Oub'lá

Bruno Pernadas

Foto: Vera Marmelo

“Para mim é fácil fazer música”

Foi em 2014 que Bruno Pernadas se estreou a solo e logo com um disco-bomba: How Can We Be Joyful In a World Full of Knowledge. Não é assim tão comum darmos de caras com um primeiro disco de um artista que tenha os níveis de perfeição e bom gosto tão a par, a soar tão bem. Mas depois também ficamos a perceber que Bruno Pernadas também não é um músico comum: cresceu nos subúrbios de Lisboa na década de 1980 e logo aos 13 anos foi estudar música clássica. Diz que era bom aluno, aplicado e que fazia muito bem os trabalhos. E, aparentemente, continua a fazê-lo, já que entre períodos de composição tem também escrito peças clássicas para bailado.

Da música clássica foi estudar jazz para o Hot Clube – e a panela dos cozinhados a encher. Pelo meio, andou a fazer rock-folk com twists de tropicalismo com o amigo João Correia nos Julie & The Carjackers. Quando nós demos por ela, estavam todas estas influências a borbulhar no seu disco a solo.

O regresso dá-se em dose dupla, porque Pernadas não está para lançar agora um disco e outro daqui a dois meses. Tem material pronto, então toca a ouvir: Worst Summer Ever, um disco de jazz, “de muito ‘chão’ e denso, de música agressiva”; e outro, com mais um título palavroso e ameaçador, Those Who Throw Objects At The Crocodiles Will Be Asked To Retrieve Them, que marca a continuidade deste seu metódico trabalho no universo da pop de câmara – e tantas outras coisas mais.

O teu regresso ao discos acontece não só com um, mas com dois discos. Porquê?

São duas situações distintas: o disco de jazz, Worst Summer Ever, já era para ter sido editado há muito tempo – já o tinha gravado, inclusivamente, no verão passado. Pelo meio até lancei o How Can We Be Joyful In World Full of Knowlege e o Worst Summer Ever acabou até por ficar um bocadinho de parte. Entretanto, decidi dar continuidade a este novo disco, a este Those Who Throw Objects At The Crocodiles Will Be Asked To Retrieve Them [vamos chamar-lhe Crocodiles] e não me fazia sentido ter dois discos prontos, editar um e cinco meses depois o outro. Assim foi mais fácil.

Mas, para que conste, tratam-se de dois univresos completamente distintos. O Worst Summer Ever é um álbum de jazz e o Crocodiles é, dizes tu, um disco de continuidade?

Sim, porque o universo musical está dentro do mesmo espírito do How Can We Be Joyful… Ainda que as características fundamentais do disco se dirijam para outros caminhos.

A diferença está mais na forma de o fazer do que na forma de o pensar?

Sim. Houve mais músicos a tocar instrumentos na mesma sessão de gravação e isso muda a música e a dinâmica. Mas também se nota isso nos estilos que aparecem aqui que não aparecem no outro. Digamos que este é um dos géneros que eu trabalho. É o meu estilo, que abrange muitos outros, ainda que haja uma característica qualquer, que desconfio que seja melódica, que crie uma identificação.

Essa característica que distingue a tua sonoridade está definida desde o teu primeiro álbum?

Acho que sim. O How Can We Be Joyful, de 2014, foi o meu primeiro disco lançado, apesar de em 2008 ter gravado um álbum de jazz/música de câmara/cinematográfica, mas não o editei. E já nessa altura o meu som estava definido. E eu não tenho 20 anos… se tivesse feito estes discos nessa altura seriam bastante diferentes (ri-se). Aliás, tenho algumas gravações dessa altura, com canções giras, mas que não têm nada a ver com isto.

 

“Houve um período durante três ou quatro anos em que não ouvia bandas. Agora estou mais tolerante”

 

Nasceste em que ano?

1982. Tinha 29 anos quando gravei o primeiro disco – quando o disco saiu ia fazer 31. Claro que já tinha um estilo delineado. Tenho é a sorte de me conseguir mover em várias frentes. Ainda recentemente fiz a música para o bailado “Romeu e Julieta” da Companhia Nacional de Bailado – e é música contemporânea! Não tem nada que ver nem com jazz nem com isto que aqui faço.

Como é que derivas entre esses múltiplos universos? Entre o jazz, a música contemporânea, clássica e este teu pop de câmara? Como é que encontras o foco?

Tem a ver com a educação académica, talvez. Eu estudei guitarra clássica, música clássica e jazz. Tenho experiência e técnica. Claro que trabalho sempre de forma intuitiva e ser sempre fiel às ideias. Mas sem técnica creio que era impossível ter estes resultados.

