Especiais

Brasil Alucinado

Em 1966, tanto na Inglaterra como nos Estados Unidos, o rock adoptava uma postura mais experimental, em parte devido às novas oportunidades que os estúdios mais modernos colocavam à disposição.

Discos como Pet Sounds (Beach Boys), Surrealistic Pillow (Jefferson Airplane), Are You Experienced? (Jimi Hendrix), Twelve Dreams of Dr. Sardonicus (Spirit), The Madcap Laughs (Syd Barrett) e acima de tudo Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (The Beatles) consolidavam o que viria a ser conhecido como rock psicadélico e que teria uma influência decisiva nos estilos musicais que apareceriam nas décadas seguintes. O Brasil não só assimilou essa nova abordagem como integrou de forma radical e inovadora elementos da cultura popular e urbana, materializado no movimento Tropicalista, em rutura aberta com a MPB tradicional e com uma sociedade fechada e reprimida por um governo militar.

Joaquim Paulo fala sobre alguns dos discos e dos artistas que marcaram este Brasil Alucinado.

 

Tribo Massáhi — Estrelando Embaixador (1972)


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O disco Tribo Massáhi Estrelando Embaixador, da Tribo Massáhi, é um dos mais misteriosos e raros discos da música brasileira. Foi editado em 1972 numa edição muito reduzida, e ao longo de duas hipnóticas faixas ouvimos um transe de funk, música africana, psicadelismo e cânticos da Bahia. É um disco em jeito de celebração espiritual, um documento extraordinário das aventuras psicadélicas brasileiras nos anos 70.

 

Módulo 1000 — Não fale com paredes (1972)


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O rock praticado pelos Módulo 1000 é uma trip progressiva. Este disco foi gravado em 1972, produzido por uma figura de grande importância no brasil dos anos 70, o DJ Ademir que dominava o FM e clubes das grandes cidades.

As nove canções do disco Não fale com paredes são um exercício de grande criatividade instrumental e delírio sónico, onde não falta até uma música cantada em latim.

Não fale com paredes é um dos discos mais procurados pelos colecionadores de psicadelismo, em parte pela atenção dada por parte do lendário critico Austríaco Hans Pokora, guru na divulgação do psicadelismo através dos livros 2000 Record Collector Dream.

 

Paulo Bagunça e a Tropa Maldita — Paulo Bagunça e a Tropa Maldita (1973)


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Em 1974 a editora Continental perdeu a cabeça e editou um disco, no mínimo estranho, de um bando de nome Paulo Bagunça e a Tropa Maldita. Em plena ditadura militar um disco com a palavra Bagunça já suscitava grande alarido, agora Tropa Maldita deu muito que falar. E os meios conservadores da altura agitaram-se.

O disco era radical e lançava pistas para delírios psicadélicos nunca ouvidos. Com uma batida africana alucinada e desconcertante tudo misturado com um samba desconstruído por um teclado moog, este era à sua época um disco emblemático e futurista que misturava influencias tão dispares como Jorge Ben, os ingleses Traffic, percussão africana, jazz experimental. Em 1972, Paulo Bagunça definiu a sua música à revista Rolling Stone como “que vem lá de dentro, do coração, da caverna, dos sonhos e pesadelos”.

 

Marconi Notaro — No sub-reino dos Metazoários (1973)


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No sub-reino dos Metazoários de Marconi Notaro é uma das obras primas da cena psicadélica nordestina. Foi editado em 1973 e é uma das mais fantásticas experimentações do novo rock com a riqueza da música popular em total improviso de estúdio. Com produção da seita musical que acompanhava Lula Côrtes, Marconi Notaro divaga por um rock pesado soturno, experimental e onde descreve um universo delirante povoado por animais pluricelulares.

