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Cinema em 2020

O que promete 2020? De 007 a Dune, passando pelos Safdie e por Nolan, Rui Pedro Tendinha responde: sequelas, spin-offs e filmes de super-heróis que podem ou não ter cinema. Mas sejamos otimistas… O ano vai ter também cinema de grandes autores. E é um ano de sim ou sopas para a sobrevivência das salas que apostam em propostas para um público mais adulto.

 

Diamante Bruto
Josh e Benny Safdie, com Adam Sandler (31 de janeiro; Netflix)

O famoso Uncut Gems já não vai estrear nas nossas salas — a Netflix ficou com ele. É uma pena os portugueses não poderem sentir a vertigem da angústia do joalheiro apostador dos manos Safdie. Uma personagem em queda filmada em delírio trágico por esta dupla que aqui se aperfeiçoa na ressonância de uma busca de cinema dos anos 1970.

Adam Sandler é brilhante numa obra que foi ovacionada com justificado histerismo no Festival de Toronto. A consagração dos autores de Good Time numa “história verdadeira” que reinventa o espírito do cinema perigoso de Nova Iorque (olá, Abel Ferrara!). Não é por acaso que o produtor dá pelo nome de Martin Scorsese.

 

A Ilha dos Silvos
Corneliu Porumboiu, com Vlad Ivanov (9 de janeiro)

Um dos grandes cineastas da nova vaga romena regressa com um policial impassível. La Gomera é o regresso de Corneliu Porumboiu, mais conhecido de 12:08 a Este de Bucareste. Aqui, encena um filme-de-golpe sobre um polícia corrupto de Bucareste que se instala numa ilha espanhola e aprende a linguagem por assobios para comunicar com a máfia.

Prático e enxuto, A Ilha dos Silvos é de uma economia narrativa exemplar e uma bela homenagem à herança de Melville.

 

Birds of Prey (e a Fantabulástica Emancipação de uma Harley Quinn)
Cathy Yan, com Margot Robbie (6 de fevereiro)

Impossível em 2020 não pararmos por aqui. Spin-off de Esquadrão Suicida centrado na personagem da irreverente Harley Quinn, uma vilã com sentido de humor e de fashion. Para já, sabe-se pouco; apenas que desta vez Harley já não está com o namorado Joker e que tem uma missão: proteger uma jovem das garras do crime organizado.

Pelas mãos da realizadora de Dead Pigs, este divertimento “comic” pode ser uma continuação do upgrade iniciado com Joker no que toca a adaptações de bandas desenhadas. É também a primeira vez que Hollywood coloca alguém vindo da China no comando de um blockbuster de muitos milhões.

 

Patrick
Gonçalo Waddington, com Hugo Fernandes

A estreia de Gonçalo Waddington na realização é “somente” um dos grandes momentos do cinema português dos últimos anos. Um estudo de personagem que nos mostra Patrick, um jovem detido pela polícia francesa que é, na verdade, Mário, um menino português que fora raptado há doze anos e atirado para os horrores da pornografia pedófila. Agora, é enviado para a casa da mãe, numa pequena aldeia portuguesa. E é lá que tem de se confrontar com o verdadeiro “eu”.

Perturbante e sem resoluções morais, Patrick é uma hipótese de melodrama psicológico diferente da habitual paisagem do género. Um filme que não nos vai sair do corpo.

 

007: Sem Tempo para Morrer
Cary Joji Fukunaga, com Daniel Craig (9 de abril)

A série James Bond a entrar numa encruzilhada: sabe-se que é a última vez que Daniel Craig diz Bond, James Bond, e já foi anunciado que, na própria intriga, a pasta 007 passa para uma agente, interpretada por Lashana Lynch. Mas pelas primeiras imagens fica-se com a ideia de que Fukunaga tem o que é preciso para renovar a sofisticação da trama e das cenas de ação.

