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Lou Reed & John Cale: 30 anos de Songs for Drella

Quando Andy Warhol voltou a juntar Lou Reed e John Cale

Texto: Nuno Galopim | Locução: Nuno Reis | Sonoplastia: Luís Franjoso

 

Em 1990, Lou Reed e John Cale juntaram-se para celebrar a memória de um amigo — Andy Warhol — que tinha desempenhado um papel determinante nos tempos em que ambos integravam os Velvet Underground e desaparecido em 1987. O tempo tinha-os afastado, mas o reencontro fez-se num ciclo de canções que começou por nascer em palco e depois chegou a disco. Foi há 30 anos, e o álbum chama-se Songs for Drella.

 

Lou Reed e Jonh Cale nasceram ambos em março de 1942, com apenas sete dias de diferença. Mas, apesar de se terem cruzado em várias etapas das suas vidas, não podiam ter conhecido percursos iniciais mais diferentes.

Lou Reed nasceu em Brooklyn (em Nova Iorque) numa família judaica. Aprendeu a tocar guitarra, escutando canções na rádio e cedo exibiu comportamentos instáveis, que acabaram mesmo por levar a família a aceitar o tratamento com choques elétricos. E isso foi algo que Lou Reed nunca esqueceu, nem perdoou. Estudou jornalismo, cinema e depois escrita criativa… E entre os professores teve o poeta Delmore Schwartz, que sempre elogiou. Em 1964 encontrou trabalho numa pequena editora, que ganhava dinheiro criando versões de temas da moda, gravando-os em discos, muitas vezes, usados em juke boxes…

A dada altura, a editora resolveu criar uma banda para assegurar essas gravações. Chamou-lhes The Primitives e foi por lá que Lou Reed conheceu John Cale.

Cale tinha nascido no outro lado do Atlântico, no Reino Unido, mais concretamente no País de Gales. Estudou música em Londres e nutria um encantamento especial pela viola de arco. Em 1963, mudou-se para os Estados Unidos, tendo acabado a trabalhar com alguns nomes da música de vanguarda, de John Cage a La Monte Young…

Em meados dos anos 60, Lou Reed e John Cale estiveram na génese de um grupo que mudaria a história da música. Lançaram os primeiros singles em 1966, e, no ano seguinte, um álbum que, desde então, é citado em qualquer lista dos melhores discos de sempre… Chamavam-se The Velvet Underground.

 

Depois de pequenos ajustes na formação, os Velvet Underground envolveram também Sterling Morrisson e Moe Tucker. Nico passou brevemente pela formação por alturas do álbum de estreia… Mas havia uma outra figura maior em toda a história do grupo… Andy Warhol.

Não sabia música, não tocava uma nota, nem deu quaisquer indicações em estúdio, mas, não só apadrinhou e agenciou os Velvet Underground, como assinou a produção do seu álbum de estreia. E basta termos o disco nas mãos para vermos a mais evidente contribuição que ali deixou… a criação da capa única e inesquecível, dominada por uma banana em fundo branco…

Os desentendimentos que se viviam internamente, e que foram piorando com o tempo, ditaram o afastamento do grupo da esfera de Andy Warhol. Nico ficou logo ali pelo caminho… Mas em 1968, no ano em que editam o seu segundo álbum, era John Cale quem saía. E reza a história que foi afastado por Lou Reed… Este ainda ficou a bordo por mais dois discos mas saiu em 1970, iniciando uma carreira a solo que o confirmaria como um dos maiores poetas do rock’n’roll e um grande retratista da cidade de Nova Iorque…

 

A carreira a solo de Lou Reed não começou lá muito bem e o primeiro álbum passou longe das atenções. Em 1972, com produção de David Bowie, Transformer mudou o cenário e ali nasceram clássicos como “Walk on the Wild Side”, “Perfect Day” ou “Satellite of Love”. Seguiram-se muitos outros discos, alguns deles decididamente marcantes como o foram Berlin, mais tarde New York ou até The Raven, num percurso que terminou quando inesperadamente nos deixou em 2013.

