemos comparar com outros suportes musicais, como o cd ou os serviços de streaming e o som do vinil será sempre mais quente e profundo. 

I: Essa é uma explicação um pouco técnica, o que talvez não seja surpresa tendo em conta que vem da Matemática…

JBD: Pois é.

I: Onde está a Matemática agora na sua vida?

JBD: Esqueci tudo (risos). Esqueci-me completamente da Matemática e da Física, acho que já não sou capaz de resolver nenhuma equação. Outro dia, porque estava a estudar coisas sobre voltagem e decibéis na música, tentei perceber se conseguiria escrever aquilo numa equação e já não sei as regras das funções algorítmicas, esqueci tudo. Mas alguém disse que a cultura é o que fica quando se esquece tudo, e acho que é mesmo verdade…(n.r.- frase atribuída a Edouard Herriot, estadista francês).

I: Falemos um pouco das influências em Moon Safari. Obviamente, pelo facto de até participar no disco (em “Remember”) Jean Jacques Perrey é uma referência, mas que outra música andavam a ouvir na altura?

JBD: Como todos os músicos, a nossa inspiração vem de coisas muito diferentes. Gostávamos tanto de músicos como Jean Jacques Perrey, Jean Michel Jarre e outros pioneiros electrónicos da música francesa, como de música negra, de gente como Stevie Wonder ou Isaac Hayes. E também estávamos muito interessados em ritmos e na associação do groove com boas harmonias de jazz, mas não queríamos fazer nada demasiado jazz, porque o jazz às vezes é cheesy, não todo, depende dos artistas, mas algum é muito cheesy e nós queríamos fazer uma coisa profunda, com melodias poderosas. Por isso também ouvíamos Pink Floyd, e éramos grandes fãs da cena new wave dos anos 80, de bandas The Cure, Joy Division, New Order… Tínhamos muitas influências.

I: Os Air foram contemporâneos da cena French Touch, que incluía nomes como Daft Punk, Bob Sinclar, ou Etienne de Crécy, mas eram de facto parte dela?

JBD: Pergunto-me também. Não sei. De certo modo fazemos parte do French Touch porque aparecemos na mesma janela de tempo em que os músicos franceses de eletrónica ficaram conhecidos no estrangeiro, mas, por outro lado, a nossa música é muito diferente, porque não é uptempo, não é música de clubes e às vezes nem sequer é eletrónica, porque é gravada de forma acústica, por isso… não sei. Acho que estávamos ao lado.

I: Agora que tem uma carreira a solo, com várias bandas sonoras, um disco de piano acabado de lançar (Paranormal Musicality), é preciso mudar muito o esquema mental para fazer os concertos de Moon Safari?

JBD: Mais uma vez, sim, por um lado, não pelo outro, peço desculpa (risos). Moon Safari ainda está nos meus dedos, porque trabalhámos tanto nele, e os grandes sucessos dos Air continuam a ser desse disco e continuam na minha cabeça, no meu corpo, nos meus dedos, existem em mim. Mas por outro lado, tanto eu como Nicolas fizemos outras coisas, bandas sonoras, projetos pessoais, e isso fez-nos mudar. Descobrimos música nova, novas formas de fazer música. Compor música para filmes é muito diferente…. Acho que crescemos, somos diferentes, mas nunca esquecemos Moon Safari e os Air, porque continuam a ser nossa arte.

I: O que pensa da pop actual? Ouve, interessa-se?

JBD: Interesso-me sim,  muito. Mas porque já sou velho é difícil encontrar coisas realmente excitantes. A cada cinco anos descubro um novo artista de que gosto, mas não ando ativamente à procura. Não gosto muito de música urbana, de rap, por isso é difícil encontrar grandes artistas nesta área, mas, por exemplo, há 10 anos, quando a Lana del Rey apareceu, gostei muito da música dela. Estes pequenos artistas fazem mini revoluções no mundo da música, irá acontecer sempre, por isso tento ouvi-los.

I: Se os Air fossem uma banda nova a lançar o seu primeiro álbum. Moon Safari, agora, o efeito e o sucesso seriam os mesmos?

JBD: Não. Quando o Moon Safari saiu, falou com as pessoas, as pessoas fizeram dele um sucesso porque gostaram da música e acharam que falava com elas, talvez por fazer algumas referências culturais. As pessoas precisavam daquele tipo de vibração porque era um sinal dos tempos. Eu acredito que a música tem esta capacidade incrível de capturar a vibração dos tempos e abraçar as necessidade e desejos das pessoas, por isso…não, não creio que Moon Safari tivesse sucesso, se saísse agora.

I: Acha que é mais difícil para um artista novo fazer-se notar em 2024, do que em 1997?

JBD: Sim, mas depende. Há uma nova forma de ser um artista de sucesso agora. O mal hoje em dia é que pode ter-se sucesso sendo influencer. Acho que as pessoas hoje em dia confundem artista com influencer e não é a mesma coisa. Um influencer é alguém que tem muitos seguidores no Instagram ou no Youtube e que às vezes organiza eventos para aumentar a sua base de fãs, o que pode ser feito com videos, com produtos comerciais, vendas…. Um artista é alguém que faz o que pode e o que sente, e alguns gostam e outros não. Hoje em dia é muito difícil perceber o que separa esse lado comercial do artístico e às vezes é difícil estabelecer uma fronteira entre ser um vendedor e ser um artista. Atualmente, os artistas estão em competição com estes vendedores comerciais, o que é uma pena, porque arte não é entretenimento, não é a mesma coisa.

I: Os artistas têm que se promover, acima de tudo e por vezes ficam reféns disso?


