(Quar)antena 3

As lojas de discos continuam online

Texto: Nuno Galopim (in Gira-Discos)

 

Fomos “visitar” as lojas de discos portuguesas. Estão de portas fechadas, mas mantêm-se em atividade através dos seus sites ou de plataformas como a Discogs. Há campanhas de preços e modalidades de entrega. Há apreensão, mas também esperança. E, sobretudo, muita resiliência.

Obrigadas a fechar as portas, as lojas de discos procuram encontrar outras formas de manter a atividade. Falámos com algumas para auscultar como se encontram a trabalhar e o que agora propõem aos seus clientes. Na verdade, nenhuma das lojas parou e todas mantém a sua atividade online, umas através dos seus próprios sites (ou de sites a si associados), outras acrescentando ainda espaços na plataforma Discogs. A atividade nas redes sociais, que vai da comunicação e até de vendas à manutenção do relacionamento com clientes, é outra das prioridades. Em vários casos, há lojas com campanhas especiais, ora de descontos, ora nos portes de envio ou outras modalidades de entrega. Mas vamos visitar algumas lojas, uma a uma…

Comecemos em Lisboa. Na Flur, “até nova ordem, a porta da loja estará fechada”, responde André Santos. A loja está, contudo, a trabalhar e parte do que agora fazem passa “por comunicar a música” que ali têm e que continuarão a receber, “enquanto as circunstâncias o permitirem”. A loja criou “no site, novas opções de entrega para facilitar o acesso de todos aos discos”. E aí são sugeridas três modalidades, uma delas o levantamento em loja. André Santos explica: “Estamos cá. Se comprar — e pagar — através do nosso site, pode vir levantar a encomenda à nossa loja após marcação de visita.” Há ainda a possibilidade de envio pelos CTT com “portes gratuitos para todo o território nacional para encomendas de valor igual ou superior a 20 euros”. Há ainda uma terceira via, que sugere a “entrega em mãos”, válida no Município de Lisboa e para encomendas de valor igual ou superior a 15 euros. Aqui “as encomendas serão apenas entregues às quintas-feiras e nas entradas dos edifícios após agendamento” mas “terão de ser feitas até às 23h59 da quarta-feira anterior”. Esta opção estará ativa pelo menos até 31 de março, acrescentando André que “qualquer uma destas situações poderá sofrer alterações provocadas pelo clima de instabilidade atual”.

A Groovie Records começou por ter cuidados especiais na loja (número de clientes admitidos de cada vez e medidas de higiene especiais), mas fechou as portas a 10 de março. “Com o confinamento voluntário ou obrigatório deixou de fazer sentido estar aberto”, explica Edgar Raposo que admite que a decisão decorre também “por segurança”, tanto de quem ali trabalha como dos clientes. A Groovie Records mantém ativas as vendas online, “as poucas ou quase nenhumas por enquanto” e está operacional também “por causa” da sua própria editora, “que continua a saga e luta nestes tempos difíceis”. Estão ainda a manter o seu espaço no Bandcamp. E está ativa a loja virtual na plataforma Discogs, “que podem ser acedidas pelo website” da loja. “Temos alguns clientes e amigos que vão matando o vício por mensagem ou FB. Claro, dentro da contenção a que o momento obriga.” Edgar explica que estão “mais ativos que nunca online, até com edições novas da Editora que já estavam em preparação e vão sair. Entre outras coisas, como promoções, etc.”… Quanto aos stocks, explica que os consegue repor nos discos novos: “Temos algumas parcerias sólidas com distribuidoras, que também fazem distribuição da Groovie Records. De usados, para além de um stock considerável que já temos de cerca de 5000 discos, temos ainda um outro, igualmente considerável, de discos ainda por catalogar. Que dará pelo menos para ir atualizando as nossas lojas online por uns bons meses. Claro, se não se venderem discos, também não teremos capital para fazer mais reposições”, adverte.

