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Popoff 25 anos depois: As memórias de Gimba

O músico Gimba foi um dos elementos da equipa do Popoff. Aproveitando o 25.º aniversário da estreia do programa, são desafiadas memórias num texto que ajuda a contextualizar o regresso aos ecrãs da RTP Memória. José Pinheiro, um dos realizadores do Popoff, vasculhou todo o baú do magazine musical e reuniu, num vídeo, algumas das melhores memórias da música portuguesa dos anos 90.

 

O Popoff foi um marco. Estreado em setembro de 1990, foi o acontecimento mais importante do nosso meio musical desde a aparição do chamado rock português. Uma bomba! O facto de ter coincidido com a mudança de década (80’s/90’s) também contribuiu para o novo paradigma. De repente, a televisão portuguesa passava a ter um espaço semanal sobre música – tudo sobre música – com a adoçante novidade de apresentar videoclips de produção doméstica, feitos com as “novas tecnologias” da altura. Até aí, os programas sobre música eram rubricas desgarradas e avulsas, a preto e branco – de importantíssimo teor documental, não duvido – mas sem a chama e o impacto, e sobretudo sem a regularidade e a modernidade que este novo formato arriscou.

Os primeiros passos foram tímidos, ainda longe do vigor e da irreverência que colou gerações ao ecrã semana após semana. A “crítica especializada” (constituida por umas pessoas que arrotavam postas de pescada do alto dos seus pedestais, mas que devem ter casado, fundado família e comprado casa no Feijó, pois desapareceram do mapa) arrasou as primeiras emissões, chamando-lhes “pseudo modernas”, “pretenciosas” e “dispensáveis”. Passados uns meses (ainda antes da compra das casas no Feijó), os mesmos figurões não poupavam elogios ao programa, engolindo todas as postas de pescada, e substituindo-as por um menu completamente diferente de louvoures, que falavam em “revolução”, “mudança” e “qualidade”. O Pop Off afirmava-se!

Nunca percebi bem porque me chamaram para apresentar o programa. Não era, não sou, nem nunca serei foto ou telegénico; não tinha a menor experiência como pivot ou condutor de entrevistas; não era conhecido nem preferido pelos donos da Latina Europa (a produtora do programa), ao contrário da Sofia Morais, que era uma paixão secreta do patrão Paulo Miguel Forte. Além disso, a Sofia era bonita que se fartava, e era uma profissional de rádio com créditos firmados. Mas enfim, devem ter achado que eu tinha à vontade e boa disposição suficientes, para o formato pretendido, e tinha a vantagem de conhecer meio mundo nos meandros musicais, desde o roadie mais carocho até aos patrões das editoras, passando por toda a tribo de técnicos de som e luz e, sobretudo, os músicos, a matéria prima, que na verdade conhecia todos. Não tendo feito caretas à tuta e meia que me propunham como cachet, fiquei contratado desde o primeiro momento!

O núcleo base do Pop Off era formado por apenas cinco pessoas (!), a saber: José Pinheiro e Bruno Niel, “realizadores”; Rui Monteiro (diretor do jornal Blitz), “editor de conteúdos”, e Sofia Morais + Gimba, “apresentadores”. O famigerado Paulo Miguel Forte – que no genérico era mencionado como responsável por “desenho de programa” (ainda se falava português nos anos 90…) aparecia de vez em quando para justificar o epíteto. As atividades dos cinco magníficos aparecem aqui entre comas, pois toda a gente fazia de tudo, desde enrolar cabos, montar tripés de iluminação, etiquetar cassettes, cargas e descargas de equipamento, guiar a carrinha, comprar cigarros para quem estivessse ocupado, etc; era um circo daqueles em que o vendedor de bilhetes aparece mais tarde como malabarista e atirador de punhais… De vez em quando, e apenas em estúdio, surgia a Cristina Bizarro, maquilhadora e cabeleireira, para abonecar devidamente a Sofia Morais…

