Oub'lá

Benjamim e Barnaby Keen

 

“A nossa música é um confronto das nossas diferenças ao mesmo tempo que é a junção daquilo que nos une”

 

Há meia dúzia de anos Luís Nunes ainda estava em Londres a viver a vida de Walter Benjamin. Trabalhava como técnico de som em concertos, escrevia músicas e tocava-as com amigos que ia fazendo pela capital britânica. Barnaby Keen era um amigo de amigos que ele ia escutando ao vivo, enquanto lhe afinava os soundchecks. Aproximou-os o disco Construção, de Chico Buarque, com que Luís aquecia o público antes dos espetáculos: afinal de contas, “Barny” sabia falar português, fruto de uma aventura de seis meses pelo Brasil para onde voou atrás de uma paixão, “deus lhe pague”.

Conversas em português, conversas em inglês e de repente estava Barnaby Keen,  de Flying Ibex e Electric Jalaaba a combinar uma vinda a Portugal para visitar o amigo Luís e falarem num disco em conjunto. Metade em português, metade em inglês, com duas personalidades musicais nascidas ambas em 1986, separadas por milhares de quilómetros, mas com as referências comuns de Dylan, Beach Boys ou Beatles que os unem – e junte-se a isso o caráter multi-instrumentista e as vozes vindas de dentro, que são como tímidas folhas de caderno que se vão folheando e sendo desvendadas aos poucos.

Barnaby ainda está em Londres; e Luís em Lisboa — onde vai celebrar hoje, dia 24 de maio, o seu 31º aniversário (Parabéns, Luís!). A prenda é este 1986, o nome do disco desta feliz parceria luso-britânica com sotaque brasileiro. O inglês só deverá regressar a Portugal por alturas do Festival Músicas do Mundo, em Sines. E na ausência de “Barny” é o aniversariante Benjamim que nos conta mais sobre estas afinidades.

 

Como é que tu e o Barnaby Keen se conheceram?

Foi tudo muito orgânico: conheci o “Barny” há uns anos, em Londres, e aquilo que mais me fez reparar nele, além do incrível talento, foi o facto de ele falar português com sotaque brasileiro. Foi isso que nos aproximou a primeira vez: começámos a falar em português…

 

Ele explicou-te porque é que sabia falar português?

Explicou, sim: tinha-se apaixonado por uma rapariga brasileira, que o fez mudar para o Brasil, onde viveu durante seis meses e onde aprendeu rapidamente a língua. Apaixonou-se também pela bossa nova, pela música brasileira. A nossa relação inicial começou por ser ele a praticar o português dele comigo (sorrisos).

 

Como é que praticavam o português? Com música, desde o início, ou com conversas?

Ele foi tocar a um sítio onde trabalhava, onde era técnico de som, em Londres, e antes do concerto tinha posto uma playlist ambiente a tocar, com o Chico Buarque. Ele chegou-se ao pé de mim dizer que adorava o Chico. A relação até nasceu de uma canção do Construção, mas já não me lembro de qual era. E estar em Londres e haver alguém inglês a dizer-te em português que adora o Chico Buarque, em português… (ri-se). Ele faz parte de um circuito musical bastante específico: eu era técnico de som residente, então apanhava-o muitas vezes, a ele e aos vários projetos dele, nos sítios onde trabalhava.

 

“Acho que há um fator decisivo: somos os dois multi-instrumentistas. Eu toco vários instrumentos, mas nenhum particularmente bem, mas o facto de conseguirmos saltar para a bateria, para o baixo ou para o piano — o Barny toca saxofone — faz com que haja uma dinâmica musical bastante forte”

 

E começaste também a mostrar-lhe aquilo que fazias enquanto músico, para lá do técnico de som?

