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50 anos depois do fim dos Beatles

Texto: Nuno Galopim | Locução: Nuno Reis | Sonoplastia: Gualter Santos

 

Em abril de 1970, o mundo ficou a saber um segredo que estava guardado desde setembro do ano anterior: os Beatles tinham acabado. Nesse ano, todos os quatro elementos do grupo lançaram discos a solo, mas, na verdade, nunca deixaram de surgir novos discos dos Fab Four… E alguns deles com gravações inéditas e até mesmo novos originais…

 

Foi a 10 de abril de 1970 que o segredo deixou de o ser. Paul McCartney tinha emitido na véspera um press release. Tinha a forma de perguntas e respostas e destinava-se sobretudo a anunciar uma outra surpresa: ele ia editar um disco a solo daí a poucos dias. Mas, entre as palavras, Paul acabou por fazer uma outra revelação ainda mais bombástica, ao contar que se tinha afastado dos Beatles, que o grupo não tinha planos futuros para novos discos e que não se imaginava a voltar a compor canções juntamente com John Lennon.

A notícia foi de facto estridente. E pelos jornais de todo o mundo havia notícias sobre o fim dos Beatles. A aventura tinha chegado ao fim. Mas na verdade a decisão já estava tomada há algum tempo… Em setembro de 1969, depois de uma viagem ao Canadá na qual tinha feito a estreia ao vivo da Plastic Ono Band, contando com Eric Clapton na formação, John Lennon tinha avisado os outros três Beatles que… ia sair.

Já tinham existido alguns afastamentos temporários de George Harrisson e de Ringo Starr. Mas, daquela vez, John Lennon deixava bem claro que a coisa era mesmo definitiva. Estavam nessa altura a editar o álbum Abbey Road, que tinham gravado recentemente, e resolveram manter segredo por uns tempos. Meses depois, quando Paul McCartney resolveu revelar que se afastava, os Beatles preparavam a edição de um disco que tinham gravado antes de Abbey Road, mas que tinha ficado na gaveta. Chamaram Phil Spector para terminar a produção. Mas quando Let It Be chegou finalmente à rua, a 8 de maio de 1970, há já um mês que o mundo sabia que os Beatles tinham acabado.

 

Let It Be não foi na verdade o último disco que o grupo gravou. Cronologicamente falando, o último disco que os Beatles gravaram foi Abbey Road, concluído em agosto de 1969 e lançado a 26 de setembro do mesmo ano, precisamente na altura em que John Lennon anunciara aos companheiros que ia deixar o grupo.

A história de Let It Be começou bem antes de Abbey Road, numa série de sessões em janeiro de 1969 que tiveram lugar não num estúdio de gravação de música, mas antes em estúdios de cinema com câmaras de filmar em volta dos músicos, registando o que ali acontecia. O ambiente não foi o ideal, e, dias depois, o grupo mudava-se para o estúdio na sede da Apple, a sua editora, para continuar os trabalhos. E numa manhã, a 30 de janeiro, subiram ao telhado do edifício para um breve concerto que fez história.

Mas as sessões para o álbum, ao qual iriam chamar Get Back, acabaram por ficar arquivadas, até que, depois de Abbey Road, e já cientes do fim, resolveram voltar a pegar nas gravações. Chamaram Phil Spector para produzir e gravaram alguns elementos adicionais. Let It Be acabou por sair em maio de 1970. Anos depois, em 2003, foi editada uma versão alternativa do álbum, retirando-lhe os elementos acrescentados por Phil Spector, ao qual chamaram Let It Be… Naked. Em 2020, em setembro, vamos poder ver um documentário de Peter Jackson a partir das filmagens realizadas em janeiro de 1969, para contar toda a história deste disco. Vai chamar-se Get Back.

 

O primeiro dos Fab Four a gravar um disco a solo foi George Harrisson. Em novembro de 1968, 21 dias antes de sair o álbum branco dos Beatles, surgiu Wonderwall Music, que não era mais do que a banda sonora para o filme de Joe Massot com o mesmo nome. Era um disco instrumental, com uma presença significativa de instrumentos e ecos da Índia. Nas sessões de gravação, que tinham contado com a presença de vários músicos indianos, o único dos outros quatro Beatles presentes tinha sido o baterista Ringo Starr.

