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Cinema português triunfa em Locarno

Um lago que se estende até ao limite do horizonte, composto por montanhas, por vales entrelaçados, pelas nuvens que circundam pelos seus cumes. Esta era a paisagem que se impunha, que se desenhava como num quadro só possível de ser vislumbrado num dos cantos mais belos da Suíça: Locarno. Uma paisagem que acompanha todos aqueles que visitam um dos festivais de cinema mais importantes do mundo do cinema: o festival de Locarno. Setenta e duas edições da mostra de cinema, que se compuseram — e, de certa forma, celebraram — este ano com uma das presenças mais fortes de cinema português na programação.

Fora de Competição, José Filipe Costa apresentou Prazer, Camaradas!, um documentário que cruza as linhas da ficção para ilustrar a história das cooperativas no Ribatejo após o 25 de Abril. Um filme sobre “o outro lado” da revolução: o lado da aprendizagem social e, em particular, da sexualidade. Um jogo constante de passado e presente, um olhar criado dentro de um quadro ficcional e encenado, que nos mostra, de uma forma orgânica e natural, as questões que ressaltaram após o 25 de Abril. Questões sociais que, ainda nos nossos dias, são de extrema pertinência e de crescente urgência. Um espelho do passado, sobre o presente, mas também um apelo à reflexão do nosso futuro, enquanto indivíduos e enquanto país.

Na Competição Internacional, três nomes portugueses: João Nicolau, Basil da Cunha e Pedro Costa.

João Nicolau apresentou Technoboss, um filme conduzido por Miguel Lobo Antunes, que interpreta o papel de Luís Rovisco, um agente comercial divorciado, na idade da reforma e que é levado até ao sul de Portugal, onde se reencontra com uma antiga paixão. Depois de John From, um filme que nos mostra as paixões e inseguranças da adolescência, João Nicolau apresenta-nos, em Technoboss, um olhar doce, inocente, cómico (e musical) sobre as (pequenas) tragédias da vida, em que a realidade e o imaginário ficcionais se cruzam exponencialmente.

O Fim do Mundo é a primeira longa-metragem de Basil da Cunha, realizador luso-suíço que vive na Reboleira e que retira desse bairro as histórias, as personagens, os atores e a inspiração para a sua criação cinematográfica. O Fim do Mundo retrata o regresso de Spira ao bairro. Um regresso que dá mote ao desenrolar de inúmeras situações: incêndios e violência, mas também novas descobertas, novas paixões, novas (e antigas) amizades. Acima da linha narrativa ficcional, este filme problematiza e questiona os olhares e as conceções sobre os subúrbios — o eterno desconhecido, o eterno alvo de visões exteriores — e, acima de tudo, questiona e problematiza a contemporaneidade: a sociedade atual e a (passividade d’) a nova geração.

O grande vencedor da edição deste ano foi Pedro Costa, que apresentou Vitalina Varela: o filme, a história, a personagem, a atriz, a mulher. Um filme que se esboça a partir da história da chegada de Vitalina a Portugal, depois do falecimento do seu marido. Uma história rodeada de escuridão, de sombras, de onde ressalta (de forma inevitável) o olhar, o corpo, o ser de Vitalina. Uma história de amargura, de ódio, de luto, conjugado com pequenos relances de esperança, com o potencial de criação de um lugar numa casa estranha, num país estranho, graças ao contacto, ao apoio de uma comunidade. Um último olhar sobre o antigo protagonista dos mais recentes filmes de Pedro Costa, Ventura, com momentos subtis de toque e de cruzar de corpos que denotam aquele que foi — e é — um momento de passagem de testemunho. Vitalina Varela é um passo em frente na cinematografia de Pedro Costa, mas, acima de tudo, é um novo espaço para o poder, para a mística que rodeia Vitalina Varela poder prevalecer (e reinar).

Texto: Teresa Vieira