Emitido

2018/11/03

Episódio nº 72

 

Convidados

Maria Barrô (telespetadora);

Paulo Carvalho (telespectador);

João Fernando Ramos;

 

Texto do Provedor

Os telespetadores queixam-se e apesar da coerência dos argumentos avançados pelo responsável da RTP3 o Provedor dá-lhes razão. Contribuir para aumentar a diversidade da oferta televisiva faz parte do núcleo principal da missão do Serviço Público de Televisão. A emissão simultânea do mesmo programa em dois canais contraria esse objetivo e reduz as possibilidades de escolha dos telespetadores. Antes podiam ver documentários como alternativa ao Telejornal; agora não podem. É certo que poucos o faziam, mas todos podiam fazê-lo. E essa liberdade de escolha foi, agora, reduzida.

Sejamos claros: o desafio que a RTP3 enfrenta é o de criar um perfil informativo bem distinto daquele que caracteriza a RTP1. O que os telespetadores querem é poder escolher entre dois tipos de informação diferentes, entre duas formas distintas de trabalhar e apresentar a atualidade. Tal como, para citar um exemplo, tem sido hábito entre o Jornal 2 e o Telejornal.

Mas não é isso que a RTP3 oferece. Começa o dia informativo com mais de três horas de Bom Dia Portugal emitido em simultâneo com a RTP1. E é, naturalmente, esse conteúdo que em boa parte prolonga pelos noticiários seguintes. É caso para dizer: fossem as manhãs informativas da RTP3 marcadas por um tipo de jornalismo e de informação com abordagens à realidade distintas da informação da RTP1 e logo o público perdoaria um simultâneo nos dois grandes blocos informativos do dia. O desafio não é pequeno, mas quanto mais tarde a RTP3 lhe responder, pior.

[…]

A cobertura do incêndio na Serra de Sintra começou mal para a RTP3. A notícia foi dada uma hora depois de outras estações televisivas o terem feito. Apesar disso, a jornalista no local teve apenas direito uma intervenção de 2 min para desaparecer durante a meia hora seguinte em que o canal escolheu emitir um programa gravado.

Regressada ao ecrã à 1h35 a jornalista teve por excesso aquilo que antes tinha tido por defeito: mais de uma hora sozinha em direto, tentando desesperadamente reportar algo mais para além daquilo que via. O que, é óbvio, e por mais esforçada que fosse, não conseguiria.

O que tinha começado mal não se endireitou. Não estava ninguém na RTP para tratar o caudal informativo que o incêndio já provocava: reações de responsáveis da proteção civil e dos bombeiros, entrevistas a presidentes das câmaras da região e a especialistas, testemunhos de moradores, etc… etc… Tudo informações que a repórter no local não conseguia tratar ao mesmo tempo que relatava o que via.

Estar perto do acontecimento permite ver a árvore, mas pode impedir a visão da floresta. A ideia de que a melhor informação televisiva é a que está mais próxima do acontecimento é redutora e, como este caso mostrou, pode ser errada. Acontecimentos de grande impacte obrigam a complementar a reportagem no local com a informação que sobre eles só o jornalista na redação consegue obter.

Eu sou o seu Provedor. Não se esqueça, pode contar comigo.

Veja o programa completo aqui