Destaques

Como sobreviver a tanto festival de cinema

Há festivais a mais em Portugal? Sem dúvida, mas a proliferação de eventos de cinema tem uma vantagem: surge uma descentralização cinéfila que há uma década seria utópica. Rui Pedro Tendinha antecipa, para todo o ano de 2020, os certames com mais carisma.

 

Monstraré — Mostra Internacional de Cinema Social
15 a 18 de janeiro

Impulsionado pelo sempre ativo Loulé Film Office, a Monstraré é um dos acontecimentos que coloca o Algarve no mapa do cinema, tal como a recente edição do MED Cinema, pequena mostra incluída no espaço do festival louletano de músicas do mundo.

O que torna esta pequena mostra num caso merecedor de visita é a sua veia de consciência social, apostando-se em cinema com cariz de denúncia social. Além do mais, a escolha de filmes é criteriosa e costuma trazer ao auditório do magnífico Solar da Música Nova cineastas portugueses. As sessões têm entrada livre. Tem tudo para crescer e ganhar peso internacional…

 

Monstra — Festival de Animação de Lisboa
18 a 29 de março

Outro dos festivais que soube crescer muito nos últimos anos, em parte porque soube dar elán ao cinema de animação, tratando-o não como um “bicho-do-mato” apenas para especialistas nem como um mero chamariz para atrair criancinhas (nesse domínio, foi até criada a Monstrinha, onde se faz um serviço educativo francamente elogiado). Soube também afastar da luz dos holofotes o seu concorrente mais direto, o Cinanima.

Este ano promete continuar a ser mais mediático, sobretudo porque já foi anunciada uma exposição em torno dos filmes de animação do mestre Tim Burton.

Aliás, a importância da Monstra está patente na forma como o próprio mercado já seleciona estreias comerciais de filmes de animação em função do seu calendário…

 

Festival de Cinema Luso-Brasileiro de Santa Maria da Feira
12 a 19 de abril

Depois de ter passado de dezembro para abril, este pequeno grande festival já vai na 23ª edição e tornou-se ao longo dos anos uma instituição. Mas uma instituição das boas, daquelas que não se acomodam. A programação a cargo de Américo Santos (proprietário e curador do Cinema Trindade) alia um bom gosto evidente e uma vontade de experimentação notória. As curtas e longas brasileiras e portuguesas costumam desencadear um diálogo sempre estimulante entre as duas cinematografias. No Luso-Brasileiro têm também nascido projetos entre os dois países. Quem for à Feira pode também esperar ser rebocado para as atividades noctívagas com atores e cineastas convidados…

 

IndieLisboa
30 de abril a 10 de maio

Ganhou por direito estatuto e hoje é um dos maiores festivais de cinema em Portugal. Um festival que soube nunca perder sangue jovem e conseguir ser uma referência europeia no panorama do cinema de arte e ensaio.

Nos últimos anos, apostou muito e bem no novo cinema português. Vamos só esperar que a seleção de muitos documentários portugueses não venha a estrangular o meio devido ao trabalho já desenvolvido no DocLisboa. As más línguas dizem também que há um pedantismo que por vezes é contraproducente, mas o lado criterioso desta equipa que agora está renovada é inegável.

A escolha de convidados como Vincent Macaigne, Edgar Pêra ou Mia Hansen-Love diz muito do ADN desta festa de cinema…

 

FEST — New Directors New Films Festival
22 a 29 de junho

Um festival de cinema que é mais famoso lá fora do que entre nós. Desde 2004 que é assim, mas nos últimos anos tem crescido de forma bem sustentada, tornando-se num grande evento em Espinho, capaz de encher diariamente o Multimeios, maioritariamente através de conferências, masterclasses e workshops. 

O FEST é frequentado por jovens profissionais de todo o mundo e tem um clima de festa que liga bem com a brisa de verão da cidade. Além do mais, sabe fazer da oportunidade do network um dos seus encantos e tem nas tertúlias um dos seus grandes pontos de atração.

O seu único senão é a própria população de Espinho não se entusiasmar muito com a programação competitiva (raramente vemos sessões compostas na sala do Casino).