Em maio de 1969, George Harrisson lançou um segundo, este mais experimental, e no qual mostrava as suas explorações pela música eletrónica, das quais algumas ideias acabariam depois por chegar ao som de Abbey Road, dos Beatles. A carreira a solo de John Lennon deu também os primeiros passos pelos terrenos da música experimental e, tal como George Harrison, apresentou primeiros discos antes da separação do grupo. Lennon lançou três álbuns antes do fim dos Beatles, todos eles em parceria com Yoko Ono. O primeiro, com o título Unfinished Music — Take 1 — Two Virgins, em novembro de 1968. Seguiram-se, em maio de 1969, Unfinished Music — Take 2 — Life With the Lions, e, em novembro do mesmo ano, Wedding Album.

Mas, ao mesmo tempo que os Beatles gravavam Abbey Road, John Lennon começava igualmente a editar novos singles. O primeiro foi “Give Peace a Chance”, canção que inicialmente ainda surgiu como uma colaboração entre Lennon e McCartney, tendo chegado ao mercado em julho de 1969, assinada pela Plastic Ono Band. Em outubro, foi a vez de “Cold Turkey”, canção que Lennon tinha chegado a propor para ser gravada pelos Beatles. O terceiro single chegou em fevereiro de 1970, intitulado “Instant Karma”, e, entre os músicos que o gravaram em estúdio, estava um guitarrista muito especial: George Harrison.

 

Ao contrário de George Harrisson e de John Lennon, tanto Paul McCartney como Ringo Starr só lançaram discos a solo depois de ter ficado bem claro, em setembro de 1969, que o grupo tinha acabado. Ringo gravou um álbum com versões de canções que faziam parte das suas memórias. Chamou-lhe Sentimental Journey, e inclui clássicos como “Night and Day” ou “Bye Bye Blackbird”. George Martin produziu o disco, e Paul McCartney contribuiu com os arranjos para uma das canções.

No ano seguinte, foi a vez da estreia a solo de Paul McCartney, o tal cujo press release deu a saber ao mundo que se tinha afastado dos Beatles e, no fundo, que a carreira do quarteto tinha chegado ao fim. McCartney começou por gravar as canções em casa, num gravador de quatro pistas. Mas, depois, mudou-se para estúdios profissionais para o terminar. Todos os instrumentos foram tocados pelo próprio Paul McCartney, que também produziu o disco. A única colaboração foi a da sua mulher Linda McCartney, em alguns coros.

Em dezembro de 1970, o primeiro álbum de canções de John Lennon foi lançado com o título John Lennon / Plastic Ono Band. Era um disco mais austero nas formas, mas intenso e poderoso nas palavras. Também perto do final do ano, mas antes de John Lennon, George Harrisson apresentou o colossal All Things Must Pass, um álbum triplo. Na verdade, dois discos eram feitos de canções, e o terceiro revelava momentos de jam sessions. Foi talvez o mais impressionante dos discos que os quatro Beatles lançaram em 1970.

 

A notícia da separação dos Beatles não significou necessariamente o fim da sua discografia. Além do álbum Let It Be — que foi acompanhado por dois singles, um com a canção que dava o título ao álbum, o outro com “The Long and Winding Road” —, seguiram-se muitas compilações de êxitos, entre as quais os míticos álbuns vermelho e azul, ambos editados em 1973. Houve também compilações temáticas — como por exemplo The Beatles Ballads, em 1980 — ou Reel Music, um disco de 1982 que juntava música que os Fab Four tinham feito para o cinema.

Houve lançamentos de material inédito, por exemplo quando em 1977 saiu o álbum ao vivo gravado no Hollywood Bowl ou, mais tarde, em 1994 e 2013, quando surgiram discos com gravações que tinham sido captadas pela BBC.

As maiores novidades dos Beatles depois do fim do grupo surgiram, contudo, nos anos 90, por alturas da edição de um livro, uma série de televisão e três compilações às quais chamaram, simplesmente, Anthology. Foi um projeto grandioso, que juntou novamente os Fab Four. John Lennon tinha desaparecido em 1980, mas, com base em gravações de temas originalmente compostos por si, surgiram, entre 1995 e 1996, dois novos singles que resultaram de uma pontual reunião em estúdio dos Beatles. Um deles era “Real Love” e anunciou o volume 2 de Anthology. Mas o que mais deu que falar surgiu em 1995: “Free As a Bird”.