Resta saber se os esquissos de feminismo politicamente correto não traem a sempre assumida misoginia do agente de Sua Majestade. O que é para já imponente é o elenco, que volta a contar com Léa Seydoux, Ralph Fiennes e Christoph Waltz e tem como novos nomes Ana de Armas e o vilão Rami Malek. Ainda não se sabe quem será o responsável pelo tema musical, mas rezamos a todos os santinhos que os produtores não escolham Muse. Algo como Temples, Fontaines D.C. ou MGMT seria tão bonito…

 

Rainha de Copas
May el-Toukhy, com Trine Dryholm

Poderemos sempre contar com o cinema nórdico. Da Dinamarca, chega este Rainha de Copas, coqueluche do Festival Sundance 2019, um drama com sexo explícito sobre uma mulher de 50 anos que tem relações com o enteado de 17 anos. Para lá do tema tabu, o que interessa neste conto amoral é precisamente o exame moral que somos obrigados a fazer enquanto testemunhas de um pecado. A câmara desta senhora dinamarquesa não julga nem toma posições. Essa é a frieza de uma obra que tem provocado grandes discussões onde tem passado.

A atriz que fez recentemente de Nico, Trine Dyrholm, é a protagonista. Uma atriz que se apaga num papel de uma mulher que desperta para uma libertação sexual ao som de Soft Cell.

 

Tenet
Christopher Nolan, com John David Washington (16 de julho)

De que falamos quando abordamos realidade paralelas? Se há realizador que pode ir por aí, é Christopher Nolan, de regresso no próximo verão com o seu thriller mais audaz de sempre. Tenet é uma história de espionagem com viagens espaçotemporais, mas provavelmente é sobre o sentido da vida. Podemos esperar uma estonteante mistura de Memento com A Origem.

John David Washington, Kenneth Branagh, Michael Caine e Robert Pattinson são os nomes fortes desta excentricidade que já se perfila para ser um dos candidatos aos Óscares de 2021.

 

La Verité
Hirozaku Koreeda, com Catherine Deneuve

No último Festival de San Sebastián foi aplaudido, mas a crítica internacional torceu o nariz. Seja como for, é mais um passo forte na dissecação pela natureza humana para o autor de Ninguém Sabe.

Catherine Deneuve interpreta uma grande dama do cinema francês que durante as filmagens do seu novo filme recebe a visita da filha (Juliette Binoche) e do genro, um ator americano (Ethan Hawke). Uma visita que vai levantar segredos e verdades do passado.

Mais ligeiro do que é habitual, La Verité é essencialmente Koreeda a brincar e a homenagear uma ideia de cinema francês. Muito, muito divertido.

 

Monos
Alejandro Landes

Em 2019, foi um dos grandes filmes a rodar pelo circuito dos festivais. Uma descoberta de todo o tamanho vinda da Colômbia, mas com nomes de Hollywood no currículo. Neste caso, J.C. Chandor, o realizador de Quando Tudo Está Perdido, aqui como produtor, e Julianne Nicholson, no elenco.

O filme conta a história de oito miúdos soldados na guerrilha colombiana e a forma como lidam com uma refém americana. Cinema sensorial, em que a violência extrema é uma espécie de elemento natural num tom que lembra a abstração de Apocalypse Now. Dir-se-ia que é um filme “sob influência”, quanto mais não seja pelo efeito da música de Mica Paris.

 

Dune
Dennis Villeneuve, com Timothée Chalamet

Pouco se sabe ainda do mais ansiado filme de “fanboys” do ano, a adaptação de Villeneuve do livro homónimo de Frank Herbert (convém sempre lembrar que David Lynch renegou a sua visão produzida por Dino de Laurentiis). Consta que tem um orçamento gigante, efeitos visuais do outro mundo e uma escala inédita, tudo para recriar um futuro distante em que o planeta Arrakis contém uma especiaria rara que permite viajar no tempo.

A produtora Legendary espera que todo este universo não se fique por apenas um filme.

Além de Chalamet, o elenco está recheado de estrelas, de Javier Bardem a Jason Momoa, passando por Rebecca Ferguson e Oscar Isaac.

 

Cineastas que marcam o ponto:
Woody Allen — Rifkin’s Festival
João Botelho — O Ano da Morte de Ricardo Reis
Trey Edward Shults — Waves
Wes Anderson — The French Dispacht
Abel Ferrara — Siberia
Olivier Assayas — Wasp Network
Greta Gerwig — Mulherzinhas
Matteo Garrone — Pinocchio
Steven Spielberg — West Side Story
David Fincher — Mank
Leos Carax — Annette