50 anos. Presidente da Comissão Europeia. Casado com Pilar Abrantes Martins, de quem tem dois filhos, Catarina e Joaquim. Irmão de António Martins. Conservador, desgastado pela vida, triste, cobarde. Não é feliz em quase nenhuma das escolhas que fez, pessoal e profissional. Está no terceiro mandato. Recusa voltar a beneficiar de ilicitudes, como aconteceu para chegar ao presente cargo, pois quer viver um pouco melhor com a sua consciência. Entrou na política muito jovem, quando ainda era estudante universitário, em boa parte impulsionado por um tio-padrinho que dedicou toda a sua vida à política. Já falecido, este tio-padrinho de Rui entusiasmou-o para as lides políticas e Rui teve a certeza de que era esse o caminho que queria seguir.

Está prestes a sair da Comissão, o que tem motivado grandes pressões por parte de Pilar, a sua mulher, para que ele encontre uma fonte de influências e, consequentemente, de rendimentos digna de substituir as vantagens de ocupar o cargo de Presidente. No entanto, saturado e muito desgastado pelos meandros pouco nobres da vida política, e também com a consciência pesada pelas “ajudas” que teve para chegar onde chegou, Rui deseja manter-se afastado de tudo o que envolva actos ilícitos ou qualquer forma de corrupção, pelo menos no que à sua actividade política diz respeito. A sua relação com Pilar já teve dias bem melhores. Rui já não suporta a mulher nem a insistência dela para que ganhe dinheiro a qualquer custo.

 

 

Se um dia amou Pilar, pelo menos o suficiente para casar com ela, já há muitos anos que esse sentimento deu lugar a uma espécie de submissão misturada com algum comodismo e também receio não só de ver a sua imagem publicamente arrasada, mas também de fazer os filhos sofrer, tal como Pilar ameaça sempre que Rui expressa abertamente a sua saturação da mulher. Por estes motivos Rui vai aguentando o casamento com Pilar e desconhece que ela e António são amantes há anos. Com o irmão, António, Rui tem uma relação muito próxima e, da sua parte, franca. Rui gosta muito do irmão e vê-o como um homem de política de bastidores bem-sucedido, nada mais, apesar de saber que António terá também recorrido a algumas práticas menos lícitas para conseguir alguns objetivos. No entanto, Rui não faz ideia de que o irmão pertence também ele ao mesmo grupo organizado de empresários.

Por conhecer tão bem o universo feio da política, o desejo de Rui é que nenhum dos filhos lhe siga as pisadas. Por isso detesta e preocupa-se muito por ver que Pilar está a conduzir e incitar Joaquim para esse universo. Se por um lado tem uma relação muito cúmplice com Catarina, a sua filha, que o adora e admira, já com Joaquim não acontece o mesmo, pois o filho tem uma relação muito mais próxima com a mãe. Ainda que tenha tomado a decisão de se manter afastado do clima de corrupção de que até beneficiou largamente no passado, Rui conhece muitas pessoas que praticam as mais variadas actividades ilegais – o seu percurso político fizeram-no conhecer todo este universo ilícito e, principalmente, fizeram-no aprender a conviver com ele.

Rui não quer ser corrupto, mas fecha os olhos a muitas ilicitudes que existem à sua volta. Entre elas está o Sela, do qual Rui é cliente assíduo. Esta contradição existe em Rui de uma forma quase inconsciente e irresponsável, da qual ele prefere distanciar-se, como se não significasse nada. É no Sela que Rui vai conhecer Bruna, o combustível que lhe faltava para ganhar a coragem necessária para se separar de Pilar: Rui apaixona-se pela brasileira e acredita que ela lhe trará um novo fôlego, uma nova vida, a felicidade que Pilar o fez perder há anos. No entanto, e como em tudo na vida do casal, Pilar não irá facilitar a vida a Rui, que, apesar de convicto de que quer não só o divórcio mas também ir viver com Bruna, terá de enfrentar uma verdadeira tormenta para conseguir tal objectivo.