A Louie Louie lisboeta está de portas fechadas desde domingo, 15 de março. Jorge Dias conta-nos que mantém as vendas online através do seu site “com 20% de desconto sobre o preço final, em vendas superiores a 20 euros e acrescenta: que são oferecidos os portes de envio. A comunicação está a ser focada igualmente no online, explicando Jorge Dias que estão “a tentar fazer também alguma divulgação no Instagram e Facebook”. Da reposição de stocks diz que “neste momento, não só é mais difícil devido aos constrangimentos colocados aos próprios fornecedores, e por estes”, como neste momento a loja já não tem “dinheiro para fazer pagamentos das despesas regulares da firma”. E dada a “incerteza quanto à duração desta situação, nem consideram sequer a hipótese de fazer mais compras, “porque era só acrescentar mais despesas e possíveis dívidas futuras”.

Ainda em Lisboa, a Peekaboo Records encerrou a 14 de março, “por vontade própria” e também por se encontrarem “dentro de um espaço comercial”, pelo que não quiseram “arriscar meter a nossa saúde e a dos nossos clientes em risco”, responde Rodrigo Alves. A loja mantém “as vendas online como sempre”, tanto no site como na plataforma Discogs, “nesta altura com mais impacto nas redes sociais e maior promoção dos artigos”. A Peekaboo está “a oferecer os portes das encomendas para Portugal” e faz “entregas à porta de casa dos clientes que residam na zona de Lisboa”. Em relação aos seus stocks, Rodrigo diz que continuam “a funcionar normalmente”, como “se a porta estivesse aberta. As distribuidoras continuam a funcionar de uma forma mais calma que o normal, mas há muitas edições novas que nos chegam todas as semanas”. O mesmo para os discos em segunda mão, dos quais tem “um largo stock, que continuamos a atualizar diariamente nas nossas lojas online”.

Bastien Orka, da Tabatô Records, conta que “as portas musicais continuam abertas”, apesar de terem “fechado fisicamente a loja no dia 13 de março”. Continuam “a realizar vendas online no Discogs, mas também através das redes sociais Facebook e Instagram”, onde estão a “organizar visitas virtuais das caixas de discos com vídeos por estilo musical”. Como têm “muitos mais discos na loja do que no Discogs, esta é uma boa maneira de ter acesso a todos os discos disponíveis” na Tabatô. Bastien diz-nos que vão “atualizar também as novas entradas” e que continuam “a receber discos novos e discos em segunda mão”. Os portes para Portugal são gratuitos durante o período de quarentena. “A nossa paixão de busca e partilha de música continua em qualquer circunstância. Vamos acabar com este vírus”, sublinha.

No Porto, a Matéria Prima encerrou “o atendimento ao público no dia 13” e reforçou a operação online, por via do site e na plataforma Discogs. Paulo Vinhas conta-nos que a “decisão imediata foi oferecer os portes de envio para todas as encomendas em território nacional, para agilizar a chegada de música e leitura a todos os refúgios”. Simultaneamente, a Matéria Prima tem-se “concentrado em encontrar fórmulas de apoio aos músicos, artistas e editores independentes, que a par dos trabalhadores precários, dos pequenos comerciantes e serviços serão os mais afetados pela crise económica, que inevitavelmente muitos de nós já sentimos”. Coincidentemente, têm “transportado algumas das ideias para a celebração do trigésimo aniversário, para a comunicação online”. Começaram esta semana a lançar na newsletter “seleções de artigos disponíveis na loja feitas por alguns dos amigos e clientes que incluirão as escolhas dos convidados” e que serão dizponibilizadas “com um desconto de 30%”. Na conta de Instagram da Matéria Prima, estão a manter “uma comunicação regular, com recomendações, histórias e destaque das novidades, que suspiramos que não deixem de nos chegar e ainda dos nossos artigos favoritos que passaram despercebidos”. Através das redes sociais, site, e newsletter, acrescenta Paulo Vinhas, continuarão “a anunciar a chegada de novos artigos, descontos e”, assim esperam, “boas notícias”.

As lojas Tubitek (no Porto e em Braga), bem como a Auditu (em Leiria) estão com a suas portas encerradas desde dia 16 de março. José Augusto Soares conta que mantém ativo o site cdgo, “onde se pode comprar os títulos que os clientes pretendem”. Uma vez que o site da própria Tubitek “ainda não está ativo, as visitas são canalizadas para o site da cdgo” e, “deste modo, as iniciativas online ficam suspensas”.