JBD: Sim. Vivemos num mundo louco, onde um jovem médico que pode estudar arduamente durante 10 anos para salvar vidas, vidas de pessoas inocentes, ganha quatro ou cinco mil euros por mês e do outro lado estão miúdas que vendem produtos nos seus instagrams e mostram fotos em biquínis e ganham 50 mil euros por mês. Não faz sentido nenhum.

I: Como é a sua relação com as redes sociais?

JBD: Tento usá-las mas, não é a minha geração (risos). Tento fazer o melhor que posso mas não me interesso muito e às vezes contrato pessoas para tratarem disso porque eu não sei o que fazer, não estou interessado em passar tempo a olhar para o telemóvel, por isso, na verdade, não quero saber (risos).

I: Esta reunião para concertos pode significar música nova dos Air?


Não sei. Já não fazemos música juntos há 7 anos e o plano para já é ir em digressão, e acho que é suficiente. É um grande esforço planear uma digressão e tocar novamente juntos. É muito trabalho. Veremos depois da digressão. Pode acontecer… Não sabemos porque há 20 anos estávamos numa fase em que nos entendiamos musicalmente e talvez isso tenha mudado. Talvez agora tenhamos desejos completamente diferentes e talvez a nossa arte já não combine. Por isso… logo se vê.

Depois de Moon Safari, seguiu-se uma discografia diversificada, experimental e ousada, ora no estúdio, ora perto do grande ecrã do cinema, na produção musical. Foi o que aconteceu na viragem do milénio, entre 1999 e 2000, quando a dupla de Jean-Benoît Dunckel e Nicolas Godin foi convidada para produzir a banda sonora de The Virgin Suicides de Sofia Coppola. A banda sonora oscila entre uma atmosfera sensual, nostálgica, etérea e uma sonoridade obscura, sempre orquestrada excecionalmente e mostrou-se fundamental não só para o êxito do filme da realizadora norte-americana, como também para o progressivo sucesso dos Air, que deixaram uma outra marca profunda e evidente na música, agora de mão dada com a sétima arte.

Felizmente, não foi a última vez que o grupo se desviou para o universo cinematográfico. Saltamos mais de uma década e chegamos a 2012, – o mundo não acabou! – ano em que os aventureiros Air assinaram uma banda sonora homónima Le Voyage dans la Lune, filme mudo de ficção-científica do conterrâneo Georges Méliès (de 1902). Uma longa-metragem disruptiva  para a época – o mesmo se pode dizer sobre os Air, provocadores e génios do seu tempo – e um marco no cinema, que ganhou uma nova vida quando a dupla, entusiasmada com a ideia de liberdade criativa, sem qualquer impedimento da parte de um realizador, seguiu a sua viagem cósmica sonora. “Seven Stars”, música incluída na banda sonora, tem a colaboração de Victoria Legrand (Beach House), que a escreveu, cantou e interpretou (curiosamente a colaboração acontece no ano em que é lançado Bloom, talvez o trabalho mais interessante da banda dream pop de Baltimore). Uma missão intergaláctica da qual apenas os Air eram capazes de se aventurar.

Voltemos a uma linha cronológica coerente. Depois de The Virgin Suicides, paramos em 2001, altura em que é lançado 10 000 Hz Legend. Um registo onde a influência de bandas como os germânicos Kraftwerk é evidente e onde a persona eletronic performers (itálico nos estrangeirismos) se consolidou. Conta com apenas uma colaboração, a participação de um nome do circuito indie, o norte-americano Beck, na faixa “The Vagabond”, que, resultou numa canção onde a identidade musical dos Air é tão forte como a de Beck, nenhuma atropela a outra, nada é sombra, apenas luz.

A beleza, a magia, e o paradoxo frescura-retro são uma constante na discografia dos Air. Talkie Walkie prova-o: este disco de 2004, cria uma nova paisagem sonora, tornando-se o álbum perfeito para sonhar acordado – “you could live in the sea/ and I could be a bird/ we would be together/ lovers forever”, ouve-se em “Venus”, faixa de abertura. “Cherry Blossom Girl” e “Biological” são apenas dois exemplos de como os Air aperfeiçoaram a arte de criar música para quem sonha. E como um sonho evoca sempre uma imagem… não surge como uma surpresa o facto de “Alone in Kyoto”, a última canção em Talkie Walkie, tenha feito parte da banda sonora de Lost in Translation (2003), outro filme assinado por Sofia Coppola.

Algures entre acordar e dormir está Pocket Symphony, de 2007. O quarto álbum de estúdio dos Air é riquíssimo: não necessariamente pela paisagem sonora, mas pela inovação técnica: o álbum incorpora instrumentos como a harpa japonesa (koto), do qual Nicolas Godin se tornou mestre. Já a cereja no topo do bolo é, talvez, a colaboração com Jarvis Cocker, front man dos Pulp em “One Hell of a Party” e ainda em “The Duelist”, acompanhado pela única Charlotte Gainsbourg.

Dois anos depois e é a altura de… “Sing, sang, sung, sing me a song!”. O verso ouve-se em “Sing, Sang, Sung”, a canção mais popular de Love 2, o quinto álbum da banda, mais virado para a cena rock, onde se ouve também, em tom premonitório: “Nothing lasts / it’s better that way” – uma vez que viria a ser o último trabalho para o universo musical dos Air.

AIR, do acrónimo “amour, imagination e rêve”: em português, amor, imaginação e sonho. Uma equação formulada pela super dupla de Jean-Benoît Dunckel e Nicolas Godin. Nunca a matemática foi tão especial.

Entrevista: Isilda Sanches

Texto: Isilda Sanches e Catarina Fernandes