Não, isso é engraçado: quando comecei a tocar lá enquanto Walter Benjamin, tinha uma banda, com dois irmãos — os Geffen Brothers. E eles era muito amigos do Barny, com quem tinham tocado juntos. Até fizemos uma noite em que as bandas tocaram todas na mesma noite e foi engraçado. Nós cimentámos a amizade uma vez em que ele me mandou um email, quando eu já estava a viver em Portugal, a dizer que queria vir a Lisboa e a perguntar se eu não lhe arranjava cá um concerto. Liguei ao meu agente, ao João Vaz Silva, que lhe organizou um concerto na Pensão Amor a uma segunda-feira e que serviu para lhe pagar a viagem! No dia a seguir ao concerto fomos para o Alentejo, onde eu estava a viver, no Alvito, e começámos a gravar umas coisas pela piada. Eu sugeri: “Porque é que não combinamos uns dias e fazemos um disco juntos? Eu faço canções em português, tu cantas comigo e eu faço coros nas tuas canções em inglês…”

 

E foi assim que nasceu este disco, 1986?

São aquelas coisas que imaginamos, que dizemos que vamos fazer… mas neste caso aconteceu (sorri)! Passado uns meses ele voltou a Lisboa, marcámos o estúdio e fizemos uma sessão. E passados seis meses fizemos outra.

 

Foi desafiante fazer este disco com um inglês a cantar em português?

Eu tentei, ao máximo, puxar por isso, confesso! Sinto que dá um toque meio exótico às canções de que gosto muito. E o facto de o disco estar sempre a saltar entre o português e o inglês… quis que fosse um marco no disco! É que percebes que ele não é português, se calhar percebes que não é brasileiro… é incrível! Mas ele percebe bem o português e quando não percebe pergunta para perceber o que está ali a acontecer.

 

Como é que foi a troca de ideias para construir este disco? Havia muito mais em comum entre vocês para lá do vosso ano de nascimento?

Desde o início que fiquei fã das coisas que ele fazia. Ele conheceu-me como técnico de som e não como músico, por isso não era uma relação recíproca. Mas aos poucos ele também se foi interessando pelas coisas que eu estava a fazer. Apesar de sermos de nacionalidades diferentes, nascemos no mesmo ano em contextos diferentes, ouvimos muito as mesmas bandas, temos paixões gigantes pelo Dylan e pelos Beatles, pelos Beach Boys… mas há mil outras referências que eu tenho e ele não; e vice-versa. A nossa música é diferente por causa do contexto e da língua. É um confronto das nossas diferenças ao mesmo tempo que é a junção daquilo que nos unem.

 

“Isto foi um processo de descoberta pessoal, também. Porque fazer um disco com alguém é um processo extremamente íntimo… eu não mostro o meu caderno de letras a ninguém: tenho vergonha! É como mostrar um diário”

 

São esses gostos em comum que vos deram a possibilidade de fazer um disco tão coeso, tão sumarento e variado?

Acho que há um fator decisivo: somos os dois multi-instrumentistas. Eu toco vários instrumentos, mas nenhum particularmente bem, mas o facto de conseguirmos saltar para a bateria, para o baixo ou para o piano – o Barny toca saxofone – faz com que haja uma dinâmica musical bastante forte. Não é só fazer uma canção, e agora eu toco ali e ele acolá: houve o prazer da descoberta, de onde as canções nos iriam levar. Depois houve uma coisa muito engraçada: o disco nasce quase como se fosse um exercício. A primeira semana era uma semana e meia e era aí que tínhamos que gravar uma série de canções e deixá-las o mais possível concluídas. E isso foi delineando um bocado a estratégia de como abordar o disco: ele mostrava-me as canções que ia fazendo, eu mostrava as minhas e íamos experimentando a partir daí.

 

São ideias que nasceram enquanto estavam à distância?

Todas à distância. Quando decidimos gravar o disco combinámos que íamos juntar quatro canções de cada um e depois logo se vê o que acontece. A ideia mais básica de canção já vinha, porque era impensável estarmos a tentar escrever canções juntos. O que fizemos depois foi que moldámos e demos forma às canções como elas estão.

