Emitido

2017/03/25

Episódio nº 4

 

Convidados

António José Teixeira;

José Rodrigues dos Santos;

Márcia Rodrigues;

Sofia Branco (presidente do Sindicato dos Jornalistas)

 

Texto do Provedor

Recebi várias mensagens criticando o modo como a RTP noticiava acontecimentos relativos à presidência Trump. Segundo aqueles telespetadores, a informação da RTP não investigava os factos referidos pelo Presidente americano, ou pela sua administração, com a isenção, a independência e o rigor obrigatórios no jornalismo.

Em defesa da sua crítica enviaram-me endereços nas redes sociais e no youtube onde, de acordo com os queixosos, me poderia certificar da veracidade das palavras dos novos responsáveis da Casa Branca.

Entre versões contraditórias e antagónicas dos mesmos factos como perceber o que realmente se passou? Estamos em pleno coração da pós-verdade e dos factos alternativos e vale a pena tentar conhecer melhor o terreno que pisamos.

(…)

O número de pessoas indignadas com o modo como Donald Trump usa o Twitter é crescente. Vários jornalistas acham que tal uso é indigno de um Presidente. Têm razão. Mas não há modos de usar as redes sociais que são, também elas, impróprias de quem é jornalista?

O jornalismo é hoje muito menos credível do que já foi. Por muitas e variadas razões. Mas não restam dúvidas que a vertigem exibicionista de alguns jornalistas nas redes sociais contribuiu e contribui para desacreditar a profissão no seu todo. As redes sociais não são meios para falar com os amigos. Defendo que em tudo o que publica nas redes sociais o jornalista deveria sentir-se obrigado a respeitar os critérios que orientam a sua profissão e a honrar a deontologia a que está obrigado. Esta não é uma opinião consensual, mas merece ser tida em conta e debatida.

(…)

As grandes e pequenas centrais de desinformação não são a principal causa da crise do jornalismo atual. O que mais mina a sua credibilidade é o ambiente criado por um número incontável de pseudoverdades recontadas milhares de vezes nas redes sociais. A tal repetição da mentira que a torna em verdade dá hoje pelo nome de frequência. A frequência com que surge nas redes sociais tende a transformar qualquer relato num facto indiscutível. Por outro lado, acusar os media tradicionais de enviesamento voluntário e de desrespeito pela verdade, sem desmentir comprovadamente quaisquer situações e notícias concretas veiculadas por esses media tem apenas um objetivo: desacreditá-los. Desacreditá-los para que deixem de ser referências decisivas na relação entre a comunidade e a realidade, entre as pessoas e os acontecimentos. Sem essas referências torna-se mais fácil que a minha história, tal como eu a conto, seja aceite como a verdadeira e a única história, sem que alguém de reconhecida autoridade possa vir dizer: “não é assim!”

(…)

Para que o jornalismo não morra é preciso que os cidadãos o vejam como indispensável para entenderem o mundo em que vivem. Há muito quem pense não precisar desses intermediários para saber o que se passa. Basta-lhes navegarem por sua conta e risco em sítios em que só encontram histórias e relatos concordantes com aquilo que pensam e sentem sobre a realidade. Aos jornalistas e aos media tradicionais compete mostrar que, ao contrário daquilo de que os acusam, são indispensáveis, rigorosos e credíveis. Sobretudo quando se apresentam como mais uma voz na enorme praça pública que é a internet.

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