Oub'lá

Valter Hugo Mãe

@Porto Editora

“Um escritor de cabeça emigrada, embora continue a viver nas Caxinas”

 

Valter Hugo Mãe fala-nos com o mesmo tom com que nos escreve. Como se nos pegasse pela mão e nos passeasse pelas suas ideias com as suas palavras, de forma poética, coloquial. Sentimo-nos meio encantados com a narrativa do seu pensamento que se desenrola neste frente-a-frente, numa simples mesa de uma sala de reuniões de estores baixos a evitar que o quente sol de outono ao fim da manhã nos provoque um calor em demasia. O escritor acaba de editar um novo livro: Homens Imprudentemente Poéticos é a sua sétima obra que volta a levá-lo de Vila do Conde até ao profundo interior do ser humano, desta feita no veículo da inimizade entre o artesão Itaro e do seu vizinho oleiro, Saburo, no Japão rural de há 200 anos.

Valter Hugo Mãe está também a celebrar 20 anos de carreira – depois da Casa da Música, no Porto, amanhã é a vez de o Teatro São Luiz acolher um evento de homenagem ao autor. As palavras têm sido fiéis companheiras e até veículos de redenção, tanto nos livros, como nas crónicas, nos ensaios, mas também na música. Além de canções escritas para os Mundo Cão, em 2009 começou a interpretar as suas letras nos Governo, banda que tem com António Rafael e Miguel Pedro Guimarães e que poderá ter disco novo no próximo ano.

Já no teu último livro, A desumanização, escreveste sobre uma ilha – a Islândia. Ganhaste algum fascínio sobre ilhéus?

Adoro as ideias das ilhas. Talvez tenha uma pulsão meia encantada para com o espaço confinado, solitário. Tenho sempre adiado a intenção de escrever sobre os Açores – que são as nossas ilhas incríveis – ou a Madeira, para onde tenho viajado muito e onde fico a encontrar histórias. Tenho a impressão, e se calhar é só uma convicção fantasista minha, de que o ilhéu, o habitante da ilha, é um cidadão extremado, intensificado, iminentemente interiorizado porque o espaço geográfico confinado não o liberta. A única possibilidade de libertação é a íntima, num trabalho de ensimesmamento. E isso provoca-me.

Já o tinhas percebido ainda antes de A desumanização?

É uma convicção minha antiga. Aqui há uns anos publiquei uma crónica sobre a impressão que tenho das ilhas, que parecem umas saias de pedra que ficam pousadas no meio do mar. Fico sempre à espera que umas mulheres gigantes rodem aquela saia, levantem-se e partam pelas águas. É muito fácil personificar uma ilha e ter com ela quase uma relação de alteridade humana, como se estivéssemos a lidar com alguém mais do que com um lugar. E toda essa mundividência sugere-me uma poética irresistível.

Então, depois da Islândia, o Japão.

Além de ter sentido a necessidade de deslocar o meu pensamento literário para fora das referências portuguesas, entendi que, por haver uma grande vontade de escrever sobre o Japão, seria perfeito prosseguir da Islândia para o Japão. São muito distintas inclusive até nos sentimentos que geram nos habitantes. O Japão produz um ilhéu que se fecha, enquanto a Islândia tem habitantes mais convencionais – que aspiram a uma certa fuga. O Japão conduz, tradicionalmente, conduz a uma certa disciplina de clausura.

Como é que percebeste isso? Com o apalpar do terreno? Com investigação literária?

Com um pouco de tudo isso. É muito importante chamar a atenção para o facto de que, quer a Islândia de A desumanização quer o Japão de Homens Imprudentemente Poéticos, são espaços meus. É a Islândia e o Japão que eu pude conceber. Resultam de um somatório de chegadas que têm que ver com os desenhos animados que vi em menino, do [Hayao] Miyazaki, até aos livros do [Yukio] Mishima, do [Makoto] Kawabata; ou a pintura da Tomie Ohtake – que eu adoro. Os filmes do Yasujirô Ozu e do Akira Kurosawa. A infinidade da música… o Susumu Yokota, por exemplo, o Shigeru Umebayashi. Todas essas coisas, de repente que se juntam.

 

“Muitas vezes preferirmos um texto às pessoas. De repente, em detrimento de estar com a família, com os amores, com alguém, somos capazes de estar obstinados com a porcaria de um verso, utopicamente esperando que seja uma lâmpada acesa”

 

O artesão Itaro ou o oleiro Saburo são personagens que encontra nas tuas viagens ou habitam só a tua imaginação?

Sim, elas são imaginárias. Mas muitas vezes tenho a tentação de escrever diretamente para alguém. Da última vez que estive no Japão assisti a um bailado Butoh, da saga Kobayashi – criado na década de 1950, inspirado em movimentos artísticos de vanguarda e puramente sujo, anti-turístico e até anti-nipónico. E provocou-me um impasse tremendo, porque senti que não podia escrever um romance sobre o Japão sem ter bailarinos Butoh. Só que estes bailarinos não existiam há 200 anos e o meu romance entra nessa moldura temporal. Deixava de ser o meu romance, mas criou-me a dúvida: será que deito fora o raio do artesão? Mas eu já estava rendido ao pobre Itaro, a colher canas de bambu. Pensei que essa pulsão aumentadora, que iria fazer-me escrever não um livro, mas uma biblioteca sobre o Japão, precisa de ser disciplinada para que a oficina do livro mantenha a sua coerência e lógica. Para que seja um processo de correspondência e fidelidade.

