Oub'lá

Liima

 

“Os anos 1980 tinham muito mais volume e decadência. “Mete aí dez teclados!” Mesmo que seja para fazer um único som… (risos) E nós, quando fizemos o disco também não tivemos restrições nenhumas”

 

Ainda Madonna não sonhava tornar-se na lisboeta que é hoje e já Casper Clausen, músico dos dinamarqueses Efterklang, andava a arrendar apartamentos no bairro da Graça. Casper mudou-se para a capital na mesma altura em que editou ii, o primeiro disco da sua nova banda: os Liima. Mas Casper não larga os Efterklang nem por nada e os Liima, que agora editam o segundo trabalho, 1982, não são mais do que Casper Clausen com os amigos de há duas décadas Mads Brauer e ao Rasmus Stolberg e agora Tatu Rönkkö, o percussionista finlandês que começou por ser o baterista contratado dos Efterklang e que ajudou a motivar a construção desta nova banda.

Casper Clausen, entretanto, apaixonou-se pela capital lisboeta e acabou a atravessar o rio Tejo a caminho de Cacilhas para o estúdio que hoje tem por lá. Mas não foi em Cacilhas que foi registado este novo 1982: é um trabalho que nasceu em residências artísticas feitas em hotéis de luxo de Londres, Copenhaga, Berlim… e no luxuoso Conservatório de Viseu. Um disco de experimentações sonoras, que viaja até às memórias volumosas e decadentes da década de 1980.

 

 

Da última vez que conversei contigo os Liima estavam a editar o primeiro disco e tu tinhas-te mudado para Lisboa. O que aconteceu neste último ano e meio da tua vida?

Sim, já vivo cá há um ano e meio e já morei em diferentes partes da cidade de Lisboa. Entretanto arranjei um estúdio do outro lado do rio, em Cacilhas, por isso estou a trabalhar também num disco a solo.

Isso era algo em que pensavas quando te mudaste para cá: procurar inspiração para fazer música?

Eu mudei-me porque vivi seis anos em Berlim. Fiquei cansado da cidade. Queria vir mais para o Sul da Europa e, entretanto, Lisboa tornou-se uma espécie de porto de abrigo no Sul. Não tinha um grande plano a não ser vir para cá e ver o que podia acontecer. Até porque tenho essa facilidade de conseguir trabalhar em qualquer lugar que me apeteça.

E foi o que fizeste no primeiro disco dos Liima, ii. Uma banda a trabalhar à distância que só se reúne para gravar discos e compõe em residência artísticas.

Sim, tornou-se uma espécie de método dos Liima: trabalhar à distância e encontrar-nos para fazer residências de criação, em diferentes sítios e lugares. Neste 1982 fizemos quatro residências, por isso todas as canções foram escritas e quatro lugares diferentes. Uma delas, novamente em Portugal: no primeiro disco tinha sido na Madeira, e agora foi no conservatório em Viseu, durante um lindo festival chamado Jardins Efémeros. Eles receberam-nos durante uma semana e foi lá que escrevemos canções como “2-Hearted”. Antes disso tínhamos passado tempo em Londres, em Copenhaga e fizemos mais uma residência em Berlim.

 

 

“Em Liima sempre trabalhámos muito de forma equilibrada. E acho que aqui continua assim, mas também me parece que este é mais um disco de banda do que no início. Com a passagem do tempo estamos a conseguir ter um espaço mais igual entre todos… mas sinto, claro, que o Tatu é uma parte significativa dos Liima, porque se o tirarmos da equação… ficam os Efterklang! (risos)”

 

Um disco inspirado nos anos 1980 e que foi feito em 2017 em que vocês se permitiram andar a explorar, com canções mais longas. Quais são as diferenças do primeiro trabalho para este?

Acho que este disco é muito mais focado. O primeiro é uma espécie de lembrança de como os Liima nasceram. Nessa altura tentámos mesmo capturar a essência dos quatro a tocar na mesma sala, sem o foco no ponto de vista técnico, sem pensar muito. Aqui tivemos muito tempo, depois de gravar o disco, para trabalhar o som. Eu só fiz as minhas vozes mais tarde e construímos muitas camadas… este é muito mais um álbum de estúdio. Algo feito mesmo para ser gravado e não algo para ser apenas tocado ao vivo.