 

Nessa altura já se conheciam bem um ao outro?

Isto foi um processo de descoberta pessoal, também. Porque fazer um disco com alguém é um processo extremamente íntimo… eu não mostro o meu caderno de letras a ninguém: tenho vergonha! É como mostrar um diário, uma data de palermices que nos deixa a pensar: “ai se alguém lê isto…”

 

Conta-nos mais sobre aquilo que compuseste e escreveste. Foi como se estivesses a fazer canções para um disco a solo? Há aqui canções que já estavam escritas e que sentiste que ficavam bem neste universo?

Algumas já tinha feito. A “Terra Firme” é uma canção que eu já tinha escrito e teve várias versões. Antes de ir para estúdio estive a acabá-la. Depois é defeito de produtor, de já ter feito discos com várias pessoas: eu acho que sei ler, mais ou menos, os pontos fortes dos músicos com quem trabalho. E com o Barny eu sabia que ele ia trazer coisas para cima da mesa que iriam ser interessantes. E estivémos sempre abertos às opiniões um do outro. E neste disco teria de ser sempre assim, mesmo que às vezes seja difícil, porque às vezes mudam-nos completamente uma canção.

 

Deixa-nos perceber como vai funcionar, ao vivo, este 1986…

também quero perceber (risos).

 

“Eu acho que sei ler, mais ou menos, os pontos fortes dos músicos com quem trabalho. E com o Barny eu sabia que ele ia trazer coisas para cima da mesa que iriam ser interessantes”

 

O Barnaby está em Londres e tu em Portugal: vais tu lá, vem ele cá?

Temos um primeiro concerto marcado para o Festival Músicas do Mundo, em Sines. Ele vem cá, no verão, e vamos eventualmente fazer mais um ou dois concertos. E em setembro, supostamente, sai a edição em vinil do disco e fazemos um concerto de apresentação. A ideia também é fazer concertos em Londres e onde nos quiserem. No início pensámos em fazer tudo no verão, mas as coisas foram resvalando e ainda bem, porque acho que as coisas têm que acontecer organicamente – porque também foi assim todo este processo. Gostávamos de tocar juntos e gostava que ele também toque canções dele, que ele é um escritor de canções incrível: tem um projeto chamado Flying Ibex, que têm uma canção linda chamada “Denial”.

 

E tu também tens muita coisa para mostrar. Estavas à espera deste projeto com o Barnaby ou foi algo tão orgânico que se meteu noutros projetos e planos de edições que poderias ter?

Não, eu às tantas assumi que era o segundo disco de Benjamim. Faz parte da discografia… apesar de orgânico, foi muito trabalhoso: foi a escrita, produção, gravação, misturar. É um mundo de coisas.

 

Mas tens planos para avançar para outro trabalho a solo?

Sim, estou a fazer coisas novas, também.

 

“Temos um primeiro concerto marcado para o Festival Músicas do Mundo, em Sines. Ele vem cá, no verão, e vamos eventualmente fazer mais um ou dois concertos”

 

Moras Lisboa ou ainda estás por Alvito?

Há um ano que estou em Lisboa. Depois do Auto-Rádio, depois da tour, depois de um ano e meio de concertos era complicado e inevitável que as coisas estivessem um bocado centralizadas aqui em Lisboa. E o trabalho que eu tenho também está mais por aqui. Quando preciso de gravar vou até lá: o estúdio está um bocado desmantelado, mas vou. Ainda há pouco tempo estive por lá uma semana. Por mim vivia lá nem que fosse metade do tempo, mas não consigo!

 

Deixa-me fazer uma pergunta relativamente ao grafismo do disco…

Foi um amigo, o Pedro Cortesão Monteiro, que fez o design.

 

É inspirado nas memórias do campeonato do mundo de futebol do México-1986?

Bem observado! Agora vamos ser processados (risos)!

 

Entrevista: Bruno Martins