 

Curtas Vila do Conde
11 a 19 de julho

Um dos maiores festivais de cinema em Portugal e aquele que tem apontado uma linguagem de cinema mais perto de uma ideia de experimentação. O Curtas ao longo de 28 anos conseguiu colocar as curtas na moda, descobrir cineastas e mostrar que os festivais de cinema podem também interagir com a música e com as outras artes.

Um festival com uma verdadeira arte curativa na escolha dos filmes, dos convidados e dos focos. Se é elitista? Sim, um pouco, mas esse elitismo é uma alavanca de critério que evita a tendência para o amadorismo. É e continuará a ser o festival que melhor promove o prazer de se poder discutir sobre cinema, com ou sem copo na mão.

 

Festival de Cinema de Avanca — Encontros Internacionais de Cinema, Televisão, Vídeo e Multimédia
22 a 26 de julho

Promovido e criado pelo professor e produtor António Costa Valente, Avanca tem sido um poço de resistência num panorama que mediatiza os festivais mais centralizados e subsidiados. Quem por lá passa percebe que há um ambiente, uma atmosfera muito própria.

Como todos os bons pequenos festivais, faz-se valer pela proximidade, havendo uma diluição entre o público e os convidados.

Avanca tem outro trunfo: resgata algum do cinema do mundo mais difícil de apanhar e sabe chegar a um público juvenil, notando-se que a sua própria forma de produção à base do voluntariado faz sentido. Contudo, tem um problema: já dura há mais de dez anos e poucos são os que sabem da sua existência. Um case-study de comunicação pavorosa…

 

MOTELx — Festival Internacional de Cinema de Terror
10 a 15 de setembro

Será o festival em Portugal com mais lotações esgotadas, um festival só de filmes de género, neste caso o cinema de terror e de transgressão. Um festival que roubou ao Fantasporto a aura de mostrar o melhor que o cinema internacional de horror cria.

O “hype” que granjeou na última década é justo: nos corredores do São Jorge há um saudável feeling “geek”e, ao longo dos tempos, a equipa do Cineclube de Terror de Lisboa trouxe até Lisboa nomes como John Landis, Aris Lester ou Alejandro Jodorowsky.

Mais importante, conseguiu que uma nova geração de jovens portugueses quisesse fazer cinema de terror através da criação de um prémio relevante na competição nacional. O seu único problema nesta altura passa pela coincidência infeliz das mesmas datas da Comic Con Portugal.

 

Queer Lisboa — Festival Internacional de Cinema Queer
18 a 26 de setembro

Ao longo dos anos ganhou respeito e admiração, mostrando ser mais do que apenas uma manifestação de orgulho gay. O Queer aproveitou uma onda cada vez mais forte da temática LGBT no cinema de arte & ensaio em todo o mundo, mas conseguiu ser abrangente, ter uma excelente comunicação e um forte “good-will” da imprensa.

Para além do cinema, o Queer sabe também criar uma relação com Lisboa, sobretudo através de uma programação de festas sempre estimulante…

 

Cinecôa
(datas a anunciar)

Outro festival com o dedo de António Costa Valente mas com organização da CM de Vila Nova de Foz Côa. Exemplo de um serviço público importantíssimo que visa dar ao público do interior um contacto com um cinema de autor nacional e internacional.

É ainda um festival de contacto humano, um festival que acredita na presença dos atores e dos cineastas, tal como aconteceu em 2019 onde foi bonito ver a interação entre a plateia e os atores João Pedro Mamede, Mia Tomé ou Ricardo Pereira.

O Cinecôa, por estar perto do paraíso das paisagens do Rio Douro e ter à sua disposição o auditório do Museu das Gravuras Rupestres, tem uma enorme margem de progressão, embora já tenha trazido a esta terra duplamente património mundial gente como Hugh Hudson, Samal Elsjamova ou Benoît Jacquot…

 

Doclisboa
22 de outubro a 1 de novembro

Tornou-se um clássico entre os festivais nacionais. Depois de muitos rumos e estilos de liderança, este ano será o ano da mudança: entram Joana Sousa, Miguel Ribeiro e Joana Gusmão e espera-se que essa juventude se note nos pressupostos de um evento que sempre soube dialogar com as possibilidades do cinema de hoje. Espera-se que agora o DocLisboa possa ainda dar um golpe de rins capaz de questionar o futuro das práticas cinematográficas.

