Oub'lá

DarkSunn

 

“No final do dia quem manda na Monster Jinx é o monstro roxo que nos recrutou a todos”

 

Foi há oito anos que, em conversas de internet, um grupo de amigos, que nem a distância geográfica separou, fez nascer o coletivo Monster Jinx. Foi sob a égide da figura de um monstro roxo, o Jinx, que cresceu o trabalho de um grupo de produtores e MCs que viriam a tornar-se num verdadeiro dínamo daquilo que é hoje a música eletrónica de cariz urbano, com a raiz no hip hop e na música beat.

A vontade foi sempre a de disponibilizar a música de forma gratuita — “A história acabou por dar-nos um bocado de razão: a música tem vindo a tornar-se cada vez mais democrática, ou, pelo menos, tem hoje um acesso mais democrático”, diz-nos Bruno Dias, um dos CEOs da Monster Jinx, mas que é também DarkSunn, um dos produtores do coletivo.

Foi há um par de semanas que foi editado o terceiro volume da compilação ROXO — uma espécie de retrato daquilo que os vários músicos que compõem o plantel da Monster Jinx andam a fazer. Do elenco fazem parte nomes como Roger Plexico, OSEB, No Future, pretochinês, dgtldrmr, RAEZ, E.A.R.L, ou GhostWavves.

Hoje DarkSunn e o colega OSEB atuam no PARK, na Calçada do Combro, em Lisboa, numa festa Rimas e Batidas. E no início de março, no Lisboa Dance Festival, na LX Factory, DarkSunn e outro dos colegas da “direção” da Jinx — Nitronious — vão marcar presença no Clube Antena 3 num “back to back”. É, portanto, altura de perceber o que está a preparar o Monstro Roxo para 2017.

 

A Monster Jinx editou recentemente o terceiro volume da compilação ROXO. Queres explicar-nos que compilação é esta?

Essa compilação nasceu por uma razão simples. Já vamos fazer oito anos, mas quando chegámos aos cinco anos chegámos à conclusão que não tínhamos um trabalho que explanasse aquilo que a editora fazia e que, especialmente, mostrasse qual era o mood naquele preciso momento. É o que são estas compilações: uma espécie de fotografia daquilo que é a editora naquela altura. Temos sempre espaço para ser um pouco mais experimentais, mas reflete, essencialmente, aquilo que os produtores ou MCs estão a fazer na altura. Sempre muito próximo da cultura beat porque se olharmos para o leque de artistas que temos, o grande número são produtores.

 

Folheando então esse álbum das fotografias já reveladas, onde é que enquadras esta terceira compilação?

O estilo dos nossos produtores e da Jinx, em si, é sempre muito mutável. Temos algumas âncoras, que são o hip hop e a eletrónica, mas a partir daí vamos reorganizando a forma como abordamos a produção. Esta ROXO tem um ambiente mais dark do que as restantes e isso também se torna interessante: não é por estarmos todos deprimidos e a olhar para o futuro de uma forma sombria — o que podia ser — mas antes porque o vibe que temos agora está a entrar por caminho mais pesado e denso.

 

“Esta ROXO tem um ambiente mais dark do que as restantes e isso também se torna interessante: não é por estarmos todos deprimidos e a olhar para o futuro de uma forma sombria mas antes porque o vibe que temos agora está a entrar por caminho mais pesado e denso”

 

E todos os nomes que aparecem nesta compilação fazem parte da equipa da Monster Jinx? Também aparecem alguns convidados, certo?

Desta vez só um dos artistas que aparece é que não faz parte da label. De resto são todos nomes que fazem parte da Jinx ou que já estiveram ligados à editora. Essencialmente são nossos amigos. Um deles é o E.A.R.L. — DJ e produtor que é o novo membro da Monster Jinx — e o Raez, que já editou connosco. Quem não faz parte do nosso roster é o Frank Nitt, do duo Frank N Dank, de Detroit, que fez uma faixa original, gravada diretamente em cima do beat dos Roger Plexico.