John Cale, por sua vez, dividiu a sua carreira entre o trabalho como produtor e a criação de discos em nome próprio. Começou por gravar álbuns dos Stooges ou de Nico, mais adiante Patti Smith e Brian Eno… A solo criou discos inesquecíveis como The Academy in Peril, Frear, Helen of Troy ou Music for a New Society, revelando sempre um gosto por se desafiar constantemente…

 

Apesar da separação pouco amigável em 1968, Lou Reed e John Cale reencontraram-se em várias ocasiões, até mesmo no palco. Em 1972 juntaram-se com Nico no Bataclan, em Paris. E depois de ter trabalhado com Patti Smith em Horses, John Cale deu por si novamente com Lou Reed em palco, acompanhando a cantora e contando ainda com a ajuda de um outro jovem músico, de seu nome… David Byrne…

Apesar destes encontros pontuais, cada um conduzia o seu caminho a solo como bem entendia… No entanto, um envolvimento criativo, só foi possível depois de um novo encontro, menos feliz, na despedida de Andy Warhol, em 1987.

Algum tempo depois, Lou Reed foi ter com John Cale no final de um concerto seu. Conversaram sobre a possibilidade de criar algo que fosse uma homenagem ao velho amigo, do qual ambos se haviam afastado há já algum tempo… E foi assim que começou a nascer um projeto de concerto e, depois, um disco, ao qual chamaram Songs for Drella.

 

O processo criativo para escrita e composição de Songs for Drella começou por reativar o entusiasmo que em tempos tinha unido Lou Reed e John Cale nos Velvet Underground. Cale focou atenções na música. Lou Reed nas palavras… E as canções nasceram, criando um ciclo que, em conjunto, sugeria a uma coleção de episódios da história de vida de Andy Warhol.

Algumas canções descreviam situações, contavam histórias. Outras mostravam pontos de vista que podiam ter sido reações de Andy a este ou aquele acontecimento… E noutras canções havia uma visão de observador, por vezes os próprios dois músicos ali reunidos: Lou Reed e John Cale.

O nome, Drella, era uma velha alcunha de Warhol, inventada pelo ator Ondine, e da qual ele não gostava muito… Era um misto de Drácula e de Cinderela…

Sem bateria, com recurso a poucos instrumentos, as canções pintaram uma homenagem sentida, por vezes crítica e profundamente pessoal.

 

O ciclo de canções começou por ser apresentado, ainda incompleto, num espetáculo ao vivo na Church of St Anne em Brooklyn, em janeiro de 1989. Mais tarde, em novembro do mesmo ano, as canções tiveram nova vida durante quatro noites que juntaram Lou Reed e John Cale na Brooklyn Academy of Music. Depois, em mais duas noites, mas aí sem público, Lou Reed e John Cale gravaram todas as canções para uma edição em vídeo. Mas quando chegou a hora de gravar a música em estúdio, as coisas começaram a correr mal…

Velhos desentendimentos voltavam a fazer-se notar. E a dada altura, já com os trabalhos bastante avançados, John Cale afastou-se um pouco, deixando a Lou Reed a finalização do projeto. O disco lá saiu. Cativou elogios, mas já não foi acompanhado por uma digressão. Por essa altura toda a gente pensava que Lou Reed e John Cale não voltariam mais a trabalhar juntos…

Estávamos enganados… Em 1992 Lou Reed e Sterling Morrission apareceram num encore de um concerto de John Cale em Nova Iorque. E em junho de 1993 os quatro Velvet Underground da formação clássica (ou seja, também com Moe Tucker) estavam de regresso à estrada numa reunião que certamente não teria acontecido, sem a reaproximação entre Lou Reed e John Cale, eternamente fixada neste álbum que agora faz 30 anos.

E esse é outro dos motivos pelos quais vale a pena não esquecer… Songs for Drella