Emitido

2018/04/07

Episódio nº 49

 

Convidados

António Pedro Vasconcelos (realizador);

Carlos Valente (telespectador);

Maria Helena Barata (telespetadora);

Hugo Gilberto;

Gonçalo Reis

 

Texto do Provedor

O futebol português encontra-se submerso numa turbulência de contornos nunca antes vistos. Investigações policiais, casos em tribunal, ameaças e suspeições de todo o tipo aliadas a uma permanente violência verbal marcam a atualidade. Para os que, acima de tudo, gostam de futebol, esta nuvem negra quase os impede de desfrutarem daquilo que verdadeiramente lhes interessa: presenciar bons jogos em que as equipas e os atletas brilham ao mais alto nível.

Todas as semanas sou interpelado pelos telespetadores sobre temas do desporto-rei em Portugal. Cabe ao Provedor avaliar a pertinência das críticas e queixas que lhe chegam. É verdade que considero alguma dessa correspondência como não sendo pertinente por ter origem em avaliações claramente enviesadas por um clubismo desmedido que se torna fonte de cegueira. Mas é também verdade que as preocupações manifestadas pelo público não dizem maioritariamente respeito aos casos envolvendo dirigentes, árbitros e clubes nacionais. Aquilo que os leva a escrever com maior frequência ao seu Provedor relaciona-se com o excesso de atenção noticiosa dada ao futebol. Ou, no polo oposto, mas em igual número: a falta de transmissão de jogos, ou de notícias sobre o seu clube.

Não é possível agradar a quem quer ver mais futebol na sua televisão e aos que se sentem bombardeados com notícias, debates e transmissões que não querem ver. Nem é possível definir, em abstrato e de uma vez por todas, o que é razoável, o que será imprescindível e onde começa o excesso. Mas é possível observar mais de perto esta questão, ouvir opiniões contraditórias, verificar o que se passa e propor recomendações.

Vamos a jogo!…

[…]

Os números agora apresentados não são um estudo completo e acabado sobre a presença do futebol na televisão pública. Mas, embora sejam parcelares, os resultados a que chegámos mostram algumas evidências.

No que diz respeito à RTP3, o tempo – mais de 10 por cento do total – dedicado diariamente ao futebol surge como claramente excessivo. Não se dúvida de que a escolha, a seleção e o alinhamento das notícias são da responsabilidade de cada editor dos diferentes jornais ao longo do dia. Essas opções são tomadas a partir da importância relativa que conferem ao conjunto da informação disponível sobre a atualidade. O que parece merecer discussão mais aprofundada são os critérios jornalísticos com base nos quais se organiza e se dá uma hierarquia aos principais acontecimentos do dia. Uma reflexão mais atenta sobre o que se reporta e o que se ignora pode influenciar decisivamente a alteração destas escolhas.

Quanto à RTP1, é claro que o futebol introduz na grelha da programação algo de que em todos os outros dias o canal procura fugir: uma oferta monotemática durante boa parte do horário nobre. Ou seja: quando há transmissão em direto de jogos da Champions quase três horas do horário nobre na RTP1 são dedicadas ao futebol e ao debate sobre futebol. Programação que agrega muito público, mas que, como é natural, afasta outros.

[…]

Cada vez são em menor número as ocasiões em que todos estamos a ver o mesmo programa televisivo. Esse sentido de acontecimento global visionado em simultâneo por todos está confinado aos diretos e os jogos de futebol são um desses acontecimentos. Como se disse, há cada vez menos dinheiro para investir nas transmissões de jogos de futebol. Cada vez mais estas manifestações desportivas, e outras de grande impacte, deixarão de ser vistas nos canais públicos e em qualquer outro canal de acesso livre. É uma tendência preocupante. Sobretudo se, privada das transmissões, a televisão pública procure compensar essa ausência com excesso de notícias, debates e programas de análise e comentário.

A transmissão dos grandes jogos de futebol envolvendo a seleção ou os clubes nacionais faz parte, sem sombra de dúvida, do serviço público de televisão que a RTP está obrigada a oferecer. Não há melhor defesa desta afirmação do que ocupar com critério rigoroso e de modo ponderado o tempo de informação que vai para além da transmissão dos jogos. Reforçar aquele princípio passa por juntar ao futebol dos grandes a informação sobre os clubes de menor dimensão e continuar a aumentar a atenção às modalidades desportivas diferentes da que hoje ocupou o nosso programa. Questões tão mais importantes quanto neste verão há encontro marcado com o campeonato mundial de futebol.

Eu sou o seu Provedor, não se esqueça: pode contar comigo

Veja o programa completo aqui