 

Bango — Bango (1970)


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O grupo Bango gravou apenas um disco no inicio dos anos 70, e os músicos Fernandinho, Elydio, Roosevelt, Max e Aramis desapareceram para sempre da música. Para a posteridade fica um registo histórico do rock mais aventureiro e experimental alguma vez produzido em terras brasileiras. O som do grupo pode ser visto como um misto de Os Mutantes, rock progressivo com uma forte presença de fuzz guitars, teclados e uma inspiração directa dos Black Sabbath. O disco de 1970 é um clássico absoluto do rock brasileiro.

 

Piri — Vocês querem mate? (1970)


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Uma das editoras mais arrojadas da música brasileira deu pelo nome de Quartin, fundada por Roberto Quartin, de curta vida nos anos 70 e albergue de algumas das mais inovadoras sonoridades. Um dos discos históricos da Quartin é Vocês querem mate? de Piri, uma jóia do psicadelismo brasileiro. Piry Reis já tinha colaborado com gente como Egberto Gismonti, Robertinho Silva e Jan Garbarek. Toda essa experiência foi trazida para a gravação do disco Vocês querem mate?, um dos segredos mais bem guardados do Tropicalismo. Um disco deslumbrante, de uma lucidez política e social tão actual nos dias de hoje como nos tumultuosos anos 70 no Brasil militar.

 

José Mauro — Obnoxious (1970)


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José Mauro é uma das figuras mais enigmáticas da música brasileira. Sabe-se muito pouco deste músico. Ao que parece morreu de acidente em 1970 logo após a gravação do disco Obnoxious. Mais recentemente, amigos do músico dizem que o cantor está vivo, alimentando desta forma o mito José Mauro. Outros factores contribuem para a mistificação do músico, em particular a presença constante nas capas dos discos e na sua roupa do símbolo Ankh, que representa a imortalidade. Mitos à parte, o que nos interessa agora é o disco Obnoxious, um dos mais belos da música brasileira. Foi editado em 1970, repleto de misticismo e construído numa lírica que aborda espiritualidade e redenção. Muitos comparam José Mauro a Scott Walker.

 

Sociedade da Grã-Ordem Kavernista — Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta: Sessão das 10 (1971)


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Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta: Sessão das 10 foi o único disco gravado pelo grupo do cantor, actor, dançarino, produtor teatral e artista plástico Edy Star, da cantora Miriam Batucada, do cantor Sérgio Sampaio, e do cantor e compositor Raul Seixas.

Foi gravado em 1971 pelos 4 kavernistas e na altura o disco foi completamente ignorado. Uma obra recheada de lendas ao longo de 11 faixas intercaladas por “vinhetas”.

A ideia inicial do mentor Raul Seixas era de inspiração directa nos discos Freak out de Frank Zappa, e Sgt. Pepper’s dos Beatles com o Tropicalismo à mistura. Ao longo dos anos este disco foi ganhando o estatuto de culto, e do anonimato aquando da sua edição passou para o domínio dos colecionadores de psicadelismo.

 

Flaviola e o Bando do Sol — Flaviola e o Bando do Sol (1976)


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Flaviola e o Bando do Sol são outros dignos representantes da geração nordestina pós-tropicalismo que teve em Paêbirú de Lula Cortês e Zé Ramalho a sua expressão mais radical.

Oriundo do Pernambuco, Flaviola e o Bando do Sol gravou um único disco em 1974 numa mistura explosiva de ritmos regionais, fusão folk-rock-psicadélica que permanece de grande actualidade. Basicamente um disco acústico ficou como um documento da força criativa que abundava no Recife nos anos 70.

 

Free-Son — Banguelê (1972)


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O grupo Free-Son foi formado nos anos 70 no Rio de Janeiro e reuniu 8 pesquisadores das origens musicais brasileiras que editaram em 1971 o seu único e raro LP. O disco Banguelê – nome dado a um ritmo e dança de escravos africanos – é composto por 12 curtas faixas num caldeirão de ritmos latinos, africanos, rock, funk, psicadelismo e jazz. É um disco praticamente todo instrumental com guitarra wah wah, órgão e percussão a dominar o conjunto. Um disco muito raro à espera de uma reedição.

