“Uma das razões por que adoro trabalhar com o Miguel Araújo (como aconteceu no espectáculo Como Desenhar Mulheres, Motas e Cavalos) e com o João Só (como aconteceu no programa Telebaladas, do Canal Q) é que eles são uma espécie de versão 2.0 de mim. Partilhamos o sentido de humor, uma certa geekness na maneira como amamos a música, uma incontrolável vontade de contar histórias; só que, em cima disso, eles têm o dom para a música, coisa com a qual eu só posso sonhar, dada a minha total e completa incapacidade de tocar qualquer instrumento (arranho a pandeireta), cantar (a não ser para efeitos de comédia) ou juntar notas de música de forma harmoniosa. Não admira que eu me sinta completo quando fazemos qualquer coisa juntos.

Desta vez, a bem dizer, eu fiz muito pouco. Disse ao Miguel que adorava que o programa que faço com sodôna Ana Galvão na RTP-1, Animais Anónimos, tivesse uma canção-tema, à boa maneira das orelhudas e lendárias canções-tema de outros programas sobre animais – Fungagá da Bicharada, de José Barata Moura e Arca de Noé, de Carlos Alberto Moniz. Apanhei o Miguel em eufórica temporada de concertos e gravações, pelo que recorremos à ajuda do João Só para fazer a sua magia com base naquilo que saísse da mente Araujónica. Como fã do disco que eles fizeram os dois há uns anos, enquanto Mendes & João Só (disco que me valeu conhecê-los pessoalmente), era de sonho esta reunião. Convidámos a Ana Bacalhau para cantar, por duas razões: porque vale sempre a pena convidar a Ana para cantar o que quer que seja, e também porque um dos sonhos do Miguel era que a Ana cantasse uma canção dele.

Ora acontece que um dos sonhos da Ana Bacalhau era cantar uma canção do Miguel Araújo. E foi assim que, depois de um maravilhoso brainstorm de e-mails escritos e cantados que foi, para mim, um prazer acompanhar – é sempre notável ver o processo a acontecer à nossa frente! – deste encontro saíram 3 minutos e 45 segundos de perfeição pop, com a voz cristalina e incomparável da Ana e a produção colorida e retro do João a dar vida ao desenho animado de palavras construído pelo Miguel em torno da ideia de que todo o animal procura um El Dorado, um Shangri-la onde, finalmente, haja paz, amor e nenhum risco de extinção.

A canção já não foi a tempo de integrar os primeiros episódios mas, em breve, tocará – numa versão resumida – no genérico. A versão integral, bem como a letra, está aqui para se entranhar na vossa massa cinzenta.” (Nuno Markl, em acavedomarkl.pt)

Há um paquiderme enorme
Uma arara e um galiforme
E o típico canídeo que não dorme

Há uma foca cinza-rato
E um rato cinza-fato
E um lince que de facto é só um gato

Um lama ululante
E um equídeo equi-distante
Do trote do trôpego elefante

À cabeça da manada
De cabeça levantada
É o caracol que diz onde é a estrada

Animais
Anónimos animais
Vão atrás do el dorado
Reino encantado
Perdido nos matagais

Animais
Em busca do perdido
Paraíso prometido
Do pacato e recatado anonimato animal

O dromedário dorme
E o clarim do galiforme
Assusta o pobre paquiderme enorme

Que larga a trote rumo ao nada
Deixando as rêzes tresmalhadas
Até que a arara Cutuque a manada

Animais
Anónimos animais
Vão atrás do el dorado
Reino encantado
Perdido nos matagais

Tralalala
Lalalala
Shalalala
Haja fêmea ou macho, mocho ou rato, um bicho que ache
O shangrila
dos anónimos animais
Anónimos animais