Mas, tirando, as ideias de Rui Monteiro e as carinhas larocas do Gimba e da Sofia, o núcleo duro do programa, o “pau para toda a obra” era a dupla Zé Pinheiro/Bruno. Estes dois tinham que captar imagens, editá-las num sistema tão pré histórico e obsoleto que não há descrição possível (mas que na altura era o “último grito!”) e, semanalmente, fazer um videoclipe, que era uma tarefa hercúlea que os obrigava a uma “direta” religiosa e inevitável todas as noites de quarta para quinta feira, em longuíssimas sessões de edição de imagem. Sim: durante um ano inteiro, estes dois apenas dormiam 313 noites! A somar a isto, havia que carregar as pesadíssimas caixas das câmaras, guiar kilómetros infindáveis até ao local dos concertos, montar o circo, física e tecnicamemte, fazer o trabalho, e regressar a Lisboa sem mordomias de descanso em hotéis ou pensões. Destino: a sala de edição, a que eu chamava carinhosamente o “cinzeiro”, por ser cinzenta (que era a cor da moda), e por toda a gente fumar como se não houvesse amanhã! Resta acrescentar que este minúsculo núcleo duro ainda se subdividia em mini equipas de apenas duas pessoas: eu e o Bruno íamos fazer o Festival do Crato, para um concerto dos Sitiados, o Zé Pinheiro e a Sofia iam a Sintra cobrir uma aparição dos Delfins. Em dias diferentes, pois só havia uma carrinha…

Os noticiários eram normalmente apresentados pela Sofia Morais, que era mais bonita e tinha mais tarimba (e, vá lá, mais juízo), mas eu lá tive que me sentar à vez na cadeira do pivot. Como não era de todo um profissional, algumas vezes tentámos aligeirar a coisa com recurso a artifícios: uma vez fui caracterizado – magistralmente, diga-se – de Robert Smith (cantor dos The Cure). Devo ser (ou devia ser) igualzinho ao tipo, pois o boneco ficou papel químico do original (alguém sabe hoje o que é papel químico…?), com o cabelo no ar, cheio de laca, e o baton desbotado. O Smith era feio e disfarçava-o. Eu era feio e assumia-o!

Numa outra ocasião fizémos uma coisa nova (que hoje em dia Herman José ou os Gato Fedorento fazem amiúde) que é ter a mesma pessoa a contracenar consigo própria com os diálogos em sintonia. Fui de novo magistralmente caracterizado de Fernando Pessoa e de Luís de Camões pela Cristina Bizarro, e fez-se a rubrica “Luís e Fernando Juntos e Ao Vivo”. Para dizer a verdade, não me lembro de ter feito nenhum outro noticiário a solo. Mas que os fiz, fiz… E também os fiz a meias com a Sofia, a dar uma de CNN…

O conceito de novidade à volta do programa passava muito pela própria modernidade da Latina Europa, a produtora que, graças à visão dos seus dois mentores – Paulo Miguel Forte e António Saraiva – conseguiu colocar simultaneamente três programas na RTP: o “moderníssimo” Pop Off, mas também o formato infantil “Ìcaro”, e o “Lentes de Contacto”, um conteúdo para uma camada mais adolescente. O facto é que a sede da “Latina” – projetada por Marco Sousa Santos (um dos gurus do design português) – fervilhava diariamente com estas três equipas em ebulição permanente. Era uma instalação em tons de cinzento, com toques de madeira e metal (que seriam a imagem de marca dos anos 90), tudo ultra moderno, ultra design, ultra novo! Todas as equipas se ajudavam umas às outras, e era perfeitamente normal o câmara do “Lentes” dar uma perninha num video, ou o realizador do “Ícaro” assinar também um ou outro clip. O resultado foi que, deste caldeirão criativo sairam nomes sonantes como Alexandra Lencastre, Luís Osório, Diamantino Ferreira ou Manuel Amaro da Costa.

Com o rolar da carruagem, o Pop Off entrou em modo de cruzeiro: Semana após semana, com a máquina bem oleada, a produção dava à luz video clips regulares, à mistura com as últimas notícias do momento e as entrevistas mais oportunas. E o programa estabilizou no formato que o fez famoso. Mas não se pense que não teve os seus momentos caricatos: Era normal todas as semanas haver um clip novo, e, como a produção era já muita, punha-se no ar um clip repetido. Mas a dada semana chegou-se à conclusão que os clips repetidos estavam eles próprios a repetir-se, e foi decidido criar um projeto chamado “Peixe Maneta” – um clip feito com umas imagens avulsas de um aquário (e o respetivo peixe), com uma banda sonora de um núcleo “pseudo eletrónico intelectual” produzida à pressa no estúdio de som!

