Daniela

"Não é por ter casado com uma mulher que não posso ter os mesmos sonhos que um casal hetero"

A Daniela tem 25 anos e vive em Leiria com a mulher, Isabel. Estão juntas há cinco anos, casadas há dois, mas o sonho de serem mães juntas nasceu praticamente desde o início da relação. Determinadas, otimistas e confiantes de que um bebé nas suas vidas era a maior felicidade que poderiam ter, puseram o sonho em prática.

O facto de eu ser casada com outra mulher não quer dizer que não possamos ter os mesmo objetivos e os mesmos sonhos que um homem e uma mulher que são casados. Eu não pensava muito sobre isso, sobre a ideia de ficar grávida. Gostava muito de ser mãe, mas como sabia que não me ia sentir bem estando grávida, essa ideia passou a ser secundária. A Isabel pelo contrário queria passar por tudo o que envolvia estar grávida e ser mãe.

O união das duas e a vontade de serem mães acabaram por se cruzar no primeiro ano de relação de Daniela e Isabel. Foi a primeira que pediu a namorada em casamento, seis meses depois de começarem a estar juntas.

Não sou o melhor exemplo para dizer que as coisas devem ser ponderadas e com calma (…) Acho que as mulheres sabem exatamente o que querem (…) Quando eu pedi a Isabel em casamento eu sabia que não podíamos casar naquele momento porque casar é dispendioso. Só que o sonho de ser mãe ficou sempre ali…

Estávamos em 2015 e em Portugal ainda não era permitido a mulheres solteiras ou casadas e homossexuais recorrerem a Procriação Medicamente Assistida. Mesmo fora de Portugal, no entanto, o processo não era acessível a qualquer bolsa.

Daniela e Isabel resolveram então adiar a ideia do casamento e concentrarem esforços apenas na concretização do sonho de serem mães, juntas. Para isso, foram até Espanha (Vigo) onde fizeram duas tentativas de inseminação artificial, com Isabel a assumir-se como a mãe que daria à luz a criança.

Em Espanha fizemos duas tentativas – uma logo a seguir à outra – e as coisas não correram muito bem. Com milhares de euros gastos e muito stresse psicológico, decidimos que se calhar era melhor pararmos um bocadinho, até para juntarmos dinheiro e recuperarmos psicologicamente.

É nesta altura que levam então o casamento avante. Em setembro de 2017, passam a ser um casal reconhecido pelo Estado Português e, enquanto se moviam no balão de oxigénio que tinham delimitado para recuperarem as forças, foi alterada a lei em relação à Procriação Medicamente Assistida em Portugal.

A 20 de junho de 2016 foi aprovada a lei que garantia “o acesso de todos os casais e todas as mulheres à PMA, independentemente do seu estado civil, orientação sexual e diagnóstico de infertilidade”. A lei entraria em vigor no dia 29 de dezembro do mesmo ano. Para Daniela e Isabel, esta mudança foi essencial para repensarem os planos que tinham em relação ao bebé que desejavam tanto. E, no fundo, até agradeceram por não ter corrido bem em Espanha.

Se a Isabel tivesse engravidado lá, iria nascer numa altura em que cá não era reconhecido, iríamos ter muita dificuldade registar a criança em nome das duas.

Apesar de ser medicamente assistida, a inseminação artificial numa mulher continua a ter as mesmas probabilidade de singrar que uma relação sexual normal – cerca de 10%. Apesar de ter uma menor taxa de sucesso, o casal voltou a apostar neste processo, mas agora já em Coimbra.

Em Espanha, a inseminação artificial rondava os 1.000€, fora os tratamentos e as consultas (…) Mas na altura uma fertilização in vitro rondava os 5000€/6000€, o que ainda dava ali algumas tentativas… Tudo isto implica um acompanhamento a partir do momento em que a mulher está a menstruar até ao período em que se prevê que vai ovular, para fazer a inseminação do esperma de um dador – que na altura seria anónimo…

A terceira tentativa também não teve um final feliz, pelo que a clínica que as acompanhava sugeriu que experimentassem a fertilização in vitro, que tinha maiores chances de ser bem sucedida.

