Ao longo dos anos 20-30, face à multiplicação de emissoras por todo o mundo, a indústria radioeléctrica foi encontrando novos desafios tecnológicos, comerciais e políticos.

No contexto europeu, a política de radiodifusão era tendencialmente restritiva: em 1925, as emissoras alemãs contavam sempre com participação maioritária do Estado, que impunha o pagamento de taxas de radiodifusão; nos anos 30, a rádio caiu no controlo total do regime nazi. Em Inglaterra, a partir de um consórcio de companhias radioeléctricas, foi criada a BBC, em 1922, de forma a promover a compra de equipamentos, mas que em 1927 passou para o controlo do Estado. Em França, coexistiram interesses públicos e privados, com uma regulamentação instável e pouco definida. Em todos estes países, e em particular nos EUA, a indústria de radiocomunicações especializou-se, procurando adequar os equipamentos às crescentes exigências do público.

Em Portugal, a criação da Emissora Nacional coincidiu com a afirmação do Estado Novo, definindo, em larga medida, a sua estrutura de funcionamento e o tipo de programação. Em 1932, a AGCT abriu concurso para fornecimento de uma estação emissora de onda média de 20kW, adjudicado à International Standard Electric Company, instalado em Barcarena. Nesta altura previa-se já a aquisição de um retransmissor para o Porto e de um emissor de onda curta que teria por objectivo (…) levar a palavra lusíada a todos os portugueses espalhados pelo nosso vasto Império, pelo Brasil e pela América do Norte.

Livro de honra da Emissora Nacional. A primeira entrada data de 1 de Agosto de 1935. Arquivo RTP.

Livro de honra da Emissora Nacional. A primeira entrada data de 1 de Agosto de 1935. GMD/RTP.

Com a organização dos serviços radioeléctricos e dos estúdios da Emissora Nacional, em Junho de 1933, foi reforçado o interesse público da radiodifusão e o monopólio de Estado, sem excluir a actividade de emissores privados mas tornando obrigatório o pagamento de uma taxa por todos os proprietários de emissores ou receptores eléctricos.

Os três estúdios de gravação e a sede da Emissora foram instalados na R. do Quelhas. Aqui iniciaram-se as gravações de concertos sinfónicos de orquestra, agrupamentos musicais e palestras. Em Abril de 1934 tiveram início as emissões experimentais e em Junho foi constituída a Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, dirigida pelo Maestro Pedro de Freitas Branco. Entre as emissões experimentais, destacou-se a cobertura do discurso eleitoral de Salazar, transmitido em directo para vários pontos do País em Dezembro de 1934.

A 1 de Agosto de 1935, a Emissora Nacional de Radiodifusão (EN) foi oficialmente inaugurada, tendo por primeiro Presidente Henrique Galvão. O período experimental tinha sido assinalado por uma programação que procurava demarcar-se dos “programas ligeiros” das rádios privadas, assentando sobretudo na transmissão musical erudita e na emissão falada, entre mensagens didácticas e propaganda, que frequentemente lhe valeram o epíteto de “Maçadora Nacional”. Procurando obviar algumas das principais críticas, Galvão reformulou a programação para emissões musicais mais acessíveis e atraentes para o público, embora mantendo uma orientação pedagógica e cultural.

Receptor de rádio fabricado pela RCA, comercializado pela Emissora Nacional (1935). Museu RTP.

Receptor de rádio fabricado pela RCA, comercializado pela Emissora Nacional (1935). GMD/RTP.

Nestes primeiros anos, a EN acompanhou o desenvolvimento tecnológico internacional, estando mesmo na linha da frente entre congéneres europeus no que respeita, por exemplo, à gravação de emissões, introduzida em 1936. A central técnica, instalação automática que acompanhava o serviço de controlo de programas de onda-média e onda curta, terá sido também pioneira na Europa.

A primeira Lei Orgânica da Emissora Nacional, publicada em Setembro de 1940, autonomizou-a em relação à AGCT, prevendo a organização dos serviços, a execução do Plano de Radiodifusão Nacional e a criação de emissores regionais no Porto, Coimbra e Faro. Em Fevereiro do ano seguinte, a direcção da EN foi assumida por António Ferro, que via finalmente cumprido o plano de integrar a radiodifusão estatal na estratégia global de propaganda. Em 1944, a EN foi colocada na dependência do Secretariado de Secretariado Nacional de Informação, Cultura Popular e Turismo (SNI).

Emissões da BBC em português durante a Segunda Guerra Mundial. Arquivo RTP.

Emissões da BBC em português durante a Segunda Guerra Mundial. GMD/RTP.

Se no plano propagandístico interno é bem conhecido o papel desempenhado pelos órgãos de comunicação, e em particular da EN, na tradução da mensagem política do Estado Novo, também os contextos internacionais de conflito, sobretudo a Guerra Civil de Espanha e a Segunda Guerra Mundial, reflectem a história da Emissora neste período e, através dela, a história do País. Num contexto que foi também de guerra entre propaganda aliada e alemã, com palco privilegiado em Portugal, intensificou-se a censura que, transversal a todos os meios de comunicação e a todo o período do Estado Novo, se estendeu nesta fase à proibição de emissões radioamadoras.

O alargamento da capacidade de transmissão da EN, fruto das exigências da radiodifusão colonial e com as comunidades portuguesas, a par da posição geográfica do País e territórios coloniais, conferiu-lhe uma centralidade particular no quadro de construção do mundo globalizado.