Quando conversei contigo a propósito do primeiro disco de Liima, fiquei com a ideia de que o Tatu Rönkkö tinha tido um papel muito importante: ele juntou-se a ti, ao Mads [Brauer] e ao Rasmus [Stolberg], que também formavam os Efterklang, e enquanto percussionista acabou por trazer-vos outras ideias. Qual foi o papel dele neste segundo disco dos Liima?

Eu já toco com os Efterklang há 20 anos e só conheço o Tatu há cinco. Mas em Liima sempre trabalhámos muito de forma equilibrada. E acho que aqui continua assim, mas também me parece que este é mais um disco de banda do que no início. Com a passagem do tempo estamos a conseguir ter um espaço mais igual entre todos… mas sinto, claro, que o Tatu é uma parte significativa dos Liima, porque se o tirarmos da equação… ficam os Efterklang! (risos) É verdade que ele é aquele condimento extra, ainda que nós os três tenhamos um papel diferente daquele que tínhamos nos Efterklang. Por exemplo: o Rasmus nunca foi tão baixista como é hoje. E mesmo eu, nunca cantei como canto em Liima.

Neste disco até usaste um vocoder/auto-tune. No tema “2-Hearted”.

É verdade! E odeio! Demorou bastante tempo até me habituar (risos) Estávamos a ensaiar em Viseu e o Tatu estava a gostar muito de usar vocoders e pediu-me para cantar com um. Disse que não gostava, mas lá usei. E acabei por me habituar e até a fazer sentido, porque a música chamava-se “2-Hearted”. É uma espécie de dualidade entre a voz limpa e o vocoder. Mas continuo a não gostar de auto-tune!

Descobriram outros instrumentos para este disco?

Neste disco, grande parte dos beats são feitos na bateria – e isso é diferente, porque dantes usámos uma MPC para fazer samples.

 

“Este é muito mais um álbum de estúdio. Algo feito mesmo para ser gravado e não algo para ser apenas tocado ao vivo”

 

E lembro-me de ver a fotografia de uma mão ensanguentada em cima de uma dessas máquinas de fazer samples…

(risos) Sim! Acho que o Tatu sentiu falta de ter baquetas nas mãos, de tocar mesmo bateria. Essa é uma das grandes diferenças. E eu também comecei a usar uns microfones diferentes: ao vivo parece que estou numa conferência de imprensa com quatro ou cinco microfones à minha frente! (risos)

Tanta eletrónica, tanta experiência, tantos microfones: também são referências da década de 1980?

Agora que dizes isso… os anos 1980 tinham muito mais volume e decadência. “Mete aí dez teclados!” Mesmo que seja para fazer um único som… (risos) E nós, quando fizemos o disco também não tivemos restrições nenhumas.

Têm feito digressões pelos EUA, mas residências artísticas, até agora, só pela Europa! Há planos para irem até lá?

Por enquanto não… temos alguns amigos em Los Angeles a quem estamos a pensar pedir ajuda nisso. Mas seria algo muito diferente para nós – seria algo mesmo muito distante! Mas confesso que tenho mais interesse em ir para Marrocos ou para a selva brasileira em vez de ir para uma casa luxuosa em Los Angeles.

Agora vais partir em digressão, deixas Portugal por uns tempos. Mas há uma altura do ano em que gostas mesmo de estar por cá: no Milhões de Festa.

Sim! Adoro! Milhões de Festa e Tremor são dois dos meus festivais favoritos. Digo a toda a gente para ir lá e espero que continuem pequenos e maravilhosos.

Há alguma hipótese de os Liima tocarem no Tremor ou no Milhões de Festa?

O que é que te parece isto, Lovers And Lollypops? (risos) Estou a mandar recados a toda a gente! 

 

“Milhões de Festa e Tremor são dois dos meus festivais favoritos. Digo a toda a gente para ir lá e espero que continuem pequenos e maravilhosos.”

 

Entrevista: Bruno Martins