A Louie Louie do Porto fechou as portas no dia 14 de março. “A afluência já era quase nula na semana anterior”, conta Rui Quintela, notando que têm a loja online em funcionamento. A loja iniciou “um período de descontos no site (20% de desconto e oferta de portes em encomendas superiores a 20 euros)”. E desde o anúncio desta promoção houve “um maior número de encomendas, o que é uma boa ajuda em cobrir os custos fixos mensais, já que é o único rendimento possível de momento” que a loja tem. Quanto à reposição de stocks de usados, “como são comprados maioritariamente na loja (alguns em feiras, etc.), de momento não há maneira de repor”. Quanto aos discos novos, “a maior parte dos nossos fornecedores têm estado a funcionar, com algumas contingências”.

Fomos também a Coimbra, escutar o Rui Ferreira, da Lucky Lux. A loja fechou portas dia 13 de março “por questões de saúde pública”. O site da loja “ainda está em construção e por isso as vendas online limitam-se neste momento ao Facebook da loja e na plataforma Discogs“. Rui Ferreira diz-nos que “para já o mais importante é a saúde e segurança dos clientes e amigos” e por isso vão “aguardar pacientemente que a normalidade regresse”. Vão entretanto “aproveitar a quarentena para colocar mais discos à venda na Discogs e promover mais discos no Facebook da Lucky Lux”. A Lucky Lux “é também a sede da Lux Records” e vão “dar atenção às edições da editora, que tem vários lançamentos novos (Spicy Noodles — Sensacional!, Animais — 15 Anos Sem Paredes, Mancines — II, The Twist Connection — Is That Real?, From Atomic — Deliverance e Birds Are Indie — Migrations)”. Falando dos seus stocks, Rui conta que de discos novos estão a comprar “só os pedidos de clientes embora haja algumas condicionantes nos fornecedores”. Nos usados, a Lucky Lux tem “um grande stock armazenado, mas, como é óbvio, deixámos de visitar feiras”.

E depois? Talvez seja cedo demais para imaginar… Mas já pensaram o que será este espaço de negócio depois de vencida esta pandemia? Edgar Raposo, da Groovie Records, diz que “ninguém sabe o que aí vem, mas já sabemos no que estamos e não é e não irá ser fácil. Mas o mundo não vai acabar (riso sinistro), julgo eu. E somos como os samurais, não caímos fácil, e se cairmos não será sem dar luta, de sabre na mão. Sabre de luz”. Paulo Vinhas, da Matéria Prima, conta, por sua vez, que “realisticamente, não vislumbramos a reabertura antes de junho, será um período longo e sombrio que irá provocar alguns desabamentos. Vamos necessitar de atos de solidariedade, resistência e resiliência porque a cultura e o conhecimento não podem ser adiados, tão-pouco cancelados”. De Rui Quintela, da Louie Louie do Porto, as palavras sobre o futuro guardam apreensão, mas também esperança de um regresso à normalidade: “É de facto cedo para avaliar o que vai significar esta pandemia no longo prazo, ainda mais porque não sabemos sequer quando (e como) é que vai terminar. E penso que esta incerteza é geral. Para já, vamos fazendo o possível para nos manter à tona e esperamos que a normalidade volte em breve.”

Há quem olhe em frente para o Record Store Day (entretanto adiado para 20 de junho) como uma data a reter no calendário de todo este processo. “Todos os anos temos dado atenção especial ao Record Store Day, e essa será uma das nossas prioridades no regresso: preparar bem as ações para dia 20 de junho”, defende Rui Ferreira, da Lucky Lux. José Augusto Soares, da Tubitek, acrescenta: “Como é natural, temos esperanças de que, após a erradicação desta pandemia, o mercado retome (com alguma lentidão) o seu curso. Gostaríamos de que esse timing fosse curto mas, em todo o caso, temos fé de que juntos iremos ultrapassar esta doença (até porque temos que celebrar o RSD 2020 em 20 de junho!).”