A 10 de outubro de 2014, o novo enviado especial da ONU à Síria, Staffan de Mistura, lança um apelo dramático em Genebra, Suíça: se ninguém intervier, milhares de pessoas serão massacradas em Kobani, a cidade sitiada há três semanas pelo Estado Islâmico. Um "massacre", diz de Mistura, semelhante ao de Srebenica na ex-Jugoslavia.

No centro de Kobani, diz o enviado da ONU, há pelo menos 700 civis, na sua maioria pessoas de idade. E 10.000 a 13.000 pessoas refugiaram-se junto à fronteira de Mursitpinar. Se a cidade cair nas mãos dos jihadistas, estes civis “serão muito provavelmente massacrados”, adverte.

Kobani situa-se mesmo junto à fronteira da Síria com a Turquia. É um alvo do Estado Islâmico pois a sua situação estratégica é importante, permitindo controlar 400 dos 900 quilómetros da fronteira turca com a Síria. A 17 de setembro, depois de abandonar as suas bases mais a sul, sob ameaça dos bombardeamentos da Coligação, o Estado Islâmico lançou uma ofensiva contra as populações curdas, a norte.

Há mais de um ano que os curdos sírios se defendiam, como podiam, dos ataques dos grupos jihadistas. As milícias locais (YPG, Unidades de defesa do Povo) obtiveram assim grande experiência contra o Estado Islâmico mas este nunca tentou realmente controlar a região. Em setembro, isso mudou.

Com a fama de crueldade a precede-lo, o avanço do Estado Islâmico provocou uma onda de fugitivos entre os civis, aldeia após aldeia. Quem pôde pegou no que tinha de mais valioso e passou a fronteira, para a Turquia. Nem todos o conseguiram. Outros voltaram para trás, para combater, depois de porem a família a salvo.

Kobani centra todos esforços dos combatentes curdos, para impedir que a cidade caia nas mãos dos jihadistas.

A luta é desigual. Escassos milhares de homens e de mulheres das milícias curdas combatem com armas automáticas contra tanques e lança morteiros, perante uma força aparentemente inesgotável de jihadistas. Mesmo assim, conseguem resistir, três semanas, com o apoio dos ataques aéreos da Coligação, liderados pelos Estados Unidos.

Turkish Kurds look towards the Syrian Kurdish town of Kobani from the top of a hill close to the border line between Turkey and Syria near Mursitpinar- Umit Bektas, Reuters

Turkish Kurds look towards the Syrian Kurdish town of Kobani from the top of a hill close to the border line between Turkey and Syria near Mursitpinar-Umit Bektas, Reuters

Das colinas próximas, outros tantos milhares de curdos e algumas centenas de soldados turcos assistem à lenta queda da cidade. Os combates, os tiroteios, os bombardeamentos, ouvem-se ali claramente. Para os curdos, impedidos de passar a fronteira para ir combater, a situação é insustentável.

Por várias vezes tentaram furar as barreiras, para ir em socorro dos seus compatriotas. São impedidos pelos soldados turcos.

Nas cidades, as populações curdas imploram ao mundo que envie munições, auxílio, aos combatentes. Em vão. Só os ataques aéreos da Coligação intervêm. E por vezes atingem também os defensores da cidade.

Turquia de braços cruzados

Em Genebra, de Mistura apela a Turquia a deixar passar os voluntários para reforçar as linhas de defesa de Kobani. A sugestão é repelida. À televisão France 24, o ministro turco dos Negócios Estrangeiros, Mevlut Cavusoglu, considera que enviar civis para a guerra é “um crime”.

“Não penso que esses civis queiram regressar. A Turquia não pode dar armas a civis e pedir-lhes de regressar para lutar contra grupos terroristas. Enviar civis para a guerra é um crime, não queremos uma nova tragédia” argumenta.

A 2 de outubro, o Parlamento turco autorizou o Governo a lançar uma intervenção militar contra o Estado Islâmico. No dia anterior, o presidente turco Tayyp Eccep Erdogan, tinha admitido lançar um ataque às forças jihadistas, caso estas atacassem o mausoléu sírio de um herói turco, guardado por soldados turcos.

Erdogan promete ainda combater todos os grupos terroristas, numa referência oblíqua às milícias curdas do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) que há décadas combatem por um Estado próprio.

As tropas turcas são reforçadas junto à fronteira de Mursitpinar, com dezenas de carros armados e de tanques. E tudo pára, nada mais acontece.

tanques turcos na fronteira  junto a Kobani 8 out (Reuters)

Os dias do fim

Kobani é atacada em três frentes, pelo leste, sul e oeste. Dia seis de outubro, os jihadistas içam a sua bandeira negra numa colina a leste da cidade, a colina de Tel Shair.

