JÚLIA TORRES (43 anos) – Fátima Belo

Recepcionista de um consultório de oftalmologia, sobre ela recai a responsabilidade de sustentar uma família que, até agora, era, em grande parte, sustentada por Carlos, o seu segundo marido, padrasto de Cristina.
Viúva do primeiro casamento, tinha uma relação conflituosa com a filha. Quando ela parte, deixa a mãe com duas cruzes sobre as costas: tomar conta de uma família que se está a desmoronar, ao mesmo tempo que lida com o sentimento de culpa pela partida da filha: as circunstâncias económicas do país não lhe chegam para justificar a ida de Cristina para Londres, é como se a própria Júlia tivesse falhado como mãe. Numa primeira fase, a relação entre as duas melhora, torna-se mais próxima, apesar da distância; ou, exactamente, por causa disso. No entanto, cedo voltam os velhos hábitos, e a crispação entre as duas.
Ironicamente, apesar de trabalhar num consultório de oftalmologia, Júlia não consegue acertar na graduação das suas lentes para combater a miopia. A dificuldade em ver ao longe está intrinsecamente ligada com a maneira como, ao longo da série, se relaciona com a noção de distância.
Júlia assume que a felicidade da sua família é da sua responsabilidade. Quando tudo se desagrega à sua volta, e constata que, tanto quanto lhe parece, ninguém dá valor aos seus esforços, questiona a própria vida. “Se calhar os outros é que estão bem”. Começa, nos seus quarenta e poucos, a viver mais para si própria, experimentando coisas que lhe passaram ao lado quando tinha vinte e poucos, lidando com os excessos inerentes, criando uma cada vez maior distância entre a pessoa que sentia dever ser e aquela que talvez realmente seja.