Oub'lá

Moonspell

“Foi o Irreligious que nos deu asas”

 

Foi há 20 anos que os Moonspell editaram o segundo disco da carreira. Irreligious foi o álbum que sucedeu ao trabalho de estreia, Wollfheart, e que levou a banda para outros voos. “Opium”, “Awake”, “Ruin & Misery” ou “Full Moon Madness” são temas que se tornaram uma referência identitária no trabalho da banda que celebra, hoje, em Guimarães, as duas décadas de Irreligious. Pedro Paixão, teclista, puxa a fita atrás e recorda a importância do disco na história da banda formada por Fernando Ribeiro, Mike Gaspar, Ricardo Amorim e Aires Pereira.

Além de histórias com 20 anos e do concerto de hoje no Multiusos de Guimarães, o músico põe também os olhos no futuro e desvenda o que é que aí vem. Dois mil e dezassete vai ser ano de regresso aos discos!

O concerto de hoje em Guimarães antecede o arranque de mais uma série de datas pela Europa. Pode dizer-se que é o pontapé de saída?

Não será propriamente o pontapé de saída, porque é um espetáculo que tem um conceito mais definido do que os concertos habituais. Neste caso, o que poderemos dizer é que o início de um ciclo de concertos. Temos tocado bastante, sobretudo desde o lançamento do disco Extinct. Digamos que é o pontapé de saída do intervalo, para usar uma linguagem mais futebolística.

E queres explicar-nos que conceito é esse de que falas?

Nós preparamos aquilo que é preparável. Depois a química que se gera à volta do concerto é uma consequência da preparação, mas esse será o fator menos controlável. Este concerto baseia-se na celebração dos 20 anos do nosso álbum Irreligious, que foi um disco muito marcante para nós e para os fãs – acho eu. É como já tínhamos feito para o Wolfheart, mas dado que o Irreligious foi um disco que nos redimensionou para uma fasquia mais alta, também preparámos algo com uma exigência mais alta. O Irreligious é um disco que tem quarenta e tal minutos e por isso não chega para fazer um concerto desta exigência. Tivemos que criar um conceito mais extenso. Lembrámo-nos de fazer uma trilogia, como outras bandas já o fizeram – estou a lembrar-me dos The Cure, que tocaram o Pornography, Disintegration e Bloodflowers num concerto. Nós vamos tocar o Wolfheart, o Irreligious e o Extinct completos. São três partes diferentes – logo aí um formato diferente.

Com direito a ambientes diferentes entre cada uma das partes?

Preparámos mudanças de cenário nos três capítulos, com elementos de fogo, por exemplo. Teremos também cantoras convidadas: as nossas queridas Crystal Mountain Singers, que já se juntaram a nós noutros concertos, mas também a Mariangela Demurtas a participar nas músicas em que precisamos de uma voz feminina. Assim juntamos várias peças para dar um concerto da forma mais completa possível.

 

“O novo disco será totalmente cantado em português – ou maioritariamente. O conceito vai girar à volta do terramoto de 1 de novembro de 1755”

 

O Irreligious, como disseste, foi um disco muito marcante para a banda, mas também para os fãs. Vinte anos depois, consegues ter uma visão clara do porquê da importância desse trabalho?

É difícil explicar o sucesso dos álbuns, porque todos nós temos nas estantes discos que adoramos e que nem por isso tiveram um sucesso mediático enorme. No caso do Irreligious: para nós é um disco muito marcante e olhando a esta distância, só me lembro que nem gozámos assim tanto desse sucesso. Na altura nem fizemos uma tournée em que tivéssemos sido cabeças-de-cartaz e nem sequer tínhamos independência financeira, mesmo que tenha sido um disco que vendeu muito. Se hoje vendêssemos aquilo que o Irreligious vendeu… agora olho para trás, para a nossa carreira, e sinto um enorme orgulho. Há uns tempos, um fã nosso na Alemanha ofereceu-me uma “Rock Hard”, uma revista alemã, da altura do Irreligious, em que estamos nós os cinco na capa, com a minha cara está em grande. Lá dentro estava uma reportagem sobre uma tournée que estávamos a fazer com os Type O Negative, que era uma das nossas bandas favoritas e que estavam no pico do sucesso. A mesma revista vinha com uma tabela com as preferências dois leitores da revista: o Irreligious estava em quinto lugar em que o primeiro era Iron Maiden, o segundo era Metallica, o terceiro era Manowar…

O Irreligious foi o disco que garantiu uma outra exposição mediática aos Moonspell. Serviu para crescerem enquanto banda?

A exposição mediática também se deveu ao facto de não ser um disco num estilo tão extremo como foi o Wolfheart. É um disco mais leve, com canções mais fáceis. O grande pulo que demos foi na passagem do primeiro para o segundo álbum. Tivemos um grande choque na forma de produzir com o primeiro disco e o Irreligious aparece como a materialização de toda a aprendizagem. Aprendemos a gravar um álbum e a melhor forma de compor canções para elas soarem bem. Claro que havia constrangimentos que não há hoje: nós gravávamos em fita! O Wolfheart foi um trampolim, mas foi o Irreligious que nos deu asas.

Lembro-me que a primeira vez que fomos à Finlândia, em Helsínquia, 1996, íamos tocar num clube. Durante a tarde, o Fernando [Ribeiro] disse-nos que tínhamos um prémio para ir receber, de um concurso qualquer. Ele nem sabia o que era. Quando voltou vinha com um prémio de “best newcomer” –melhor banda nova, que nem era só de rock ou metal! Foi receber o prémio à televisão, num auditório, deixou-nos a todos confusos! Para nós já era um privilégio poder fazer concertos, mesmo que fosse em más condições – financeiras e técnicas. Já era sorte não termos de conduzir o autocarro! Agora, a esta distância e olhando para a carreira consistente que fizemos, olhamos para trás e ficamos a pensar: “Dêem-nos outra oportunidade destas que vão ver! Hoje sabemos muito mais e vamos aproveitar muito mais!”