A sete de outubro, conseguem coloca-la num bairro da cidade. No dia seguinte, o Governo de Ancara anuncia que a queda de Kobani está por horas.

Para os curdos é a gota de água.

Revoltam-se contra a passividade turca que se mantém à parte, a assistir ao conflito. Os protestos em toda a Turquia, sobretudo no sul, e que alastram à fronteira de Mursitpinar, causam dezenas de mortos e de feridos.

Confrontos turquia curdos contra inercia turca 8 out (reuters)

No dia seguinte, os ataques aéreos da Coligação redobram de intensidade e conseguem fazer recuar por algumas horas o avanço do Estado Islâmico. Mas não chegam. E os soldados do Estado Islâmico começaram também a colocar bandeiras curdas ou sírias sobre as suas posições, para evitar os bombardeamentos.

 

Dia 09 as forças jihadistas assumem o controlo de um terço da cidade. Avançam pelo sul e pelo leste. Dia 10 já controlam 40% da malha urbana e tentam estabelecer um corredor para a zona norte. A escassos quilómetros da fronteira e de milhares de civis.

Nessa sexta-feira à noite, conseguem conquistar o quartel-general da defesa curda. Os defensores da cidade já quase não têm munições. Mustafa Ebdi, um militante curdo, contactado pela Agência France Presse, diz que os seus compatriotas de Kobani lhe telefonam ” em lágrimas”.

Uma mulher, combatente do PKK, suicida-se com a última bala para não cair nas mãos do Estado Islâmico. Outra lança-se contra os jihadistas e faz-se explodir entre eles. A tática é também usada pelos atacantes contra as forças curdas.

De Mistura, em Genebra, mostra fotos-satélite da cidade.

“10.000 a 13.000 habitantes estão ainda na zona da fronteira – entre a Síria e a Turquia – e muitos estão ainda dentro da cidade” afirma. “Se esta cai, estes civis serão muito provavelmente massacrados”, conclui o diplomata.

  • Denis Balibouse, Reuters
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  • Umit Bektas, Reuters
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“Já que Kobani vai provavelmente cair se não tiver auxílio, permitam àqueles que querem ir para lá e ajudar a auto-defesa, com um equipamento suficiente, o equipamento pode fazer muitas coisas”, pede Mistura à Turquia.

“Não é com resoluções da ONU que o Estado Islâmico se irá deter” acrescenta. “O nosso apelo à Turquia pretende que ela tome medidas suplementares para deter o avanço do EI, senão todos nós, incluindo a Turquia, lamentaremos”, garante o enviado especial da ONU à Síria, receando que o próximo alvo dos jihadistas seja a cidade síria de Alepo.

Turquia recusa avançar sozinha

A Turquia recusa contudo ceder à crescente pressão internacional para intervir. A 09 de outubro insiste que não poderá intervir no terreno sozinha.

Por: Pedro Zambujo e Mário Santos

Para proteger a fronteira e o país do Estado Islâmico, o Governo turco defende por isso a criação de uma zona-tampão em torno de Kobani, a criação de uma zona de exclusão aérea que impeça a aviação síria de bombardear os grupos sírios moderados e o envio de armamento para estes mesmo grupos.

Só a França aceitou de imediato a solução da zona tampão. Estados Unidos e NATO mantêm-se prudentes.

Ancara é acusada por muitos de não intervir propositadamente na defesa de Kobani, porque assim se livra de dois inimigos em simultâneo: por um lado, do Estado Islâmico, que perde homens e material na ofensiva; por outro, dos curdos, que há décadas contestam o poder de Ancara.

A verdade, dizem muitos críticos e analistas, é que a Turquia, um país membro da NATO, faz há anos vista grossa ao contrabando de armas, homens e abastecimentos para os grupos jihadistas e, eventualmente, para as forças moderadas e laicas da Síria que combatem o Governo de Bashar al-Assad desde 2011. O Governo de Bashar al-Assad, o Presidente sírio, pode, por isso, perder parte do país para o Estado Islâmico, que a Turquia irá assistir a tudo de braços cruzados.

E o Estado Islâmico tem milhares de simpatizantes entre os turcos, algo a que o Governo de cariz islamita, está atento. Intervir militarmente contra o grupo pode causar à Turquia muitos estragos.

Já a queda de Kobani poderá ser a derrota do resto do mundo.

 

Por Graça Andrade Ramos