(Quar)antena 3

Os inéditos que podem e devem ser vistos do sofá

Não temos estreias em cinema, mas às plataformas de streaming e aos videoclubes virtuais continua a chegar uma considerável lista de filmes inéditos. O Rui Pedro Tendinha partilha um apanhado de alguns dos filmes que nunca se estrearam em cinema e que agora, em plena quarentena, estão aí para serem vistos.

 

Sergio, de Greg Barker (Netflix)

É uma das maiores apostas das produções da Netflix e veio do Festival Sundance com aparato mediático. Relato sobre a vida e morte do diplomata das Nações Unidas Sérgio Vieira de Mello, interpretado por Wagner Moura. O filme tem uma montagem enxuta e um ritmo correto, embora perca demasiado tempo com questões românticas, quiçá pela presença de uma estrela no elenco como Ana de Armas.

Entra para a coleção dos filmes bem intencionados e vale sobretudo pelo carisma humaníssimo de Wagner Moura.

 

Quarto 212, de Christophe Honoré (Filmin)

Aquele que já foi o mais entusiasmante dos “novos” cineastas franceses continua na fase da retoma. Após o brilhante Agradar, Amar e Correr Depressa, regressa com este Chambre 212, veículo para a sua musa, Chiara Mastroianni, aqui a interpretar uma mulher que sai de casa quando decide confessar ao marido os seus atos de adultério.

Filmado com uma inspiração de cinema pop, é um pequeno filme mergulhado numa espécie de jogo confessional romântico tão patrimonial de um certo cinema francês. Uma “twilight zone” romanesca embalada ao som de Aznavour. Estava para se estrear precisamente na semana em que os cinemas fecharam…

 

Lucy in the Sky, de Noah Hawley (videoclubes)

Livremente inspirado no caso real de uma astronauta da NASA que depois de uma missão espacial nunca mais foi a mesma e foi até acusada de tentativa de rapto de uma colega, Lucy in the Sky tem uma assombrosa Natalie Portman no papel principal. Aliás, só se percebe que não tenha chegado aos cinemas pelo facto de nos EUA ter sido um fracasso de bilheteira. Mas no seu interior está um inquietante retrato de uma mulher capaz de nos fazer refletir sobre a prisão psicológica do mais machista “American way of life”. Bela surpresa. Jon Hamm e Nick Offerman estão também no elenco.

 

The Willoughbys, de Kris Pearn (Netlix)

Uma animação que consegue a mais difícil e rara das proezas, muitas vezes apenas associada à Pixar: conseguir divertir miúdos e graúdos. Chama-se The Willoughbys e é a história de quatro crianças irmãs que vivem numa mansão com pais cruéis e sem amor. Parece uma premissa de um filme de terror, mas é uma comédia tão insana como original. Um humor refrescante e servido de uma animação topo de gama.

Na versão original, tudo é movido pelo narrador, um gato com a voz de Ricky Gervais. Sabe-se que o comediante inglês, que é aqui também produtor, contribuiu com o seu humor “nonchalant” para o argumento. Claro que rouba todas as cenas.

 

A Mentira Perfeita, de Bill Condon (videoclubes)

Outro dos filmes que causou espanto não ter tido OK de estreia nos cinemas. É a nova obra do cineasta de Relatório Kinsey e A Bela e o Monstro, Bill Condon. Uma história de crime e esquemas de vigarice em que um velho sedutor tenta dar um golpe a uma viúva charmosa. Thriller com insolentes desvios de humor, todo ele ancorado no carisma de Ian McKellen e Helen Mirren.

Por muito que o seu ato final padeça de plausibilidade, The Good Liar é bom entretenimento com clássica “panache” britânica.

 

Bad Education, de Cory Finlay (HBO)

Em Portugal, ainda não está anunciado, mas deve chegar a qualquer momento. Eis o único filme feito para cinema que a HBO comprou (supostamente por um valor exorbitante). Hugh Jackman é um diretor de uma escola envolvida num esquema fraudulento. Bad Education baseia-se num escândalo criminoso verídico que abalou a América. Cory Finlay reencena este caso sobre ética e educação numa América sem moral.

Por cá, ainda ninguém viu, mas está a ser vendido como o momento maior da carreira do ator que já não é mais Wolverine…

 

La Trinchera Infinita, de Jose Mari Goenada, Aitor Arregi e Jon Garaño (Netflix)

Porque no espólio do gigante do streaming a vida não é só Tiger King ou séries viciantes, este pode ser considerado o maior segredo da Netflix. Um épico que em tempos de confinamento ganha uma relevância maior: a história de um “topo”, denominação dada a elementos contrários a Franco que durante décadas estiveram escondidos em caves e em paredes falsas de suas casas com medo de serem mortes pelo regime. O herói deste filme passou 32 anos escondido em casa, mas conseguiu manter o casamento e fazer um filho.

La Trinchera Infinita tem um suspense e uma claustrofobia de velha escola. Uma obra de uma tensão quase irrespirável. Para ser visto como um ensaio sobre os novos fascismos que aí proliferam…

 

Marianne & Leonard: Words of Love, de Nick Broomfield (videoclubes)

Foi uma das sensações do último Porto/Post/Doc: uma viagem pela memória de Leonard Cohen e do seu grande amor Marianne Ihlen, a sua grande musa. Através de imagens inéditas de arquivo e de depoimentos de amigos, Nick Bromfield encena um esboço de um caso de amor que terminou após o sucesso de Cohen como músico e da sua crescente dependência de drogas e sexo casual. Não é cinema vintage, mas, entre outras coisas, é objeto para ficarmos mais perto da perenidade do génio do canadiano.

Em tempos de #MeToo, há aqui muito material politicamente incorreto, mas o documentário funciona sobretudo como um olhar de uma época. Se não abusasse tanto da fórmula das “talking heads”, teríamos aqui um belo candidato a filme de culto.

 

Selfie, de Agostino Ferrente (Filmin)

Da Berlinale para o sofá. É um inédito absoluto que faz parte do catálogo da Festa do Cinema Italiano e que nos dá a conhecer o trabalho de Agostino Ferrente, documentarista que foi até aos arredores de Nápoles para deixar uma câmara nas mãos de dois adolescentes marcados pela morte de um amigo às mãos da polícia. Um filme-denúncia que é sobretudo um relato de camaradagem masculina numa Itália dos desfavorecidos.

Por vezes, parece que o seu conceito não merecia duração superior a uma curta, mas, no fim das contas, a montagem de Ferrente perante as selfies dos cineastas encomendados tem uma emoção verdadeira. Selfie é um significativo “bromance” à flor da pele.