Outro momento que teve tanto de caricato como de embaraçoso foi uma entrevista de Sofia Morais ao ido João Ribas que, para variar, apareceu com uns copos a mais. Não sei se a entrevista chegou a ser publicada, pois o músico não parava de se queixar “que lhe cheirava a fluidos vaginais”, para embaraço da Sofia, e desespero e fúria da sua agente, a famosa Lola. Aliás, episódios de copos a mais estiversam na origem do cancelamento de várias outras entrevistas. Certa vez, João Peste chegou para uma entrevista “em ácido” (tinha ingerido LSD), e também não se conseguiu aproveitar o material, tendo-se repetido a mesma na noite seguinte, com o músico porventura mais sóbrio. Nessa série de entrevistas, chamadas “Contra a Parede”, o cantor Miguel Ângelo também não se sentiu muito à vontade perante o arsenal bélico que se preparou para o intimidar mas que, claro, não passava de mera brincadeira…

A dada altura o verniz estalou: por causa de umas imagens que a RTP decidiu não exibir, Rui Monteiro considerou que tinha havido censura, e demitiu-se. O caso ainda fez correr alguma tinta no jornal BLITZ, onde ambos escreviamos, mas nada de realmente bombástico aconteceu. Para o substituir contratou-se o Henrique Amaro, um “jovem roqueiro” que militava nas fileiras da TSF, e que teve uma entrada de peso. Não se pode dizer que o Pop Off estivesse estagnado, mas o facto é que o Henrique trouxe novas ideias e novos ares ao programa, que deu um passo em frente e ganhou um novo fôlego. Não me lembro ao certo qual a cronologia, mas entrou depois para a equipa o jornalista Jorge Pereirinha Pires e o programa, mantendo a sua traça original, ganhou ainda mais dinâmica.

A grande riqueza e a grande mudança que o Pop Off operou foi a produção de videoclips para bandas sem acesso a essa tecnologia. Aliás, o Pop Off só não fez clips para artistas estabelecidos nas grandes editoras, como os Xutos e Pontapés, os GNR, etc. De resto, tudo o que era banda, tudo o que mexia, teve o seu vídeo no Pop Off. Nalguns casos – e estou a lembrar-me dos Zirkus Maximus ou General D, por exemplo, o próprio material áudio que os músicos possuiam era tão rudimentar que as canções tinham de ser regravadas no estúdio de som da Latina Europa para o som do video ser minimamente “profissional”.

Não tenho memória para tudo – já são vinte cinco anos – mas ficaram clips para a história: “Sol da Caparica”, dos Peste & Sida; “És Cruel”, Ena Pá 2000; “A Minha Sogra é um Boi”, Mata Ratos; “John Wayne”, Repórter Estrábico; “Eram Já Três”, Essa Entente; “Estrela do Mar”, Jorge Palma; “Querelle”, Pop Dell’Arte… enfim: uma longa lista e um excelente registo do que foi a música moderna portuguesa na entrada dos anos 90.

Uma coisa curiosa é que este periodo histórico apanha Lisboa sem uma sala de espetáculos para rock: O Rock Rendez Vous acabara de fechar (abril de 90); o Ritz Club era uma mistura de cabaret com música africana, e não havia mais nenhum espaço com programação regular de rock. Entretanto, mas só um pouco mais tarde, abriu o Johnny Guitar, que ficou o epicentro de toda a cena musical lisboeta. Mas sejamos realistas: apesar de tudo que que depois se lá passou, um espaço com 60m2 não é um bom cartão de visita como melhor sala de rock de uma capital europeia… O certo é que a partir daí não houve edição do Pop Off que não mencionasse a (mítica) sala de Santos: Johnny Guitar para cá, Johnny Guitar para lá… Uma vez fomos entrevistar a vizinha de cima sobre «todo aquele barulho» – já depois de umas valentes obras de insonorização – mas desta vez fui eu que, traído por uma certa aguardente e pelo adiantado da hora, não consegui levar a entrevista avante, tendo sido substituido pelo Zé Pinheiro… Ou terá sido pelo Bruno?…

Mas guardo memórias engraçadas: uma vez, no Porto, o pessoal do Pop Off estava em palco a cobrir um concerto dos Radio Macau, e eu fiquei nos bastidores. Também por lá andava uma equipa da RTP a cobrir o concerto para o “Luz na Sombra”, uma série de programas da autoria de Sérgio Godinho, (programas focados nas atividades “invisíveis” de palco, como técnicos de som, luz, ou roadies – no caso, Rui Fingers, guitarrista e roadie dos Rádio Macau). Decidimos entrevistar Sérgio Godinho, só que o cantor – que já tinha feito a sua rubrica – estava já um pouco alegre à conta de certo vinho do Porto, e o nosso projeto foi abortado. Mas como a minha equipa estava no palco a filmar os Radio Macau, e a dele também lá andava, às voltas com Rui Fingers, ficámos os dois à conversa no camarim. Dado o seu “Brilhozinho nos Olhos”, SG contou-me literalmente toda a sua vida “Desde Pequenino se Torce o Pepino”, até ao “Hair” em Paris, passando por trips e gravações no Canadá, etc…

