(Quar)antena 3

Cinema em tempos de pandemia

São tempos estranhos e diferentes, estes que vivemos, com cinemas fechados, ruas vazias e notícias à velocidade da luz.

Do lado de lá das fronteiras, chegam novas de que a COVID-19 atingiu Hollywood: Tom Hanks foi o primeiro; já esta semana, soubemos de Idris Elba, Olga Kurylenko e até Kristofer Hivju, o Tormund d’A Guerra dos Tronos

Por cá, que saibamos, ainda não há casos de coronavírus entre os nossos do cinema, da TV ou do teatro. Até porque muitos, tantos, quase todos, se estão a resguardar. O que não quer dizer que estejam a ficar parados. Prova disso é a enorme quantidade de propostas que por estes dias nos apresentam, de boas ações que alguns dos próprios autores têm vindo a fazer por estes dias, para nos ajudar a ficar em casa.

Um dos primeiros foi Edgar Pêra: o realizador disponibilizou no YouTube uma boa parte da sua filmografia — desde O Barão (um dos grandes filmes portugueses da última década, com Nuno Melo) e O Homem Pykante (com Alberto Pimenta) até aos Arquivos Kino-Pop, está tudo no canal de YouTube do realizador.

Filipe Melo disponibilizou online, na noite de 19 de março, a sua curta-metragem Sleepwalk, de 2017. A estreia aconteceu no canal de YouTube do músico, autor de BD e realizador, e por lá ficará, por enquanto.

Mas há muito mais cinema português para ver online por estes dias: se passarem pela página de Facebook do site À pala de Walsh, têm lá uma lista de uma vintena de filmes disponíveis online — filmes de Catarina Wallenstein, André Gil Mata, Pedro Serrazina e muitos mais. Vale a pena, aliás, dedicar algum tempo a passear por aqui, porque a equipa de À Pala de Walsh está a fazer verdadeiro serviço público, tantas são as sugestões de livros sobre cinema disponíveis para download como de filmes para ver online (de uma curta de Gaspar Noé à longa mais longa do cinema espanhol).

Se preferirem cinema internacional, o site Rotten Tomatoes tem uma lista de 100 filmes para ver em casa… Desde clássicos como Aconteceu no Oeste até mais recentes como Train to Busan, há nesta lista filmes para todos os gostos, para ver em plataformas como IMDb, Vudu, Tubi ou Crackle (todas norte-americanas e bloqueadas para a Europa, é verdade… mas fica a dica para quem nos estiver a ler nos States).

Mas há mais: o cinema Nimas fechou as portas, mas propõe uma Quarentena Cinéfila. Desde 17 de março, oferece três filmes de Wim Wenders — no primeiro dia, foi exibido O Estado das Coisas; hoje, foi disponibilizado o clássico Paris, Texas; no sábado, chega Viagem a Lisboa. Para a semana, serão disponibilizados mais três filmes; para a outra, mais três… sempre por 36 horas e sempre a partir do site e da página de Facebook da Medeia Filmes.

Também a Zero em Comportamento está a disponibilizar filmes… e Filminhos — o programa de filmes infantis que a associação cultural costuma deixar “à solta pelo país” vai estar este mês à solta no site da Zero em Comportamento.

Já a Agência da Curta Metragem oferece-nos Filmes Curtos para Dias Longos — uma espécie de festival de curtas-metragens portuguesas do catálogo da Agência para ver online, em casa, à velocidade de uma nova por dia.

E, já que falamos de curtas e festivais, lá de fora chega My Darling Quarantine, o “short film festival” da revista online de cinema Talking Shorts, com pequenos filmes de toda a Europa. Como todo o festival que se preze, permite aos espetadores votar no seu filme preferido da semana, todas as semanas. Enquanto durar a quarentena, durará o festival.

O cancelado South by Southwest trocou as ruas de Austin, Texas pelo mundo virtual e oferece-nos uma mão cheia de SXSW Shorts para ver sem sair de casa.

Finalmente, a plataforma Filmin — que declarou que “the show must go on(line)” — prepara-se para o seu catálogo de filmes portugueses. Em breve, estarão disponíveis A Herdade, de Tiago Guedes, em versão série; ou o recentíssimo Mosquito, de João Nuno Pinto, que ainda agora se tinha estreado e que foi forçado a sair de cena.

Forçados a sair de cena foram aliás muitos filmes que estavam em cartaz até há dias. Outros viram as suas estreias adiadas (Um Lugar Silencioso 2, Velocidade Furiosa 9, o novo de James Bond ou até o português Terra Nova). Também alguns eventos cinematográficos, como o festival Monstra ou os Prémios Sophia da Academia Portuguesa de Cinema, foram adiados ou mesmo cancelados. Tal como, ironicamente, a Festa do Cinema Italiano — festa que, ainda assim, ainda pode vir a ter nova vida online: a Filmin promete acolher, em breve, uma versão digital.

Mas um pouco por toda a internet vão surgindo propostas para ver cinema em casa, desde curtas-metragens a documentários, de filmes raros a experimentais… Isto para não falar de serviços de streaming como a Netflix ou a HBO, canais de televisão como o Canal180 e sites como a UbuWeb ou o Open Culture, com milhares de horas de cinema gratuito.

Finalmente, duas plataformas que merecem toda a nossa atenção e, esperamos, todo o vosso carinho: a RTP Play (cheia de séries e filmes, portugueses e não só) e, claro, o site da Antena 3, com tantos Antena3Docs e tantas estórias para Rebobinar Depois de Ver.

São algumas das muitas formas de continuar a ver cinema nestes dias estranhos, longos, dignos de uma qualquer distopia sci-fi de série B. Algumas das muitas desculpas para ir para fora cá dentro… de casa.

O Ricardo Sérgio apresenta a rubrica Só Fitas na Antena 3 todas as quintas-feiras pelas 12h20. Para esta edição especial, contou com a ajuda da Teresa Vieira.