Nesta semana dedicada a Angola, que foi a joia da coroa do império colonial português e que se tornou independente há 40 anos, recordamos um poema que assinala o início da guerra, em 1961.

Nambuangongo, meu amor, de Manuel Alegre. Cantado por Paulo de Carvalho.

Letra de “Nambuangongo, Meu Amor” (Manuel Alegre)
Em Nambuangongo tu não viste nadanão viste nada nesse dia longo longoa cabeça cortada

e a flor bombardeada

não tu não viste nada em Nambuangongo

 

Falavas de Hiroxima tu que nunca viste

em cada homem um morto que não morre.

Sim nós sabemos Hiroxima é triste

mas ouve em Nambuangongo existe

em cada homem um rio que não corre.

 

Em Nambuangongo o tempo cabe num minuto

em Nambuangongo a gente lembra a gente esquece

em Nambuangongo olhei a morte e fiquei nu. Tu

não sabes mas eu digo-te: dói muito.

Em Nambuangongo há gente que apodrece.

 

Em Nambuangongo a gente pensa que não volta

cada carta é um adeus em cada carta se morre

cada carta é um silêncio e uma revolta.

Em Lisboa na mesma isto é a vida corre.

E em Nambuangongo a gente pensa que não volta.

 

É justo que me fales de Hiroxima.

Porém tu nada sabes deste tempo longo longo

tempo exactamente em cima

do nosso tempo. Ai tempo onde a palavra vida rima

com a palavra morte em Nambuangongo.