Selma Uamusse

Até há pouco tempo, a voz de Selma Uamusse era uma voz do gospel, da música soul, do jazz e até do rock’n’roll. Era essa a música que lhe ouvíamos, mas também a música que a cantora se achava com legitimidade para cantar. Por muito que os sons do seu país natal, Moçambique, lhe estivessem à flor da pele, a sua formação musical em Portugal parecia empurrá-la noutra direcção.

O primeiro álbum a solo de Selma Uamusse é, por isso, um mergulho no desconhecido. É o documento de uma mulher em busca assumida da sua africanidade e da sua moçambicanidade, sem certezas quanto ao(s) caminho(s) a tomar, mas certa de que não há glória artística possível na mera exploração daquilo que já se conhece e se recita de cor. Para isso, Selma precisou de viajar até Moçambique, reconhecer-se na música do sítio onde nasceu, perceber como o corpo lhe estremece ao escutar a música tradicional daquele imenso país e concluir como, na impossibilidade honesta de poder assumir essa tradição como sua, inventar uma outra, uma forma pessoal de se relacionar com essas raízes. É por isso que Selma Uamusse soa a uma explosão de géneros – pertence a muitos sítios e a sítio nenhum.

Só que essa relação com Moçambique, por mais incompleta ou imperfeita que fosse, fazia já parte da sua verdade. Assumiu então as letras em changana e em chope, integrou na sua música instrumentos tradicionais como a timbila e a mbira, e construiu uma música que agora descobrimos e que é tudo menos uma replicação de sons típicos de Moçambique.

Se há um encontro musical de Selma com Moçambique no seu primeiro disco, há igualmente um encontro espiritual com o continente africano. Este é também um disco de procura de harmonia com o mundo em volta – e isso tanto quer dizer aceitar e procurar um lado positivo naquilo que há de menos belo nos nossos dias, quanto implica assumir um discurso de intervenção e de luta pela transformação numa sociedade menos distorcida.

O primeiro disco de Selma Uamusse, produzido pelas mãos preciosas de Jori Collignon (dos Skip & Die), ouve-se como duas viagens simultâneas – uma geográfica, uma visita a Moçambique, onde a cantora se abastece de sons e partilha a sua identidade; e uma interior, num mapa espiritual que se vai descobrindo à medida que a música se infiltra em quem ouve.

Em cada segundo, este aguardado disco de estreia de Selma produz um efeito hipnótico, entalando-nos entre passado e futuro, pertencendo ao ancestral e ao desbravador, criando uma música que não tem nome possível. Ou talvez tenha. Talvez se chame simplesmente Selma Uamusse.

Selma Uamusse sobe ao palco do Festival RTP Andamento no dia 15 de setembro às 16h30.