 

Rubinho e Mauro Assumpção — Perfeitamente, justamente quando cheguei (1972)


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Dupla que abraçou o rock psicadélico fundada por Mauro Assumpção e Rubinho no Rio de Janeiro no inicio dos anos 70. Apresentavam um rock muito na linha das bandas californianas da altura, tais como Moby Grape, Love, Spirit ou Grateful Dead. O grupo teve uma vida muito curta, mas o único disco gravado Perfeitamente, justamente quando cheguei ganhou o mais que merecido estatuto de culto.

 

Pedro Santos — Krishnanda (1968)


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Desde a capa — concebida e executada pelo artista — percebemos que Krishnanda não é um disco qualquer. Na faixa de abertura, “Ritual negro”, os sopros remetem para os estudos com o maestro Moacir Santos. Mas a parte rítmica deste disco soa como se Pedro Santos (que morreu em 1993, de ataque cardíaco, aos 73 anos) tivesse ouvido até à exaustão os ensinamentos do afrobeat via funk de James Brown e os ritmos africanos de Fela Kuti.

Pedro Santos, carioca de gema, nasceu em 1919 e cumpriu um longo caminho até à gravação de Krishnanda, uma obra prima na busca de uma espiritualidade. A perda de um filho foi a génese para a composição deste disco.

Pedro Santos dedicou a vida a criar instrumentos de percussão como o Birimboca, o Bambussom e chocalhos de água.

Krishnanda é um dos grandes discos da história da música brasileira e foi gravado somente em 3 canais e ao longo de 2 semanas.

 

Lula Côrtes & Lailson — Satwa (1973)


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Escrito, gravado e editado sob o olhar inquisidor da ditadura militar brasileira nos anos 70, o único disco do grupo Satwa é uma incursão subtil na luta e protesto. O grupo foi formado após o regresso de Lula Côrtes e Lailson das suas respectivas viagens pelo estrangeiro, e teve apenas um ano de vida. Lailson vindo de Pernambuco, Lula Côrtes da Paraíba juntaram-se ao longo de onze dias em jam sessions permanentes e produziram um disco que é uma das glorias do folk-rock psicadélico numa espécie de transe em que o sítar de Lula cria os ambientes próximos de ragas e mantras alimentados a incenso, cogumelos alucinogénios e outras substancias para expansão muscular cerebral. O disco teve uma edição somente regional e muito limitada, o que contribuiu para transformar este LP num verdadeiro “holy grail”.

 

Spectrum — Geração Bendita (1971)


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Geração Bendita dos Spectrum foi talvez um dos discos mais procurados e coleccionados ao longo dos anos. A sua edição original ronda valores astronómicos. O disco tem pouco mais de 30 minutos, e ao longo de 12 canções as fuzz-guitar dominam por completo adornadas por vocalizações à la Beatles. O grupo nasceu em 1967 na cidade de Nova Friburgo e os jovens integrantes do Spectrum viviam os ideais do sonho hippie. Em 1971 veio o convite para gravarem a banda sonora daquele que é considerado o primeiro filme “hippie” brasileiro, Geração Bendita. Quem não gostou da ideia foi o regime militar brasileiro que baniu o filme no primeiro ano de exibição. Para a história fica este sonho de 5 jovens que gravaram o primeiro grande manifesto hippie psicadélico brasileiro.

 

Jaime & Nair — Jaime & Nair (1974)


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Jaime Alem é um maestro, instrumentista e cantor vindo de Jacareí do litoral de São Paulo. Nair chegou a ser crooner em orquestras de baile e na década de 70 acompanhou Jaime na mudança para o Rio de Janeiro, onde lançaram em 1974 o primeiro disco da dupla, uma obra-prima folk psicadélica de arranjos irrepreensíveis e grandes orquestrações. É um disco de um lirismo arrebatador, com o jazz à espreita.