 

Deste coletivo fazem parte, sobretudo, DJs e produtores. O coletivo também tem alguns MCs — casos de Stray, J-K e Pulse. Porquê esta predominância pelo lado instrumental? 

Eu, como ouvinte, acredito que há muita evolução para os MCs, tal como há para produtores. Mas estamos a entrar numa fase em que o conteúdo altera-se: ainda se encontram coisas muito interessantes e fora da caixa a serem feitas lá fora, mas também dentro de portas. No entanto, há uma outra razão para termos mais produtores no roster: o nosso principal problema é a nossa identificação com os artistas. Pessoalmente consigo ver mais facilmente a linguagem da Jinx em produtores do que consigo ver em MCs. Há muitas pessoas que sentimos que têm aquilo que consideramos ser a vibe da Jinx, mas é pessoal que está com os seus próprios projetos.

 

Como é que funciona a “recruta” de novos elementos?

(risos) É orgânico. Há uns tempos, no Twitter, um MC abordou-me para saber como poderia editar pela MonsterJinx. E isso é algo que não é muito linear, porque é um coletivo, mas ao mesmo tempo é uma editora. Também temos o caminho do “mandem-nos as coisas” e temos recebido proposta ultra-interessantes. A maneira mais orgânica é algum de nós ouvir alguma coisa que acha que tem o tal vibe roxo e nós fazemos uma abordagem ao produtor a mostrar o nosso interesse em conhecer mais.

Mas o que é que achas que está a faltar nos universos dos MCs para haver essa identificação com a Monster Jinx?

O que um MC escreve, a forma como diz as palavras, tem um peso muito mais vincado do que tem um beat, que pode ter centenas de aplicações diferentes. A letra de um MC é muito explícita e direta. E mesmo que nos identifiquemos, os próprios MCs têm uma palavra a dizer: muitas vezes já têm os seus projetos e mais dificuldades em envolver-se com algo que também consideram ser uma crew de produtores. E quanto mais produtores adicionamos, mais difícil se torna adicionar MCs. Mas nós temos trabalhado com muita gente, ao longo dos anos, fora da editora — como o Beware Jack, o Maze ou o Diaphra —, que são pessoas por quem a Jinx tem um enorme respeito.

 

A Monster Jinx foi criada em 2008. Como é que sentes que tem crescido nestes últimos oito ou nove anos? Beneficiaram muito com esta nova era do digital.

Quando começámos tomámos logo a decisão de não editarmos em físico, mas sim em MP3. E também optámos por fazer música gratuita, que nos permitiu um grande espaço de independência. Começámos tudo com uma grande inocência e aí por volta do quarto ano de vida passámos por alguma crise de identidade: andámos à procura do que é que verdadeiramente para editora e basicamente continuávamos a fazer música. A partir daí criou-se uma estrutura muito sólida, muito dirigida, e focado nisto de meter música cá fora, e transmiti-la dentro dos nossos canais. O online está connosco desde o dia um: no momento em que decidimos oferecer música em MP3, fizemo-lo deu uma forma mais organizada. A história acabou por dar-nos um bocado de razão: a música tem vindo a tornar-se cada vez mais democrática, ou, pelo menos, tem hoje um acesso mais democrático.

 

“Contem com o novo projeto de Roger Plexico, contem com o meu novo projeto, contem com o EP de estreia na Monster Jinx do OSEB, No Future e dgtldrmr, isto além dos projetos dos novos parceiros no crime da Monster Jinx!”

 

Ainda assim, há uma visão clássica à mistura. Todos vocês são grandes amantes de música e dos objetos físicos relacionados com a música. Por exemplo: as edições da ROXO são em cassete; têm edições em vinil; ou a última edição do J-K, que vem em formato livro.