Noutra situação, eu ia entrevistar o respeitável Rui Reininho num sofá instalado entre as duas faixas da Av. da Liberdade (eramos realmente muito à frente!). A dada altura ele terá confessado que não tinha ali dinheiro para um corte de cabelo e eu, espontaneamente, ofereci-lhe 500 escudos para ele ir ao barbeiro. Escusado será dizer que levei um valente raspanete do responsável da Valentim de Carvalho, pois aquilo não era maneira de se tratar um dos mais icónicos cantores portugueses, e “não há respeito”, e “tens a mania”, etc…

Aquando da feitura do clip “És Cruel”, dos Ena Pá 2000, o inoxidável Manuel João Vieira sugeriu que se alcatifasse o estúdio com estrume ou com lixo, ideia recusada por razões óbvias. Mesmo assim, à falta de melhor, cobriu-se toda a zona com umas valentes sacadas de hortaliça, para surtir um efeito semelhante. Resultado: o estúdio ficou quase um mês a cheirar a Mercado da Ribeira – fedia a coentros – e o chroma (fundo colorido sobre o qual se aplicam imagens, como nos modernos telejornais) que era azul, foi repintado, desta vez de verde…

De novo no Porto, para uma estadia de “três dias, três bandas”: começámos a todo o gás com os Repórter Estrábico, um primeiro dia em cheio, tendo filmado dois clips: “Tubarão” e “John Wayne”. Como bons profissionais, passámos a noite a degustar whiskies no Swing ou no Indústria (ou nos dois!). Na manhã seguinte, altura de fazer um clip dos Terramar, “Não Me Sigas Na Calçada”, não havia Guronsan que nos valesse! Estavamos positivamente desfeitos, mas lá fomos para a Ribeira, filmar, e conseguimos bom material. Como excelentes profissionais, repito, voltamos nessa noite ao Swing ou ao Indústria (ou aos dois!) para ver se os whiskies ainda sabiam à mesma coisa, e ainda demos um salto a esse perigisossimo antro chamado Big Ben – no estado em que vocês estão, não vos levo ao Big Ben – terá dito um taxista, ao que ripostámos que ele é que ficaria em mau estado se lá não nos levasse. E lá fomos! Resultado: no terceiro dia foi a banda (Os Entes Queridos) que positivamente nos foi arrancar à cama, já perto da hora do almoço para – penosamente – gravarmos o vídeo, num cemitério onde deveríamos ter jazido pelo menos uma semana…

São obviamente mais que muitas as memórias e as peripécias desta aventura. Uma vez, à falta de luzes, fizemos uma entrevista (dizem-me que das piores!) iluminada pelos faróis de um automóvel. Durante uma viagem de comboio – que vá lá saber-se porquê, foi toda feita no bar – chegámos ao nosso destino e tinham-nos roubado “apenas” uma mala com uma câmara! De outra vez, ajudei os Entre Aspas a levar o equipamento para os carros, que estavam a 1 Km do palco. Mas quando lá chegámos, o pesadíssimo amplificador que eu carregava afinal não era deles, e eu já não tinha forças para regressar ao palco com ele. Resultado: perguntou-se a alguém “Precisam de um amp?”, e nessa noite alguém ganhou um amp, mas outrém perdeu um amp… Outra, preciosa: em pleno Cais do Sodré, antes da final do Concurso de Música Moderna da CML (cujas eliminatórias tinham decorrido no inevitável Johnny Guitar), durante o jantar, um dos membros do juri – que é melhor não identificar – quis, durante a sobremesa decidir logo ali o vencedor, para depois «podermos beber uns copos à vontade», mas o restante júri declinou logo ali qualquer prática relacionada com os métodos do PCP…

Enfim: peripécias mil que se lembram ao cabo de vinte cinco anos. Quantas terão ficado esquecidas? Guardo para o fim os famigerados episódios do “Cazé”. Afinal foi este o diferendo com a RTP: o Pop Off propôs-se criar uma “novela rock” semanal sobre as aventuras e desventuras de um candidato a roqueiro, mas a RTP ripostou que no contrato apenas constava a produção de videoclips e notícias sobre a atualidade musical. Mas como o “Cazé” só foi banido passado uns dez episódios, o veto não caiu lá muito bem.