 

Ave Sangria — Ave Sangria (1974)


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Músicos que usavam batom, beijavam-se na boca em pleno palco, praticavam uma música rude e suja com letras delirantes, e segundo os relatos da época eram uma séria ameaça à ordem pública. Eles faziam parte do grupo Ave Sangria, ex-Tamarineira Village, banda que escandalizou o recife em 1974, liderada por Rafles o auto-intitulado ministro da informação do grupo. Em 1968, Rafles era o mestre de cerimónias especialista em loucuras. Uma delas foi enviar pelo correio um charro reforçado para Paul McCartney. Meses depois, ele recebeu a resposta do Beatle: uma foto autografada como agradecimento.

A gravação do disco de estreia dos Ave Sangria foi uma verdadeira aventura, fruto da inexperiência e loucura descontrolada dos músicos. Uma das músicas que mais polémica causou foi “Seu Waldir”, considerado pelos moralistas pernambucanos como uma apologia ao homossexualismo. Numa altura em que a androginia tomava de assalto a música, os Ave Sangria fizeram história no Brasil. O disco foi proibido pelo departamento de censura e determinou que todas as cópias fossem recolhidas em todo o território nacional.

 

O Têrço — O Têrço (1970)


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O Têrço foi seguramente uma das grandes bandas rock brasileiras. Formaram-se em 1969 com Sérgio Hinds, César de Mercês e Vinicius Cantuária. Em 1973 editaram o disco O Têrço e consolidaram a sua posição com um rock progressivo psicadélico de inspiração inglesa. Inicialmente eram para se chamarem de Santíssima Trindade, mas recearam que a poderosa igreja católica brasileira não gostasse do arrojo. O grupo esteve no activo ininterruptamente até 1978.

 

Arnaldo Baptista — Loki? (1974)


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Produzido após a saída tensa e conflituosa dos Mutantes e no seguimento do casamento com Rita Lee, Loki? é uma das mais importantes e icónicas do rock brasileiro dos anos 70. Um disco a transbordar ironia e sombrio em que Arnaldo Antunes expõe a sua infelicidade, profunda decepção e arrependimento. O músico devastado pelo divórcio com Rita Lee, cria algumas das suas composições mais inspiradas e melancólicas, naquilo que seria uma espécie de última criação antes da derrocada psicológica de que até hoje padece.

 

Os Mutantes — Os Mutantes (1968)


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Foi graças ao entusiasmo de músicos como David Byrne, Beck ou Björk que Os Mutantes ganharam o estatuto de culto fora do Brasil. Depois de décadas votados ao esquecimento Os Mutantes voltaram a povoar o imaginário com o que de melhor alguma vez foi produzido no Brasil. O disco Os Mutantes de 1968 funcionou como um manifesto do que seria materializado no histórico disco Tropicalia ou Paris et Circensis deste mesmo ano.

A genialidade do disco de estreia dos Mutantes está na parceria entre Rita Lee, os irmãos Arnaldo Baptista e Sérgio Dias e o maestro Rogério Duprat, responsável pelos incríveis arranjos e manipulação sonora. Beatles, folclore nordestino, candomblé, Mothers of Invention, Velvet Underground, Chacrinha… não havia limites para a avalanche mutante.

 

Lula Côrtes e Zé Ramalho — Paêbirú: Caminho da Montanha do Sol (1975)


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Paêbirú não se resume a ser o disco brasileiro mais raro e valioso de todos os tempos, é também o grande marco de um momento único do psicadelismo. Disco peculiar e misterioso compilou todos os conceitos e ideias do colectivo liderado por Lula Côrtes. O disco duplo é acompanhado por um libreto de oito páginas e que serve de compêndio sobre “quem é quem no psicadelismo nordestino”. Cada um dos quatro lados é dedicado a um dos elementos da natureza: Terra, Ar, Fogo e Água. A atmosfera deste disco foi construída em comunidade hippie, com cantos sagrados, raga rock, acid folk, ritmos africanos e misticismo.