O processo de escrita pode ser angustiante e doloroso? Tentas escapar a eles?

Eu diria que padeço cada vez mais de uma insatisfação em que as diferentes versões do livro se vão anulando. Porque procuro encontrar uma pulsão espontânea que atravesse o livro e faça parecer que foi escrito de uma só vez de manhã à noite num só dia. Que seja quase uma história contada de viva voz por mim, como se pudesse estar perto do leitor, compondo-lhe a narrativa de uma forma coloquial e natural. O que acontece é que o alcance dessa versão que mais me agrada é cada vez mais protelado no tempo e por isso vou construindo versões que vou deitando fora e por isso escrevo o livro uma, duas, três, quatro, cinco… este livro publicado será a sua 17ª ou 18ª versão.

@Porto Editora

Convives bem com esse processo?

Não convivo nada! É horrendo! Adoraria que todos os meus livros fossem a primeira versão.

Como é que tens certeza de que esta 17ª versão é que é a correta?

Há uma altura em que o livro tem uma inteligência própria. No recomeço, quase à primeira linha, a maturação é de tal maneira que parece que me oferece a resposta. Sei que se não terminar o livro, vou chegar muito perto do fim. Progressivamente, versão depois de versão, o livro despe-se como se fosse alguma coisa oculta que se revela.

 

“Procuro encontrar uma pulsão espontânea que atravesse o livro e faça parecer que foi escrito de uma só vez de manhã à noite num só dia. Que seja quase uma história contada de viva voz por mim”

 

O que é que é a imprudência poética?

A poesia é, toda ela, uma imprudência. Não está salva de perigosidade. O poeta decente, se verdadeiramente o for, é sempre algum indivíduo em risco e eu queria muito aludir a esta perigosidade, enfeitando o título que parece produzir uma espécie de beleza imediata, mas ao mesmo tempo, aludindo a esse lado de homens propensos ao abismo.

Como é que sentes, em ti próprio, a manifestação dessa perigosidade da poesia?

Em tudo. Muitas vezes em levianamente preferirmos um texto às pessoas. De repente, em detrimento do encontro com o outro, de estar com a família, com os amores, com alguém, somos capazes de estar obstinados com a porcaria de um verso, utopicamente esperando que o verso seja uma lâmpada acesa.

Como as paixões?

Tal como as paixões, é uma coisa que tende para uma obsessão. Embora seja um gesto comunicacional de aproximação, muitas vezes o que faz é excluir-nos. Oferecer-nos a solidão.

 

“Na música sinto muito mais a minha limitação. Tenho gravemente a consciência de que me movo por uma intuição. Se nos ensaios acontece alguma borrada, acho sempre que a culpa é minha”

 

É por sentires esse fio da navalha, a perigosidade da poesia que pode levar ao isolamento, que sentiste a necessidade de deixar de escrever sobre Portugal?

Exatamente, essa é uma das dimensões da perigosidade ou da imprudência: abandonar as referências que são presumíveis, aquilo que exercitamos já sem esforço. A dada altura, mesmo sendo português – ou europeu, eventualmente – torna-se numa dinâmica quase impercetível. Posso propor-me a ser um escritor de cabeça emigrada, embora continue a viver nas Caxinas. É perigar-me, oferecer-me à aventura de me sentir inaugural. Não é o meu primeiro livro, por isso não vou voltar à virgindade rompida daquela forma espantosa e embasbacante, mas há uma indução inaugural que me apazigua um pouco através dessa necessidade de sentir que ainda posso descobrir algo em mim.

Celebras este ano os teus 20 anos de carreira, não só de livros, mas também de crónicas, ensaios e também música – para os Mundo Cão, por exemplo, mas também com a tua banda, os Governo, onde escreves, cantas e interpretas com o António Rafael e Miguel Pedro Guimarães. O que é feito de vós?

Temos ensaiado. Fomos também buscar o Fred – do projeto At Freddy’s House – e agora temos dois teclistas. O que acontece é que eu enrouqueci demasiado, tenho uma pequena lesão nas cordas vocais e perdi os agudos esplendorosos que tinha [ri-se] e tenho uma voz mais entorpecida e estranha. Demos uma espécie de roupagem nova para tirar aqueles píncaros vocais e criar uma plataforma um pouco mais grave. Temos muitos temas e canções inéditas, algumas de que, francamente, eu até gosto mais do que aquelas que ficaram mais conhecidas. A ideia seria, no próximo ano, voltar a atacar as pessoas com o meu ruído (risos).

Na música também gostas de caminhar sobre a perigosidade da poesia?

Na música não tenho segurança para poder passar mais perto de quem eu gostaria de ser. Na escrita talvez consiga chegar a quem eu quero ser, independentemente de as pessoas gostarem ou não. Na música não: faço algo de que gosto muito, mas que sinto muito mais a minha limitação. Tenho gravemente a consciência de que me movo por uma intuição e, às vezes, quando dá certo nem sei bem o que é que deu certo. Se nos ensaios acontece alguma borrada e a malta pára porque não se entende, eu acho sempre que a culpa é minha.

Na escrita sabes aquilo que és e aquilo que ainda queres vir a ser?

Sim, sim! É talvez uma leitura de mim mesmo, uma leitura do autor que sou. Não seria, nem compreendo muito bem – apesar de aceitar – os autores que não se observam. Tenho uma imagem de mim mesmo enquanto autor, enquanto pessoa escrita. Todos os meus livros são uma pessoa escrita. Creio que estou muito perto, junto, daquilo que eu sonhei ser.

Entrevista: Bruno Martins