 

“Sempre fomos muito abertos em relação ao tipo de sonoridade que produzíamos. Ainda hoje temos uma sede insaciável de compor”

 

A carreira dos Moonspell tem sido feita, dentro do estilo do metal, dentro de uma grande diversidade sonora. Primeiro por um lado mais extremo, depois por outro mais gótico, para depois prosseguirem com outros discos até mais experimentais. Foi importante não ficarem presos só a um estilo?

Nós sempre fomos muito abertos em relação ao tipo de sonoridade que produzíamos. Ainda hoje temos uma sede insaciável de compor, desde que tenha uma pertinência artística. Essa pertinência vem de um certo desdém que temos pela parte material: claro que precisamos de viver – tínhamos um manager que dizia: “precisamos de encher o frigorífico!” Mas não ter medo de fazer coisas novas também acabou por dar-nos alguma longevidade, porque as pessoas percebem que o que fazemos vem do coração, com honestidade artística. O Irreligious permitiu-nos fugir a um estilo que até é um bocado hermético e isso levou a alguma crítica que dizia que éramos comerciais, mas acreditem que o passo que demos foi arriscado! De qualquer das formas havia uma corrente artística na altura, quer no meio do gótico-metal, quer em termos de outros estilos incorporados no metal, nos anos 1990, em que as pessoas procuravam um som novo. Hoje em dia, quando penso numa banda, penso numa cor ou num sabor, e quando as bandas variam muito no seu estilo, ou fazem-no de forma brilhante ou é difícil – torcemos um bocadinho o nariz como fãs. É importante sair da zona de conforto, mas é importante não distanciar os Moonspell daquilo que fizeram nos últimos discos. Não é que tenhamos medo de arriscar, mas porque sabemos que se tivermos outras necessidades, fá-lo-emos noutros projetos. Tem que ver com a idade: já nos assumimos.

Qual é a sensação de tocar canções mais antigas, com 20 anos? As canções ainda têm a pureza – ou a sujidade – da altura e é assim que as querem tocar?

O Irreligious é um disco que tem canções curtas, mas muitas delas emblemáticas, por isso tocamos com alguma frequência estas músicas, estamos habituados. Mas tocar como um todo é muito mais espetacular – é a sensação completa. Eu sinto sempre, como fã de outras bandas, que quando ouço uma música ao vivo, gosto de a ouvir como elas são. Em geral não gosto de muitos arranjos diferentes. Nós tocamos as músicas muito fiéis ao original, mudamos pouca coisa. Ainda assim, as canções têm uma textura mais moderna, porque o som é melhor, os equipamentos são diferentes. Mas nós também temos mais experiência – acho e espero que toquemos melhor do que há 20 anos! (ri-se) Tocamos com os nossos orgulhosos quarentas e poucos anos. Mas que queremos trazer um sentimento de nostalgia para um concerto deste género, isso sem dúvida.

Há alguma espécie de saudosismo da vossa parte?

Talvez, mas não somos pessoas presas ao passado. Assumimo-lo e gostamos dele. Até temos uma mentalidade moderna. Em Moonspell sempre lidámos muito bem com o passado. Não somos uma banda que tenhamos renegado algum do nosso passado – há bandas, mesmo dentro do metal, que não tocam determinadas músicas ou estilo porque deixaram completamente o gutural e agora só cantam. Compreendo, mas Moonspell nunca padeceu dessa limitação. Para nós é estupendo tocar músicas antigas.

 

“É importante sair da zona de conforto, mas é importante não distanciar os Moonspell daquilo que fizeram nos últimos discos. Não é que tenhamos medo de arriscar, mas porque sabemos que se tivermos outras necessidades, fá-lo-emos noutros projetos”

 

Sempre carregaram um grande sentimento patriótico. A bandeira portuguesa sempre vos acompanhou nas viagens. Ainda há esse espírito?

Acho que ainda mais forte. Sentimos a importância de devolver a Portugal aquilo que o País nos deu. Eu sempre achei que a portugalidade não se cinge à língua. Há músicos de que gosto e cuja música é completamente estrangeira, mesmo sendo cantada em português. Só por isso já ganha direito de ser mais música portuguesa do que a nossa? Nós que incorporamos fado em várias músicas – o nosso guitarrista está sempre a dizer que a principal influência dele para os solos é fado e Carlos Paredes em específico. A língua portuguesa só por si não basta.

E os Moonspell Já estão a pensar no regresso aos discos?

Já começámos a compor! Vamos ter este concerto em Guimarães, depois uma digressão e em fevereiro faremos um concerto com os mesmos trâmites que em Guimarães, mas no Campo Pequeno, em Lisboa, onde vamos gravar um DVD. Esse DVD só vai ser lançado por alturas do disco novo – estamos a pensar lançar no próximo ano. Começou por ser um EP, com a ideia de ser um item extra ao DVD, mas como a composição correu tão bem, pensámos logo em abrir a ideia um álbum. Assim sendo, já temos metade do álbum já gravado, e a outra metade estamos a compor, porque isto em Moonspell não para!

O que é que nos podes adiantar sobre esse novo disco?

Será um disco totalmente cantado em português – ou maioritariamente. O conceito vai girar à volta do terramoto de 1 de novembro de 1755.

Podemos apontar o lançamento do disco para o próprio 1 de novembro de 2017? Até é uma data próximo das festas de Halloween que costumam organizar!

São duas boas ideias que nos estás a dar!

Entrevista: Bruno Martins

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