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O verão do cinema com menos “filmes de verão”

O verão do desconfinamento — com cinemas com menos sessões, menos público e mais regras — aí está. Blockbusters só em agosto, mas há sempre pérolas para descobrir. O Rui Pedro Tendinha faz uma seleção dos filmes que podem fazer-nos ter um desejo de levar uma máscara às salas.

 

Surdina, de Rodrigo Areias

Cinema português para desconfinar é o que não vai faltar nos próximos tempos, e esta colaboração entre o realizador Rodrigo Areias, o escritor valter hugo mãe e o músico Tó Trips é mesmo um dos filmes mais significativos desta leva. Trata-se de uma comédia desencantada que narra um romance sénior entre um homem amargo de Guimarães e uma simpática solteirona. Areias filma a sua Guimarães de ruas velhas e tasquedo de velha escola com uma melancolia bonita. Depois, há também atores em estado de graça, como Ana Bustorff e António Durães.

Surdina é vivamente recomendável.

 

Patrick, de Gonçalo Waddington

O que poderá acontecer àquelas crianças desaparecidas quando são encontradas anos mais tarde? A pergunta é de Gonçalo Waddington, cuja obra de estreia acompanha o caso de uma rapaz chamado Patrick, que pode ser Mário, criança raptada e atirada para o inferno da pornografia pedófila. Quando regressa a casa, com 19 anos, entra numa espécie de limbo de identidade.

Patrick revela uma segurança de estilo e uma escala diferentes no cinema português. Waddington filma tudo com uma gravidade cheia de camadas, e o resultado é um potente filme de choque. E é impossível não ficar de queixo caído com a cinegenia dos seus jovens atores, Alba Baptista e o artista Hugo Fernandes.

 

O Que Arde, de Oliver Laxe

Um pirómano regressa da prisão e volta a viver com a mãe. Aos poucos, parece estar a recuperar e a reconquistar o seu espaço na comunidade, mas a sombra de um passado negro pode estar ali ao lado. O catalão Oliver Laxe assina o seu melhor filme, um relato muito livre de uma região, a Galiza, sem clichés e com um sentido de “terra” notável.

Em Cannes e San Sebastián, ganhou estatuto de culto e percebe-se porquê. O Que Arde entra na nossa pele sem o percebermos…

 

O Espaço Entre Nós, de Alice Winocour

De uma cineasta francesa a fazer um cinema global sem preconceitos, esta é a história de uma astronauta prestes a viajar numa longa missão espacial. Uma astronauta que é também uma mãe com uma relação especial com a sua filha. Entre o melodrama familiar e o conto de sci-fi, Proxima é de uma sofisticação ambiental notável. Um filme que nos agarra, mas que também nos põe a levitar. Questão de gravidade? Apenas talvez seja sensato avisar que Eva Green tem aqui o papel de uma vida.

 

Mulan, de Niki Caro

A cineasta de A Domadora de Baleias assina o filme que tem a responsabilidade de testar a força de um blockbuster nesta altura de pandemia. Mulan é obviamente uma encomenda, mais um dos títulos da Disney a transcrever para imagem real obras famosas do catálogo de animação.

A história anda à volta de uma guerreira da China ancestral que se disfarça de homem para tentar salvar o seu pai. Seguramente, a Disney não irá pelo conto de comportamento identitário; o que se quer aqui é um filme puro de aventuras com sequências de batalha com tudo o que o dinheiro pode comprar. Teme-se apenas que os figurantes fiquem excessivamente digitais.

 

Zé Pedro Rock’n’Roll, de Diogo Varela Silva

Um amigo do grande Zé Pedro dos Xutos a filmar a sua memória. É coisa confessional e na qual explode uma dimensão íntima. Diogo Varela Silva, de quem esperamos o seu filme-fado ainda por acabar, é o amigo que usa e não abusa de entrevistas com cúmplices do fundador dos Xutos & Pontapés, imagens de arquivo e pistas de uma carreira rock’n’roll.

Quem conheceu Zé Pedro vai sentir uma proximidade forte, quem o acompanhou à distância vai sentir-se amigo — dê por onde der, há um impacto comovente nisto tudo.

Provavelmente, será boa ideia não entrar nesta sessão com preconceitos com filmes-homenagem. Este assume-a logo a abrir.

 

Tenet, de Christopher Nolan

Numa altura que os cinemas e o MEO VideoClube estão a repor grande parte da obra de Christopher Nolan, o maior filme de verão é a sua nova extravagância: Tenet, rodado com grande secretismo e anunciado como thriller sobre um grupo de espiões que tenta evitar um conflito à escala global.

Depreende-se que seja mais da família de A Origem, e é de adivinhar que Nolan proponha um puzzle ao espetador com múltiplas realidades paralelas. Acima de tudo, é um pretexto para podermos ver um grande filme de Hollywood com efeitos visuais de topo de gama ao serviço de um conceito de cinema.

 

Uma Réstia de Esperança, de William Nicholson

O famoso argumentista de Gladiador e Shadowlands, William Nicholson, narra a crónica de uma separação. O casal é formado por Bill Nighy e Annette Bening, e tudo se passa num fim de semana em que ele diz “basta” e sai de casa.

Uma Réstia de Esperança é um drama à boa maneira britânica, tão sóbrio quanto disciplinado. A Nicholson, talvez lhe falte uma certa verve de realizador e abusa certamente da onda de “filme de chazinho das cinco muito British”, mas o olhar do filho, dividido entre o apoio ao pai e a lealdade à mãe, tem qualquer coisa de disruptivo.

Hope Gap será sempre marcado por uma performance de Bill Nighy fria e convincente e por uma Annette Bening sem medo de criar desconforto com a neura da sua personagem.

 

Adeus à Noite, de André Téchiné

Passou algo despercebido no Festival de Berlim de 2019 e ainda não é desta que o realizador de Os Juncos Silvestres volta aos seus dias de glória. L’adieu à la nuit tem tema delicado e a habitual respiração do realizador, mas falta algo mais… Nem que seja um golpe de asa.

Catherine Deneuve é uma criadora de cavalos na província que descobre que o seu neto está prestes a embarcar numa missão de terrorismo islâmico. Baseado num artigo sobre os jihadistas franceses, Téchiné filma a ameaça do fundamentalismo religioso sem marcas de thriller, preferindo antes examinar um fosso de gerações na figuração de uma relação entre neto e avó.