Se a imagem de marca do DocLisboa durante o reinado de Cintia Gil impunha um registo engagé, sente-se que há neste momento uma possibilidade de criar um festival ainda mais punk mas sem perder uma ideia de público global. 18 anos depois é ainda um festival cada vez com maior prestígio internacional. Entre os fãs há quem anseie que seja possível trazer nomes como Werner Herzog, João Moreira Salles ou um Raoul Peck.

E porque fluem muitas ideias e linhas de luta neste festival, as docnights são sempre um must. Mas não o confundam como um festival da copofonia…

 

Cine-Atântico — Mostra de Cinema Português Contemporâneo
(datas a anunciar)

O evento de cinema dos Açores. O crítico e jornalista José Vieira Mendes programa esta mostra do Cineclube da Terceira. Uma mostra que um dia será um festival e que pode ser também um chamariz turístico para Angra do Heroísmo, cidade com todas as condições para receber um evento internacional.

O ano passado, filmes como A Herdade e Variações esgotaram o Recreio dos Artistas mas, com mais escala, o Cine-Atlântico poderia ganhar maior impacto e trazer mais imprensa e cineastas. Os Açores merecem mais cinema e esta semente tem dado resultados muito curiosos…

 

Ymotion — Festival de Cinema Jovem de Famalicão
Novembro

Aqui só entra cinema feito por jovens. É uma regra para incentivar jovens ainda estudantes a competir num evento que já tem um “prize money” simpático. A vereação da juventude da Câmara organiza uma semana onde são dadas a conhecer curtas enviadas por jovens cineastas, sendo que no último fim-de-semana, espalhados pelo conselho, têm vindo a ser promovidos encontros com produtores, cineastas e atores, bem como sessões em antestreia.

O Ymotion dedica sempre ao Novo Cinema Português um foco, tendo já passado por esta cidade minhota (sem cinemas comerciais) programas em torno da Terratreme e Bando à Parte, duas das mais ativas produtoras em Portugal.

Pela noite dentro, há uma espécie de ordem de soltura e em 2019 Soraia Chaves, Joana Ribeiro e Isabela Valadeiro fizeram questão de brindar com os festivaleiros nos bares associados ao festival.

 

LEFFEST — Lisbon & Sintra Film Festival
13 a 22 de novembro

Criado e controlado por Paulo Branco, o LEFFEST é cada vez mais um festival de artes e de debate de ideias com o cinema como pretexto. Em 2019, sem as salas do Monumental, terá perdido escala e já se percebeu que em Sintra o público não é vulnerável à descoberta.

Ao longo dos anos, a lista de convidados é digna dos melhores na Europa e inclui nomes como Lou Reed, Bertolucci, David Lynch, Pedro Almodóvar, David Byne, Wes Anderson, Monica Bellucci, Willem Dafoe ou Juliette Binoche, havendo uma sinergia quase inexplicável entre eles e a cidade. 

Terá sempre detratores que insinuam que Branco promove os filmes que distribui neste festival, mas o que é certo é que os seus fóruns, a qualidade dos júris, os concertos e os red carpets das galas são verdadeiramente inatacáveis…

 

Porto/Porto/Doc — Film & Media Festival
Finais de novembro/dezembro

Dario Oliveira, vindo do Curtas Vila do Conde, criou para o Porto um espaço de encontro cinéfilo que reflete o novo cinema e debate as fronteiras daquilo a que se designa o cinema do real. Depois de seis edições, ganhou um público fiel, em parte face a um trabalho anual com sessões no Passos Manuel, e também graças a um reconhecimento da qualidade da programação por parte da imprensa.

A questão agora é perceber se o Porto/Post/Doc consegue crescer num país onde o DocLisboa é já uma referência internacional e onde o próprio público parece dar mais atenção às sessões fora de competição ( a secção Transmission é um caso de evidente empatia). Se não crescer mas conseguir sobreviver, não vem mal ao mundo: precisamos também de festivais de culto. E no Porto/Post/Doc não há concessões para um cinema fácil…