Sim, e no caso da ROXO, enquanto houver fita vamos conseguir editar em cassete. E fica uma bela coleção no móvel lá de casa. Eu sou um comprador compulsivo de vinil e adoro o formato. Já editámos em vinil e temos planos para dar continuidade nesse formato. E gostamos dessa parte clássica. Eu sou de uma geração mais antiga em que a ideia e ouvir música no telemóvel não é o que mais gosto — apesar de o fazer. Todos nós na Monster Jinx vimos do hip hop, que é um género que tem certos “sacramentos” que continuam e vão sempre continuar — apesar de mais diluídos ou miscigenados que estejam.

 

Além de seres um dos CEOs da Monster Jinx também tens o teu lado criativo, o teu lado de produtor, enquanto DarkSunn. O teu último trabalho editado foi o Melange.

Exatamente. Lancei mais algumas faixas soltas desde 2015, ano em que saiu o disco, mas assim um trabalho mais consistente foi esse.

 

“Enquanto Darksunn, tenho uma ideia que está a ser construída, um projeto novo. O Melange marcou uma diferença num estilo de produção que eu tinha, foi uma viagem nova, e este novo EP vai ser outra viagem’”

 

Está previsto voltares às edições durante este ano?

(risos) Ainda bem que falas nisso! Tenho uma ideia que está a ser construída, que é um projeto novo e sem datas — gostava que fosse antes do fim do primeiro semestre. Mas temos uma série de coisas da Jinx para acontecer portanto vamos ver onde é que o meu espaço pode entrar dentro da editora. Há prioridades. O Melange marcou uma diferença num estilo de produção que eu tinha, foi uma viagem nova, e este novo EP vai ser outra viagem.

 

É fácil conciliar esse cargo de CEO com o de produtor?

Neste momento é um cargo partilhado, com Slimcutz (Luís Azevedo) e com o Nitronious (Tiago Lessa). Nós somos representantes do resto da equipa. Há muitas decisões que são tomadas em conjunto e no final do dia — pondo aqui a parte mística em cima da mesa — quem manda na editora é o Jinx! O monstro roxo é que nos recrutou a todos. São vontades coletivas. Depois são diferentes chapéus que há que saber usar: eu tenho o chapéu de CEO e o meu foco é a Jinx no global — ajudar ao máximo os artistas para editarem música e serem ouvidos. Depois, o DarkSunn — e falando na terceira pessoa (risos) — estou concentrado no que estou a fazer artisticamente. Eu não estou primeiro do que ninguém: sou só mais um.

 

A agenda do Monstro Roxo, e porque são tantos, também está sempre bem preenchida. Mas há aqui uma data que importa sublinhar: a do Lisboa Dance Festival, dias 10 e 11 de março na LX Factory. Já tocaste lá no ano passado, o Nitronious também.

Sim, vamos ser repetentes. O ano passado foi ainda o Ghost Wavves. Eu e o Nitronious, este ano, vamos fazer um set “back to back” — manter o nosso registo e o nosso feeling do costume, mas a experimentar algo ligeiramente diferente, portanto esperamos criar também uma atuação um pouco única. Espero que ajuda a captar a atenção dos festivaleiros (risos).

 

E além deste espetáculo?

De dois em dois meses temos a nossa residência artística no Maus Hábitos, que são as nossas festas Purple Hazing. Na segunda metade do ano teremos a terceira edição do nosso festival, onde aparece toda a gente da editora. E hoje estarei com o meu parceiro de armas, o OSEB, na residência mensal do Rimas e Batidas no PARK, em Lisboa.

 

E as edições?

Vai ser um ano recheado, porque no ano passado tivemos muito poucas edições! (risos) Todos os nossos artistas estiveram a trabalhar arduamente no futuro próximo. Contem com o novo projeto de Roger Plexico, contem com o meu novo projeto, contem com o EP de estreia na Monster Jinx do OSEB, No Future e dgtldrmr, isto além dos projetos dos novos parceiros no crime da Monster Jinx!