Quando é que este Crocodiles começa a nascer? Quando fazes o How Can We Be Joyful… já sabias que ia haver uma sequência?

O processo não funciona dessa forma. Eu tenho centenas de músicas deste universo em pastas e em pautas. Depois, basicamente, o que acontece é que vou fazendo um rastreio, uma seleção, para ver quais os que vou utilizar. Neste disco há uma canção chamada “Yah Yah Breathe” que já estava feita na altura do How Can We Be Joyful… Eu não tenho o mesmo processo criativo das bandas, que quando vão fazer um disco vão compor, vão para estúdio gravar, vão batalhar para encontrar as músicas, fazer arranjos… Se agora me lembrar de uma melodia canto logo para o telefone, gravo – dantes tinha de escrever! – e quando tenho tempo agarro, trabalho a ideia e as coisas surgem assim. As coisas surgem-me com naturalidade e não digo isto de uma forma altiva. Um jogador de futebol que joga bem não vai dizer que joga mal! Ele sabe que joga bem!

Tens períodos criativos?

De forma geral, a nível de disponibilidade mental e emocional, estou sempre a 100 por cento. Se estiver com outros projetos ao mesmo tempo, torna-se muito mais difícil trabalhar. Mas nunca forço! No meio académico é que às vezes tinha que forçar e entregar arranjos e peças de um dia para o outro – e aí não há inspiração que te vá salvar. Mas para mim é fácil fazer música – mesmo quando tinha dez ou 11 anos, em que fazia músicas e nem sequer sabia o que estava a fazer.

E agora um elogio: confesso que não são assim tantos os trabalhos que encontramos, pelo menos em Portugal, com esta unidade e coesão entre composição, execução, captura.

Creio que tem que ver com a minha educação académica e também com aquilo que eu ouço: muita música clássica, muito jazz e… música maluca. Antiga. Se me pedissem para produzir um disco de house (não, espera: house music se calhar até conseguia produzir). Mas se fosse um estilo tipo Buraka Som Sistema (como é que se chama estilo, kuduro progressivo?)… isso já não conseguia. Também não conseguia fazer um disco de techno ou um disco de punk hardcore bem feito. Nestas áreas em que me mexo, o jazz, a clássica ou a pop, consigo produzir porque gosto!

Sempre viste a música como mais do que um hobbie?

Acho que sim. Logo aos 13 anos fui estudar música clássica. E era, de facto, bom aluno: era aplicado, fazia bem os trabalhos. 

 

“O que imagino, no futuro, é lançar um disco só de canções. Um disco normal (risos) só de músicas de três minutos e meio! Este só tem uma”

 

Há um par de anos lançaste um disco com o João Correia, o de Julie & The Carjackers. Sentes-te confortável nesse universo das bandas ou preferes estar a solo?

Haveremos de continuar os Julie & The Carjackers, quando tivermos tempo! Eu não sou nem de uma coisa nem da outra – talvez seja mais do meio do jazz, porque cresci muito aí. Quando houve o apogeu ou o comeback das bandas, quando deveria voltar a ser como quando era adolescente, eu não estava para aí virado: estava a acabar o curso de jazz e a entrar para a escola superior de música e a estudar Análise de Técnicas de Composição. Estava virado para algo mais erudito. Houve um período durante três ou quatro anos em que não ouvia bandas. Agora estou mais tolerante.

Foi cerca de uma dezena de músicos e amigos que trabalharam contigo neste Crocodiles. Os convites que fazes ao músicos para te acompanharem em estúdio vão acompanhados de pautas e temas fechados?

Depende dos instrumentos. Nunca é tudo escrito, a não ser na parte dos sopros. Não é música clássica nem erudita, por isso não tem que haver todas as marcações. Mas é comum no jazz escrever a melodia e a cifra e o músico que acompanha tem liberdade. Eu explico a estética e digo como quero a música. Mas também há partes abertas, em que está escrito “open”, em que o músico faz o que quer.

Haverá uma terceira parte deste universo, depois de How can We Be Joyful… e Crocodiles?

Não sei. São discos muito trabalhosos. Terminámos este disco há pouco tempo, mas começou a ser tratado em novembro. É uma estafa, porque aqui não há magia: não há produtores a não ser eu. Não há arranjadores a não ser eu. Sou eu que tenho de estar na régie a dizer como quero as músicas, até como engenheiro de som. É um trabalho que não pára. O que imagino, no futuro, é lançar um disco só de canções. Um disco normal (risos) só de músicas de três minutos e meio! Este só tem uma.

Entrevista: Bruno Martins