A diferença entre os dois processos prende-se com o momento da fertilização do óvulo. Enquanto na inseminação artificial o esperma do dador é introduzido no corpo da mulher por meio de uma injeção, dada num dia e hora estudados pelos médicos como os mais adequados, na fertilização in vitro a fertilização acontece em laboratório, com o óvulo a ser fecundado com sucesso ainda antes de ser introduzido no corpo da mulher. A mulher é assim inseminada já com um embrião.

Passou a ser legal em Portugal o tratamento do Método de ROPA (acrónimo para Reception of Oocytes from Partner), conhecido também como Maternidade Partilhada ou Fertilização Recíproca. Que consiste em retirar o meu óvulo, fecundarem em laboratório com o esperma de um dador, mas depois em vez de colocarem em mim, colocam no útero da Isabel.

Já casadas, decidem aceitar a proposta da clínica de Coimbra e apostam na fertilização in vitro recorrendo à Maternidade Partilhada. Para Daniela, que nunca tinha desejado nada do que implica estar grávida, a ideia pareceu interessante e desafiante ao mesmo tempo.

Ali implicou eu fazer uma preparação e levar 13 injeções na barriga, uma por dia [para estimular os ovários]. Fizemos a transferência no dia 13 de junho de 2018 e congelámos 13 embriões. Eu pensar que tinha de passar por aquilo tudo… era um bocadinho complicado. E depois tínhamos de gerir o facto de eu passar por isto e ao mesmo tempo preparar o útero da Isabel para receber a transferência do embrião. Tínhamos de decidir se queríamos fazer isto em simultâneo ou congelar os óvulos…. Mais explicar às pessoas tudo isto.

Explicar sobretudo à família da Daniela o que o tratamento implicava foi um momento emotivo. Para além da pressão social, as hormonas destas duas mulheres estavam num período diferente do habitual. Era preciso paciência e ponderação.
Se na família podia ser um período sensível, Daniela e Isabel encontraram então nas redes sociais muito apoio de desconhecidos e casais na mesma situação. Em contrapartida, tiveram igualmente de lidar com comentários desagradáveis, pérolas deixadas no blogue que gerem em conjunto.

Felizmente são mais as pessoas que gostam de nós do que as que não gostam assim tanto. Mas as pessoas dizem muito “ok, podem casar, é legal e casem, mas não façam isso às crianças, não as puxem para as vossas escolhas”… Para eles, a família feliz é um homem e uma mulher e os filhos só devem resultar disso porque depois a criança vai para a escola e não vai ter pai e vai sentir falta de um pai… Mas a criança não vai sentir falta de uma coisa que nunca teve!

Daniela e Isabel tornaram-se uma das bandeiras da Maternidade Partilhada, muito porque expuseram grande parte do processo (e da sua vida) ao domínio público. Para Daniela, a partilha é importante.

É importante as pessoas terem consciência daquilo que existia e do que implica tanto a nível legal, como a nível emocional e pessoal. Eu falo também muito da nossa relação com as famílias – porque são duas perspectivas muito diferentes. O importante que é ter o apoio familiar, porque se não tivermos uma base familiar de algum dos lados, se calhar não aguentávamos tudo o que aguentámos até agora…

 

Depois desta entrevista, a Daniela e Isabel partilharam connosco uma boa novidade. Ao fim de três inseminações que resultaram em negativo e uma fertilização in vitro que culminou num aborto ao fim de sete semanas, a quinta tentativa recorrendo à Fertilização Recíproca deu origem a uma gravidez.

A bebé de Daniela e Isabel nasce já em setembro de 2019. A provar que o amor vence sempre.

 

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