Com o “Cazé”, depois de me ter estreado como apresentador e entrevistador, estreei-me também como ator, pois dei corpo a Cazé Duarte, um músico dos subúrbios que tinha a ambição de ter uma banda (“os Fatelas”) e revolucionar o mundo com a sua música. Tudo dividido em etapas/episódios: Ele compôs músicas ele arranjou músicos, conseguiu um local para ensaiar, gravou um single, foi mostrá-lo às editoras, e assistiu, na fábrica da Valentim de Carvalho à prensagem do seu vinil de estreia “Já Estou Farto!”. Tudo isto foi uma aventura de contornos épicos. A personagem tinha uma poupa de roqueiro que só a Cristina Bizarro conseguia meter em pé, e era produzida dos pés à cabeça como um roqueiro de corpo inteiro. Todas estas gravações foram muito divertidas mas o cúmulo – da ingenuidade, diga-se – foi o episódio “da editora”. Como a “Latina Europa” era relativamente pequena, e o nosso herói ambicionava um escritório de topo, eu tive a lata de telefonar pessoalmente ao Tó Zé Brito, pedindo-lhe emprestadas por umas horas as instalações da Polygram (atual Universal) em Benfica. Tinha – e ainda hoje tenho – uma relação muito cordial com o Tó Zé, e tinha estado vinculado à editora com o meu grupo Os Afonsinhos do Condado. Meio aturdido com a ideia, o Tó Zé lá anuiu. Então, uma bela manhã, nos escritórios da Polygram em Benfica, a equipa do Pop Off substituiu o letreiro “Polygram” por outro a dizer “Discos Marados Lda” (a editora do “Cazé”). Numa porta logo ali ao lado colocou-se outro letreiro que dizia apenas “Patrão”. E os letreiros lá ficaram, todo o tempo que duraram as filmagens, isto é: a manhã inteira. Bonito bonito foi quando o verdadeiro patrão – o Sr Rodrigo Marin – chegou às instalações e deu com aquele espalhafato grotesco e surreal!…

Outro episódio divertidíssimo foi o “da gravação do single”. À falta de gente na equipa, contratámos ao “Ícaro” os músicos dos “Fatelas”, os muy respeitáveis Diamantino Ferreira (Baixo) e Manuel Amaro da Costa (Bateria). Com o grande Elvis Veiguinha aos comandos da gigantesca consola SSL dos estúdios Mundipress, criou-se um ambiente bastante autêntico de banda em estúdio, a vociferar ferozmente “Já estou farto/já estou farto/desta má vida” tudo com as sílabas fora do sítio, como convém a uma banda do Monte Abraão… Esse episódio foi gravado em menos de uma hora e foi dos mais divertidos da série.

Muitos outros acontecimentos foram vividos com mais ou menos intensidade. Foi memorável a viagem à Guarda, em pleno inverno, para cobrir um festival com os Censurados, os espanhóis John Holmes Underground e os É M’as Foice, com toda a gente amontoada no quarto gelado de João Ribas às cinco da manhã, a rever as imagens e o som do concerto no minúsculo visor da câmara de vídeo. Outra viagem memorável – esta em plena época estival – foi a ida ao Algarve para o primeiro videoclip dos Entre Aspas, cujas gravações no alto de uns montes ao pé de uns castros, foram absolutamente hilariantes. Viagem curtíssima, mas igualmente memorável (e estival!) foi a ida à Costa da Caparica para filmar,entre muitos rabiosques de bikini, o famoso “Sol da Caparica” dos Peste & Sida. Para a história ficou também – muito antes do “Rapública” – um concerto na Incrível Almadense com todo aquele elenco: General D; Black Company, Boss AC, Family, Zona Dread, etc. Não dá para esquecer.

A minha aventura no Pop Off não chegou ao fim do programa pois passado um ano de atividade foi-me proposto alterar as condições laborais e passar o cachet de tuta e meia para apenas meia tuta, quantia manifestamente insuficiente para alimentar a minha paixão compulsiva por carros antigos, e a coisa ficou por aí. Fiquei amigo de toda a gente, e toda a gente seguiu o seu caminho, inclusivamente o programa, que à data já era matéria de culto. Honra feita a todos os que conseguiram preservar o material e a memória de modo a que hoje possa ser (re)apreciado como valiosíssimo testemunho histórico!

Gimba